Correio Braziliense
Este é o momento em que as coisas não são
exatamente como aparentam ser. Há um jogo maior no sentido de impressionar a
opinião pública
A campanha eleitoral começa a aparecer no horizonte político brasileiro. De várias maneiras. O ex-governador Romeu Zema, de Minas Gerais, candidatíssimo, abriu o verbo e atacou sem meias palavras os poderes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Alguns deles, por sua vez, continuaram a exibir argumentos em momento que, dia a dia, se torna mais tenso. O governo Trump, que não perde oportunidade de cometer deslizes, despacha policial brasileiro de volta para casa. O presidente Lula enxerga no episódio momento especial para retaliar. Manda retirar credenciais de policial norte-americano que estava em Brasília. Brigar com Washington rende votos no Brasil.
Este é o momento em que as coisas não são
exatamente como aparentam ser. Há um jogo maior no sentido de impressionar a
opinião pública. O candidato da extrema-direita é o senador Flávio Bolsonaro,
nascido em Resende, estado do Rio de Janeiro, em abril de 1981, filiado ao
Partido Liberal, formado em direito pela Universidade Cândido Mendes. O pai
dele, Jair, foi presidente da República, disputou a reeleição e perdeu. Depois,
tentou o golpe de Estado. O ex-presidente nunca enganou ninguém. Elogiou
torturadores, disse que as forças da repressão deveriam ter matado mais gente
no Brasil e fez apologia pública do retorno ao tempo do Ato Institucional
número 5.
Ninguém deve duvidar da sinceridade do
ex-presidente, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Ele não mudou. Faz
constantes visitas a médicos e hospitais com objetivo de sensibilizar a opinião
pública com sua propalada saúde frágil. Seu filho Flávio tornou-se candidato à
Presidência da República por uma indicação solitária do pai, que apontou na sua
direção sem qualquer consulta a partido ou correligionários. Foi ato pessoal,
impositivo. Eu quero, eu posso, eu mando. Flávio é candidato sem programa, sem
apoio de boa parte de seu partido, que não participou do processo de seleção e
escolha do candidato.
Flávio não pode falar. Nem deve. Se repetir
as falas do pai, vai perder votos. Ele não consegue nem anunciar projetos que
eventualmente se choquem com os objetivos paternos. Além disso, o candidato
cometeu seus pecadilhos, maiores ou menores, ao longo de sua discreta
experiência política. Antes de se eleger senador, exerceu quatro mandatos
consecutivos na famosa Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), quando
homenageou milicianos, é acusado de montar um sistema de rachadinhas e comandou
loja de chocolates em shopping da Zona Oeste que mantinha peculiar faturamento
constante. Além disso, há a mal explicada operação de crédito no BRB — Banco de
Brasília — para aquisição de mansão no Lago Sul, na capital federal.
Os outros candidatos são menos conhecidos e
ainda não movimentam as massas. Ronaldo Caiado, nascido em Anápolis em setembro
de 1949, é médico, formado no Rio de Janeiro, com especialização em ortopedia e
traumatologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
professor universitário, fluente em inglês e francês, produtor rural que
começou a ganhar notoriedade ao presidir a União Democrática Ruralista (UDR)
entre 1986 e 1989, período de intensos debates sobre reforma agrária no Brasil.
Ele não esconde sua posição política. É rival do Partido dos Trabalhadores. Foi
deputado federal por Goiás desde 1991 até 2015. Senador por seu estado e
governador a partir de 2018, reeleito em 2022.
Ronaldo Caiado fala abertamente de seus
projetos. Defende a privatização de empresas estatais, a redução do estado,
ajuste fiscal, o incentivo ao agronegócio, o feroz combate ao crime organizado,
acena com anistia ampla e irrestrita a todos condenados pela tentativa de golpe
institucional no início do governo Lula. Ele propõe a pacificação do país, em
ato semelhante ao do presidente Juscelino Kubitschek, mineiro que foi senador
por Goiás. JK perdoou os militares que tentaram o golpe de Estado contra ele. A
candidatura de Caiado divide a direita e os conservadores.
Romeu Zema é uma novidade, que, não por
acaso, pertence ao Partido Novo. Mineiro de Araxá, nascido em outubro de 1964,
nunca se envolveu com política antes. Foi governador de Minas Gerais em dois
mandatos consecutivos e, agora, olha para a Presidência da República. Seu
currículo é simples. Possui graduação em administração de empresas pela
Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Iniciou sua carreira no Grupo Zema,
empresa familiar fundada pelo avô em Minas Gerais. Atuou em várias áreas da
companhia até se tornar presidente do grupo, que atua no varejo,
consórcios, serviços financeiros e energia. É conhecido como um administrador
voltado para eficiência e redução de custos. Sua atuação em Minas Gerais
privilegiou o ajuste fiscal, controle de gastos, privatizações e melhoria do
ambiente de negócios.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o
pretendente com maiores chances de vitória, embora sua rejeição no eleitorado
ultrapasse os 50%. Não menciono os demais que, neste momento, não parecem ter
boas possibilidades de vencer. Lula, ao contrário, com seus mais de 80 anos,
viaja, exibe boa saúde, fala sobre tudo que lhe vem à cabeça. É um vencedor. Já
ganhou três eleições e emplacou um poste chamado Dilma Rousseff. Disputa sua
quarta e última eleição. Tem chances de vitória, empurrado pelo Partido dos
Trabalhadores, com suas tintas de esquerda e sindicalismo radical. Suas ideias
políticas estão solidamente plantadas nos anos setentas, do século passado,
quando havia guerra fria e a revolução em Cuba incendiava as mentes da
juventude na América do Sul. Ele tem dificuldade em lidar com a globalização.
Os principais nomes são esses. As discussões
de agora nem sempre revelam suas verdadeiras intenções. O que está em jogo é o
poder. Vale tudo para conseguir acesso à cadeira presidencial.

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