segunda-feira, 20 de abril de 2026

Como se lê o kkkkkk em Portugal, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Comparado com os sonoros rárárá, rêrêrê, ririri, rôrôrô e rururu, o kkkkkk é só um cacarejo

Se você escrever kkkkk para sua namorada lisboeta, ela lerá kappakappakappakappa

Os leitores mais regulares desta coluna sabem de minha aversão pelo kkkkkk com que muitas pessoas encerram suas mensagens pela internet. Sabem também de minhas razões para isto. Primeiro, na vida real, ninguém ri kkkkkk, mas de outras maneiras, muito mais ricas. A começar pelo rá-rá-rá, uma explosão aberta e sonora, um brado de bem-estar no mundo. Ou o rê-rê-rê, um riso de desprezo, de ironia. E o ri-ri-ri, uma forma afetiva de rir, embutindo uma crítica ao que se ouviu. E não para por aí.

Temos também o rô-rô-rô, uma risada gorda, bonachona, feliz da vida. E o ru-ru-ru, tão significativa quanto o rá-rá-rá, mas, me parece, mais comum entre pessoas de idade. Há ainda outra forma de rir, o sofisticado quá-quá-quá, uma risada autorreferente, uma metarrisada, como se o ridente estivesse citando uma risada —nunca ouvi ninguém rir quá-quá-quá espontaneamente. Enfim, tudo isso para dizer que, em comparação, o kkkkkk não passa de um cacarejo.

O kkkkkk só existe por escrito e no final da mensagem, como se o sujeito estivesse rindo do que ele mesmo escreveu, quando deveria nos dar a opção de rir ou não. Além disso, rá-rá-rá, rê-rê-rê, ri-ri-ri, rô-rô-rô e ru-ru-ru são universais, soam igual em toda parte. Já o americano ou o inglês, diante do nosso kkkkkk, rirá keikeikeikeikeikei, que é como se pronuncia o k em inglês.

O pior é que nem em Portugal seremos compreendidos, porque, lá, a letra k se lê kappa, segundo o original grego. Portanto, se você mandar para a sua namorada lisboeta uma mensagem com kkkkkk, ela lerá kappakappakappakappakappakappa e não perceberá o que você, o zuca, quis dizer com aquilo.

Atenção, esta crônica não é uma censura, apenas uma observação linguística. O kkkkkk é uma invenção da internet e, como tal, um dia poderá ser desinventada. No tempo das cartas à mão ou datilografadas, colocadas num envelope e este fechado com uma lambida, ninguém as terminava com kkkkkk. Um dia, quem sabe, chegaremos ao kêkêkê, ao kikiki, ao kókókó e, quem sabe, ao kukuku. Kkkkkk!

  

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