Folha de S. Paulo
Comparado com os sonoros rárárá, rêrêrê,
ririri, rôrôrô e rururu, o kkkkkk é só um cacarejo
Se você escrever kkkkk para sua namorada
lisboeta, ela lerá kappakappakappakappa
Os leitores mais regulares desta coluna sabem de minha aversão pelo kkkkkk com que muitas pessoas encerram suas mensagens pela internet. Sabem também de minhas razões para isto. Primeiro, na vida real, ninguém ri kkkkkk, mas de outras maneiras, muito mais ricas. A começar pelo rá-rá-rá, uma explosão aberta e sonora, um brado de bem-estar no mundo. Ou o rê-rê-rê, um riso de desprezo, de ironia. E o ri-ri-ri, uma forma afetiva de rir, embutindo uma crítica ao que se ouviu. E não para por aí.
Temos também o rô-rô-rô, uma risada gorda,
bonachona, feliz da vida. E o ru-ru-ru, tão significativa quanto o rá-rá-rá,
mas, me parece, mais comum entre pessoas de idade. Há ainda outra forma de rir,
o sofisticado quá-quá-quá, uma risada autorreferente, uma metarrisada, como se
o ridente estivesse citando uma risada —nunca ouvi ninguém rir quá-quá-quá
espontaneamente. Enfim, tudo isso para dizer que, em comparação, o kkkkkk não
passa de um cacarejo.
O kkkkkk só existe por escrito e no final da
mensagem, como se o sujeito estivesse rindo do que ele mesmo escreveu, quando
deveria nos dar a opção de rir ou não. Além disso, rá-rá-rá, rê-rê-rê,
ri-ri-ri, rô-rô-rô e ru-ru-ru são universais, soam igual em toda parte. Já o
americano ou o inglês, diante do nosso kkkkkk, rirá keikeikeikeikeikei, que é
como se pronuncia o k em inglês.
O pior é que nem em Portugal seremos
compreendidos, porque, lá, a letra k se lê kappa, segundo o original grego.
Portanto, se você mandar para a sua namorada lisboeta uma mensagem com kkkkkk,
ela lerá kappakappakappakappakappakappa e não perceberá o que você, o zuca, quis
dizer com aquilo.
Atenção, esta crônica não é uma censura,
apenas uma observação linguística.
O kkkkkk é uma invenção da internet e, como tal, um dia poderá ser
desinventada. No tempo das cartas à mão ou datilografadas, colocadas num
envelope e este fechado com uma lambida, ninguém as terminava com kkkkkk. Um
dia, quem sabe, chegaremos ao kêkêkê, ao kikiki, ao kókókó e, quem sabe, ao
kukuku. Kkkkkk!

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.