sexta-feira, 3 de abril de 2026

Dinheiro e religião, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

O que significa uma igreja manter um banco no seu interior e no mesmo endereço? Igreja como mero ramo de negócio lucrativo

A frequência de notícias de pastores e missionários de igrejas evangélicas em casos de anomalias envolvendo formas não convencionais de ganhar dinheiro, apuradas pela polícia e pela Justiça, indica que o problema passou dos limites da “normalidade”. Entre as mais recentes estão casos ligados a algumas igrejas evangélicas neopentecostais.

O que significa uma igreja manter um banco no seu interior e no mesmo endereço? Igreja como mero ramo de negócio lucrativo. Em vez de sacrário, um gasofilácio sem fundo. Por que o dinheiro nas mãos dessa gente torna-se isento de suspeita? Supostamente porque esses religiosos falam e agem em nome de Deus. Mas fomentar essa crença transforma esse negócio de falar em nome de Deus em negócio suspeito.

É que, dinheiro sujo, ao passar pelas mãos de quem se diz de Deus, fica limpo. Mesmo que não fique. Para certas religiões não importa o que as coisas são, mas o que parecem ser.

Seguindo a lógica bíblica da separação de que se dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, não seria melhor que Deus tivesse CPF? De modo que, se ele invadir a seara de César, pague a César os tributos que lhe cabem.

No Brasil, antes mesmo do primeiro vagido, cada criança já recebe, sem solicitar, compulsoriamente, o seu número de CPF. Já se torna devedor potencial do imposto de renda por algum dinheiro que algum dia venha a receber. Se o homem é criado à semelhança de Deus, e se a sociedade é relacional, baseada na reciprocidade dos seres que a compõem, não há por que negar a Deus, naqueles que em nome dele falam, a semelhança que, em troca, lhe toca. É necessário concluir no Brasil o processo de extinção dos estamentos e das imunidades e privilégios que reivindicam. Igualdade já, antes que seja tarde!

Certas religiões e seitas surgiram nas últimas décadas como álibi preventivo para o uso irregular de dinheiro em mãos erradas obtido de modo errado. Lembro-me de quando, a partir de meados dos anos 1950, de repente, botequins se transformavam em templos, em questão de horas. Modestos, é bem verdade.

Aos berros, pastores passaram a contar aos novos crentes seus enormes pecados por serem membros do gênero humano, pecados que as pessoas nem sabiam que haviam cometido sem cometer. Para livrar-se desse fardo, bastava aceitar Cristo como salvador que cada qual seria salvo pela fé. De repente, os salvos, aliviados, começavam a fazer pingar o dízimo no gasofilácio. Não só o da gratidão, mas também o da prevenção.

A grande diferença entre católicos e evangélicos é justamente a de que os católicos nascem culpados do pecado original, não cometido por eles. Nascem com o crédito do perdão divino na renovação voluntária dessa pecaminosidade, reiterada, se reconhecida na confissão dos pecados acumulados.

Os católicos têm ainda, na morte, o benefício do purgatório, no caminho do céu, em vez do inferno, momento transitório de finalização de um rito de purificação pelo fogo. Viver é muito perigoso, como lembrou Guimarães Rosa.

A Reforma protestante aplainou o caminho para o céu e estabeleceu que o céu já é antecipado pela fé. Os crentes já estão remidos antes de pecar. A religião, de quem opta por ela, já é um estado de antecipação do mundo celestial. Tudo que se faz nela e por meio dela já está purificado Mesmo mãos sujas são insujáveis.

Só que, ao que parece, esqueceram de combinar isso com Deus. Pelo menos, esqueceram de combinar com a polícia e a Justiça que, em nome de César, têm ido atrás dos que acham que, por serem crentes e membros de igrejas “assim” com Deus, estariam livres das grades.

Talvez tenha chegado a hora de reconhecer que Deus mesmo não conseguiu manter limpas as mãos dos que pecam em nome da fé. E convencer César a estabelecer rigorosas regras humanas para abertura e funcionamento de igrejas e seitas. Como as há para botequins.

O direito à liberdade de crença e de fé precisa ser reinventado em nome das razões de Estado e da igualdade jurídica, em defesa da própria fé. De modo que seja suprimido o pressuposto que aqui no Brasil vai se tornando iníquo, o de que a salvação pela fé abre as portas da impunidade e da delinquência fiscal e política.

Uma boa e necessária medida seria a de definir critérios legais regulamentadores da separação entre Estado e religião. Nada de celebrações, ritos, cultos, orações, cânticos, louvores em recintos do Estado, palácios governamentais, mesmo de residência de governantes, do Legislativo, do Judiciário e do Executivo.

Não se trata de proibir religião, mas de assegurar-lhe, qualquer que seja ela, que o melhor e mais apropriado lugar para exercê-la é o templo. Os lugares sagrados das respectivas concepções do sagrado, e não os lugares profanos, que lhes são impróprios. Profanação pode ser crime.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

 

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