segunda-feira, 20 de abril de 2026

Dissonância cognitiva, Denis Lerrer Rosenfield *

O Estado de S. Paulo

Os fatos são obliterados em proveito de uma narrativa que procura conquistar a opinião pública. Uma vez que já perderam no combate, tudo fazem para impor a sua narrativa

O mundo tal como existia a partir da 2 . ª Guerra Mundial desmoronou. Vivemos hoje a sua derrocada progressiva, com o enfraquecimento e o desaparecimento daí resultantes de suas instituições. Os horrores da 2.ª Guerra deram lugar, naquele então, a tratados internacionais que respondiam aos interesses das potências vencedoras. Note-se, todavia, que a paz tinha um significado restrito, válido para a Europa Ocidental, não se aplicando ao Leste Europeu. Enquanto a guerra desaparecia desse território limitado, outrora considerado o centro do mundo, ela proliferava pelo mundo afora. Exemplos são inúmeros nas invasões de Hungria, República Checa e Afeganistão, no Vietnã, na Argélia, no Iraque e várias no Oriente Médio, além das africanas. Tudo sustentado no equilíbrio militar nuclear.

No entanto, estamos vivendo uma espécie de nostalgia, a de um mundo idílico perdido, como se a história tivesse perdido um eixo que nunca o teve. Façamos uma analogia. Stefan Zweig, em sua época, viveu tragicamente a sua nova realidade quando viu se esfacelar o seu mundo. Em 1941, quando escreve seu livro O mundo de ontem, relata como a bolha em que vivia explode, visto que tudo apostava num progresso incessante da humanidade em função de valores mais altos, ancorados em sua experiência própria na cultura europeia, mormente alemã e austríaca. Era o mundo das belles lettres, da poesia, da música e da literatura.

Tem desse mundo uma profunda nostalgia, vendo-se desarmado intelectualmente diante de sua nova realidade. Em sua correspondência com Einstein, Freud, em sua perplexidade, foi levado a pensar o significado da guerra, enquanto Zweig ficou preso à sua própria reminiscência, isolado e perdido. Não lhe passava pela cabeça que o mundo hobbesiano da guerra de todos contra todos poderia comparecer novamente, sendo considerado algo que tinha sido superado definitivamente. Qual não foi seu espanto quando a figura bíblica de Behemoth, monstro da morte e da destruição, bateu à sua porta. O mundo que se autodestruía o levou ao seu próprio suicídio, em 1942, em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

A ausência de novas categorias capazes de dar conta deste novo fenômeno da guerra, aliada ao intenso uso de mídias sociais e sites jornalísticos mundo afora pela esquerda e pela rede islamista, faz com que, na guerra dos EUA e Israel contra o Irã, fatos desapareçam diante de narrativas mistificadoras. Vitoriosos são apresentados como derrotados e os derrotados como vitoriosos. Atente-se à necessária distinção entre uma perspectiva militar e uma política, sendo essa última a mais propícia para tergiversações ideológicas e religiosas. Os objetivos militares israelenses e americanos são basicamente os mesmos, embora o seu enfoque político tenha ênfases diferentes.

Militarmente, os objetivos da guerra já foram alcançados. Eliminação das lideranças religiosas e militares, obliteração dos sites nucleares, ficando ainda pendente o urânio enriquecido que jaz sob escombros, a destruição de mais de 80% dos lançadores de mísseis balísticos, assim como de seus estoques e fábricas, a marinha iraniana descansando no fundo do mar, a aniquilação das defesas antiaéreas e o aniquilamento da Força Aérea. Seus satélites como Hamas, Jihad Islâmica e Hezbollah foram severamente atingidos. O Irã tornou-se uma pálida figura do que foi. Acrescente-se ainda uma economia declinante, inflação galopante e perda de valor da moeda. Como se pode, sob essas condições, clamar por vitória? Politicamente, porém, colocar como objetivo a mudança de regime é algo que se situa para além da força militar, por depender fundamentalmente de uma sublevação do povo iraniano, tarefa essencial sua.

Contudo, certa cobertura jornalística e de comunicação em geral está produzindo uma forma de dissonância cognitiva ao obedecer a orientações ideológicas. Com efeito, tem-se frequentemente a impressão de que o Irã é o vencedor dessa guerra, enquanto os EUA e Israel são os grandes derrotados. Os fatos são obliterados em proveito de uma narrativa que procura conquistar a opinião pública. Uma vez que já perderam no combate, tudo fazem para impor a sua narrativa. A batalha, para eles, desenrola-se principalmente nos meios de comunicação, jornalísticos e nas redes sociais. Chega-se, inclusive, hoje a um aparente paradoxo. Ao se ler sites jornalísticos nos Emirados Árabes, no Kuwait, no Bahrein e na Arábia Saudita, tem-se uma visão muitas vezes mais veraz do que em relatos que seguem a narrativa esquerdista mundial. Jornalistas árabes indagam-se, perplexos, como se pode ainda falar de uma vitória do Hamas e da teocracia iraniana, quando estão aos frangalhos, contentando-se com o que se pode denominar de uma vitimização de Tânatos, figura da morte, por eles mesmos produzida. Bastaria fazer uma leitura de fatos, em vez de uma adesão irracional a concepções mistificadoras.

Zweig sucumbe à nova realidade, a mistificação dos fatos ignora essa mesma realidade. 

*Professor de Filosofia na UFRGS

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