Folha de S. Paulo
No caso do Banco Master não há efeitos mitigadores do impacto dos malfeitos
No caso do escândalo do Supremo, é a defesa
da democracia que tem sido mobilizada
Nada mais atual do que a afirmação do senador Jaques Wagner ao comentar a estratégia de reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014: "Estamos em campanha e tenta-se fazer palanque sobre um tema rejeitado pela população, que é a corrupção... Ninguém ganha eleição dizendo ‘sou honesto’. Até porque ninguém acredita".
Wagner errou em seu diagnóstico de que esse
tema era "rejeitado pela população", mas acertou quando apontou para
a questão da credibilidade de declarações sobre honestidade. Na atual
conjuntura, a percepção de um "mar de lama" faz com que ninguém acredite que
políticos sejam honestos. Que ministros do Supremo sejam honestos. Ou que
diretores do INSS ou Banco Central sejam honestos.
Quando a corrupção é avassaladora, seus
efeitos sobre os incentivos são sistêmicos. Como já analisei na coluna, a corrupção gera corrupção. À primeira vista, pode sugerir que
ela dê lugar a um cinismo cívico generalizado, e que os cidadãos perdem a
capacidade de se indignar. O efeito médio para os eleitores pode ser o de indiferença.
Mas a corrupção não é categoria homogênea.
A evidência acumulada na ciência política
mostra exatamente o contrário: as pessoas distinguem entre tipos de corrupção.
Marco Klasjna, Noam Lupu e Joshua Tucker em trabalho sobre comparativo
experimental no Uruguai, Argentina e Chile, como parte do Lapop (Latin American
Public Opinion Project), concluíram que a informação sobre a extensão da
corrupção não afeta a punição de certos tipos
de ilicitudes.
Isto é consistente com a forte rejeição em
abstrato à corrupção, mas o pouco impacto efetivo em situações concretas (Boas, Hidalgo e Melo). Casos de enriquecimento pessoal geram
forte reprovação moral e tendem a produzir punição eleitoral. Já formas de
corrupção associadas à provisão de bens públicos —obras, programas sociais,
transferências— são julgadas de forma ambígua. Nesses casos, as pessoas operam
com trade-offs: ponderam corrupção contra desempenho, entrega de políticas,
alinhamento partidário e lealdade identitária. São conhecidos os padrões
"rouba mas faz" ou "rouba mas distribui", que cada vez mais
têm sido substituídos pelo "rouba mas é da minha tribo".
No caso do escândalo do Supremo, é a defesa
da democracia que tem sido mobilizada. Mas isso tem tido retornos claramente
decrescentes. Aqui o aspecto crítico é a reversão de expectativas: ilícitos
cometidos onde menos se suspeitava. Mas o julgamento moral dos envolvidos em
corrupção no caso Master e no INSS não tem trade-off envolvido e, por isso,
assume assim alta voltagem. E contrastam com a corrupção exposta em muitos
casos de emendas ao orçamento, em que os efeitos são mitigados pela provisão de
bens públicos.
A reação do Supremo ao indiciamento de seus
membros na CPI do Crime Organizado alimenta a espiral de indignação
e o sentimento público de "mar de lama". O relatório hiperbólico
apresentado pelo relator é reflexo das interferências brutais do próprio
tribunal, do governo e da base parlamentar aos seus trabalhos. O relatório foi
acusado de ser "eleitoreiro" —"de fazer palanque" (Wagner)—
justamente porque incidirá nas urnas com alta voltagem. O "corte de orelhas" sobre o qual falei na coluna
pode sair pela culatra.
*Professor da Universidade Federal de
Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

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