O Globo
Q.G. petista subestimou a capacidade de
Bolsonaro de transferir votos depois de condenado e preso
Com as pesquisas mostrando risco concreto de derrota de Lula em outubro, as principais lideranças petistas tentam encontrar um caminho para reconectar o presidente com as forças que compuseram a frente ampla em 2022 e renovar o pacto em novas bases. Mas esbarram num questionamento: como envolver esses segmentos em torno de um projeto de país que olhe para a frente quando o que as pesquisas mostram é cansaço com Lula e a sensação de que governo apresenta um enredo manjado?
Quando contam as ações e tentam elencar os
erros que ajudam a explicar a avaliação do governo, de Lula e a competitividade
de Flávio Bolsonaro mesmo depois das investidas sucessivas do governo de seu
pai contra a democracia, esses próceres petistas ainda recaem em explicações
insuficientes.
A mais recorrente é que faltou a Lula neste
terceiro mandato comunicar corretamente o que fez. Será? Mais de uma guinada
foi feita nessa seara sem que houvesse mudança real de percepção por parte de
larga fatia do eleitorado.
Existe resistência em reconhecer que houve
uma opção deliberada por excluir os setores médios, moderados, da sociedade,
justamente aqueles que votaram em Lula como “mal menor” diante do desmonte
bolsonarista. Discursos como a reedição do “nós contra eles” levada a cabo no
ano passado para justificar a política tributária — que fez o governo martelar
a ideia de que agiu contra os vilões “BBB” (bilionários, bets e banqueiros) —
são ainda justificados como necessários diante da campanha para estigmatizá-lo
como “taxador” em excesso.
Mas a insistência nesse tipo de contraposição
acabou delimitando uma linha divisória e jogando de cara na oposição o setor
financeiro, os profissionais liberais, o agronegócio e outros muitos setores
com que o Lula da campanha havia prometido dialogar. Nas primeiras conversas da
caminhada eleitoral, esses interlocutores têm ouvido queixas de expoentes da
finada frente ampla, que passaram três anos e meio esperando o telefone tocar
não para obter sinecuras ou emprego em Brasília, mas para ser ouvidos.
Existe clareza por parte de colaboradores
históricos de que Lula perdeu o primeiro ano, aquele que costuma consolidar
governos e permitir que agendas deslanchem, com uma revisão em tom amargo da
Operação Lava-Jato e o samba de uma nota só da tentativa de golpe do 8 de
Janeiro.
Nada disso, no entanto, deveria explicar, no
entendimento do entorno de Lula, que exista chance concreta de ele ser
derrotado por alguém como Flávio. Claramente o Q.G. petista subestimou a
capacidade de transferência de votos de Bolsonaro depois de condenado e preso e
a disposição — que agora esse mesmo núcleo reconhece existir — de votar até
mesmo em qualquer desconhecido para não reeleger Lula.
A eleição de Donald Trump e suas
consequências — com o republicano fazendo um mandato que parece a realização de
tudo aquilo que, até 2020, o sistema de freios e contrapesos ainda foi capaz de
impedi-lo de levar a cabo — são o exemplo mais comumente evocado pelas forças
progressistas para tentar sensibilizar o centro, deixado de lado desde 2023.
Mas será suficiente?
Não parece haver muita boa vontade nessa
reaproximação. Pior: começa a ser vocalizada em ambientes públicos, diante de
petistas de quatro estrelas, a defesa explícita da substituição de Lula como
candidato das “forças democráticas”. É uma conversa incipiente, restrita e até
aqui incapaz de sequer fazer cócegas nos ouvidos de quem tem poder de decisão
na matéria.
Mas o simples fato de a sugestão começar a
ser feita em voz alta foi um tapa na cara dos petistas, que largam na corrida
eleitoral com mais medo do que nunca de que o enredo manjado faça o eleitor abandonar
a novela do Lula 4.

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