O orçamento público é a bússola de um governo ao estimar as receitas e
ordenar os gastos. Só isso já justificaria trazer as finanças públicas para o
centro do debate político. Além disso, o desequilíbrio no orçamento tem
repercussões na inflação e na taxa de juros, e, em última análise, no ritmo de
crescimento da economia.
O Orçamento Geral da União brasileiro carrega quatro sintomas de que o
atual ordenamento fiscal é insustentável, e isso deveria fazer os eleitores
cobrarem dos candidatos um pronunciamento claro sobre o diagnóstico e o programa
para a reestruturação fiscal do País. Hoje temos um dos orçamentos mais
engessados do mundo; registramos, desde 2014, sucessivos déficits primários; a
dívida pública sobe em ritmo acelerado, apontando para um patamar
desconfortável; e, o nível de investimentos é radicalmente insuficiente para fazer
frente às necessidades estruturais do País.
Pouquíssimas pessoas se dão o trabalho de estudar os seis volumes da
Lei Orçamentária Anual. Verdadeiro labirinto de rubricas, receitas e despesas.
O assunto é cheio de tecnicalidade e números, o que afasta o cidadão medio
leigo comum. Mas é aí que está o mapa da mina sobre como o governo gasta o
dinheiro que colhe da sociedade através dos tributos e a visão que tem sobre o
futuro do país, a partir do perfil de intervenção governamental que imagina na
realidade.
Para dar uma ideia do engessamento crescente do orçamento – com as
despesas obrigatórias sufocando a margem de liberdade para o governo governar –
vamos traduzir com números, embora em bom português, o perfil do gasto público
no Brasil.
Depois de excluídas as receitas e despesas financeiras, relativas a
rolagem da dívida e pagamento de juros, e, também, os gastos tributários – renúncias
fiscais em incentivos e subsídios – e as transferências constitucionais para
estados e municípios, sobram para o presidente da República implantar seu
programa de governo cerca de R$ 2,6 trilhões de reais.
Oito despesas levam 82% desse dinheiro, a saber: (i) previdência
social, (ii) gastos de pessoal civil e
militar dos três Poderes da República, (iii) Benefício de Prestação Continuada,
(iv) Bolsa Família, (v) Abono Salarial, (vi) Seguro Desemprego, (vii)
Precatórios – despesas oriundas de decisões judiais, e, (viii) complementação
federal ao FUNDEB – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica.
Somando as vinculações às receitas determinadas pela Constituição das
despesas de educação e saúde, chegamos a 93% dos recursos disponíveis. Acrescentando
os recursos constitucionais destinados ao Distrito Federal, subsídios e
subvenções como o ProAgro e o custeio e investimento dos outros poderes além do
Executivo, temos 96% dos recursos comprometidos com despesas hoje obrigatórias
ou rígidas.
Ficam sobrando 4%. Cerca de metade vai para as emendas parlamentares.
Ao final e ao cabo, restam 2% das receitas primárias líquidas para custeio da
máquina (aluguéis, água, luz, comunicações, combustível), custeio das políticas
públicas (da munição das forças armadas e da polícia federal à manutenção dos
serviços diplomáticos mundo afora) e investimentos (estradas, portos,
aeroportos, ferrovias, projetos de irrigação, projetos de desenvolvimento
científico tecnológico, moradia, saneamento, transição energética etc).
Fica claro que essa situação é insustentável e merece ser discutida.

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