O Globo
A surpreendente performance até agora do
senador Flavio Bolsonaro pegou Lula e os seus sem estruturas de defesa
eficientes
A campanha eleitoral parece ter começado mesmo a partir da disputa entre o candidato Romeu Zema, ex-governador de Minas, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. O episódio parece ter aberto uma imensa avenida por onde pode passar uma candidatura alternativa à polarização entre o presidente Lula e o representante da extrema-direita Flavio Bolsonaro. Enquanto Lula mais uma vez tentará trafegar pela via da união nacional contra o golpismo, Flavio tenta se aproximar da direita moderada, ou do centro político. Ambos trilham um caminho conhecido por todos, pois a maioria do eleitorado é conservador e centrista e esse típico “swing vote” brasileiro é que define a eleição há muito tempo.
Lula só começou a ganhar eleições
presidenciais quando se aproximou do centro. Bolsonaro pai venceu quando não
tinha o Lula moderado contra si. A surpreendente performance até agora do
senador Flavio Bolsonaro pegou Lula e os seus sem estruturas de defesa eficientes,
inclusive porque a promessa de um governo de união nacional não se concretizou
nesse terceiro mandato. Mas ainda há dúvidas em muita gente sobre quais afinal
serão os candidatos viáveis à presidência da República a partir de junho,
quando os partidos terão que escolher seus representantes em convenções
nacionais.
Começando por Flávio. Ainda há na direita uma
desconfiança de sua verdadeira capacidade de ser competitivo quando a campanha
realmente começar. A briga pública entre o deputado Nikolas Ferreira e parte da
família Bolsonaro está causando estragos e alguns consideram que as discussões
recentes na direita refletem a ressaca que vivem após o que consideram “um
verdadeiro golpe dos filhos”, que teriam pressionado o pai, fragilizado pela
prisão e pela doença, uma indicação “absolutamente distanciada do bom senso e
de critérios de mérito”, na definição de bolsonarista importante.
A saída para esse impasse seria a união de
Zema com Flavio, ou seja, PL e NOVO. Quem pensa assim prefere que o cabeça de
chapa seja o ex-governador de Minas, que vem se revelando um candidato bom de
partida. A dupla, no mínimo, seria uma chapa forte, mesmo com Flavio como
candidato à presidência. Com relação à candidatura de Lula à reeleição, o que
parecia impossível começa a ganhar contornos de realidade. Na campanha de 2022,
Lula prometeu que não disputaria a reeleição, seria presidente de um mandato
só. Como se esperava, a promessa parecia ter sido superada pela realidade, que
pede Lula, pois a esquerda não tem substituto para o atual presidente.
A ascensão de Flavio Bolsonaro, porém, e a
alta rejeição do governo, mostraram que o eleitorado pode ter cansado do líder
populista, do seu jeito de fazer política, que parece estar anacrônico. Quando
Lula disse que só decidiria se disputaria a reeleição na convenção em junho,
acendeu a luz amarela nos seus aliados, que não conseguem ver luz no fim do
túnel sem Lula na cabeça da chapa petista. Provavelmente ele será levado ao que
pode vir a ser o cadafalso para uma campanha perdida, que poderia encerrar sua
carreira política brilhante com uma derrota memorável para o filho de seu maior
adversário.
Esse raciocínio só passa pela cabeça do
próprio, os demais querem vê-lo na chapa, seja qual for o resultado. A presença
de Lula garante uma votação importante para o PT nas eleições para a Câmara e o
Senado, e nos Estados. O PT sem Lula, ninguém sabe o que será. O PDT sem
Brizola deu no que deu hoje, um partido de influência menor no xadrez político,
assim como o PSDB sem Fernando Henrique. A possibilidade de lançar o
ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como substituto de Lula, como em 2018,
pode ser uma lufada de ar fresco no PT desatualizado.
A coluna volta a ser publicada no dia 19 de maio

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