sexta-feira, 10 de abril de 2026

Gotham City é pinto diante do descalabro do Rio de Janeiro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao julgar sucessão de Castro, ministros do STF expuseram calamidade da política do Rio

Na quarta-feira, um advogado apelou ao mundo dos quadrinhos para descrever a crise do Rio de Janeiro. “O Rio virou Gotham City. Se a eleição for indireta, mais fácil eleger o Coringa que o Batman”, disse, na tribuna do Supremo.

O causídico arrancou risos, mas derrapou na metáfora. No Rio, nem super-herói tem garantia de ficha limpa. Uma das milícias mais violentas do estado, a Liga da Justiça, usava o símbolo do homem-morcego para demarcar território. Seu chefe, um ex-policial militar, atendia pelo apelido de Batman.

O Supremo reservou a semana para debater a crise sucessória aberta pela renúncia de Cláudio Castro. O julgamento foi paralisado ontem por um pedido de vista, mas já serviu para expor a calamidade da política fluminense.

“Não há nenhum estado do Brasil que esteja na situação do Rio”, resumiu o ministro Flávio Dino. Ele relembrou o histórico de sete governadores presos ou inelegíveis. Poderia ter citado a Assembleia Legislativa, que já teve quatro presidentes presos. O último, Rodrigo Bacellar, está trancado em Bangu 8. É acusado de vazar informações sigilosas para o Comando Vermelho.

“A infiltração do crime organizado na Assembleia do Rio não é ficção”, ressaltou o ministro Alexandre de Moraes. O decano Gilmar Mendes disse ter ouvido do diretor da PF que “32 ou 34 parlamentares da Assembleia recebiam mesada do jogo do bicho”. “Deus tenha piedade do Rio”, concluiu.

Condenado por desviar dinheiro público para se reeleger, Castro renunciou para fugir da cassação e evitar novas eleições diretas. Com o drible, tentou deixar um aliado como governador-tampão indicado por via indireta. Agora o Supremo precisa decidir se valida o golpe.

O grupo do ex-governador já apresentou seu candidato a Coringa. É o bolsonarista Douglas Ruas, filho do prefeito de São Gonçalo. O deputado entrou na política pela via do nepotismo, ao ser nomeado secretário pelo pai. Passou pela gestão de Castro e agora quer assumir sua cadeira pelas mãos da Alerj.

Enquanto o julgamento não é concluído, o desembargador Ricardo Couto segue como governador interino. Presidente do Tribunal de Justiça, ele tem evitado despachar no Palácio Guanabara, onde as paredes têm ouvidos.

“Não queria estar no lugar de Sua Excelência”, gracejou ontem o ministro Kassio Nunes Marques, antes de votar pela eleição indireta. Gotham City é pinto diante do descalabro do Rio.

 

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