sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guerra, eleições e a economia, por Armando Castelar Pinheiro*

Valor Econômico

O espaço para relaxar a política monetária tende seguir apertado, como aponta a curva de juros, que antecipa cortes relativamente modestos da Selic este ano

Quase seis semanas depois de o conflito iniciado, o cessar-fogo, de duas semanas, saiu. Até certo ponto, foi uma surpresa: Israel não parecia interessada em parar os ataques, os EUA não pareciam ter um caminho politicamente aceitável para sair do conflito e o Irã não parecia ter uma liderança capaz de negociar uma saída. Talvez não por outra razão o que foi acertado soe tão confuso, com detalhes diferentes aparecendo em línguas e porta-vozes distintos. O que, claro, coloca em questão se será possível alcançar um acordo duradouro e o que este contemplará.

Não se quer com isso menosprezar o papel da diplomacia e a possibilidade de encontrar uma saída para essa guerra. Tomara que sim. Mas, em essa não ocorrendo, o conflito se estenderá e as consequências negativas para a economia mundial vão se acentuar, com os preços do petróleo, do gás e dos fertilizantes subindo mais, com significativos impactos estagflacionários. Com o tempo, mais instalações produtivas serão destruídas e, principalmente, os estoques desses produtos, hoje utilizados para atender à demanda, irão se esgotar.

As projeções para o PIB do Brasil subiram para 1,85% pelo fato de sermos exportadores líquidos de petróleo

Além disso, muitos governos, inclusive o brasileiro, têm absorvido parte do impacto da guerra sobre os preços, em especial de combustíveis, mas isso ficará mais difícil com o passar do tempo, pelo acúmulo do ônus fiscal daí resultante. Isso em um contexto em que as contas públicas já vinham se deteriorando, com a dívida dos governos em alta. Com a escalada dos juros provocada pela guerra, o financiamento dessa dívida está mais caro, também por aí levando a uma deterioração fiscal adicional. Sem falar, claro, da esperada expansão dos gastos com defesa, que tende a ocorrer em praticamente toda parte.

Mesmo em um acordo duradouro sendo obtido, a situação à frente é mais difícil do que há seis semanas atrás. O cessar-fogo vai limitar, mas não eliminar o choque estagflacionário. Muitas instalações produtivas foram destruídas e sua reconstrução levará anos. A passagem pelo Estreito de Ormuz seguirá complicada. O preço do petróleo não voltará tão cedo ao patamar anterior. A inflação já subiu e seus efeitos secundários tendem a se estender. Em toda parte, o espaço para cortar juros seguirá menor do que antes.

Porém, esse quadro não parece inteiramente precificado, com o mercado, em várias dimensões, ainda apostando que as coisas vão logo voltar a ficar como antes. Verdade que a cotação do petróleo no mercado futuro subiu bem, ainda que siga bem abaixo do preço spot. Mas o mercado acionário, por exemplo, parece ignorar os riscos colocados à frente: o S&P 500, por exemplo, fechou quarta-feira apenas 1,4% abaixo do patamar de 27 de fevereiro.

É interessante observar como a economia brasileira tem se saído relativamente bem, em meio a esse não trivial choque externo. Verdade que a previsão de inflação para este ano subiu bem, de 3,91% na véspera do conflito para 4,36% no Focus passado. Mas as projeções de PIB subiram (1,82% para 1,85%), as de déficit em conta corrente caíram (US$ 67,8 para US$ 65,0 bilhões) e as do resultado primário ficaram estáveis (0,5% do PIB). Por sua vez, o real se valorizou 1,2% frente ao dólar, em contraste com a valorização de 1,6% no DXY, enquanto o Ibovespa subiu quase 2%. Melhor, portanto, que nas economias avançadas e na média dos emergentes.

Isso reflete em grande medida o fato de sermos exportadores líquidos de petróleo, de forma que a alta de seu preço, ainda que impacte a inflação, tende a favorecer a atividade econômica, as contas externas e as contas públicas. Não se pode descartar, porém, que esse bom desempenho também reflita o ganho de competitividade eleitoral da oposição nas eleições presidenciais de outubro próximo. As pesquisas mostram que as chances de o senador Flavio Bolsonaro sair vencedor, que eram relativamente baixas até algumas semanas atrás, subiram bem; hoje, ele empata com o presidente Lula nas pesquisas para o segundo turno das eleições presidenciais.

Ainda que, se essa análise estiver correta, isso possa implicar que, a partir de 2027, o país tenha um ajuste fiscal, com menor aumento do gasto corrente e da dívida pública, o caminho até lá tende a ser complicado. De um lado, pois o país pode se mostrar mais sensível a um choque estagflacionário externo mais longo e, talvez, mais forte. Por exemplo, pode ficar mais difícil manter a atual defasagem nos preços do diesel e da gasolina. De outro, pois há o risco de termos mais medidas de estímulo fiscal em reação à evolução das pesquisas eleitorais em favor da oposição.

Ainda que estejamos falando de “apenas” seis meses até as eleições, o quadro econômico até lá pode complicar bastante, em função desses dois fatores. O espaço para relaxar a política monetária tende seguir apertado, como refletido na estrutura a termo da curva de juros, que antecipa cortes relativamente modestos da Selic este ano. Ora, com o setor público, as empresas e as famílias bastante endividados, isso significa um elevado risco de uma crise mais séria, colocando o Banco Central em uma situação bem difícil.

*Armando Castelar Pinheiro, professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ, é PhD em economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley.

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