sábado, 4 de abril de 2026

Horizonte estreito, por Flávia Oliveira

O Globo

O que se vislumbra para outubro é a primeira disputa presidencial sem candidatura feminina desde 2006

Do limiar de abril, o que se vislumbra para outubro é a primeira eleição presidencial sem candidatura feminina desde 2006. Neste século, apenas no primeiro pleito (2002), quando Roseana Sarney desistiu de concorrer, não houve mulher como cabeça de chapa — Rita Camata foi vice de José Serra (PSDB), e Deyse Oliveira de Zé Maria (PSTU). O Brasil teve uma mulher, Dilma Rousseff, duas vezes vencedora (2010 e 2014); candidatas competitivas, caso de Marina Silva (2010, 2014 e 2018) e Simone Tebet (2022); uma dezena de vices com visibilidade, de Rita Camata (2002) a Ana Amélia, Sonia Guajajara, Manoela d’Ávila e Kátia Abreu, todas em 2018. A participação cresceu na esteira da cobrança das feministas por representatividade e sucumbiu à supremacia dos homens de partido.

Já escrevi anteriormente por aqui sobre a paisagem política, de tão monótona, assemelhar-se a uma floresta de eucalipto. Repito. Diversidade, na natureza e nos espaços de poder, é ativo a valorizar, nunca depreciar. Mas o país com maioria de mulheres na população — e também no eleitorado — se dá à miséria de abrir mão da voz, das ideias, da presença feminina no debate público, nos programas de governo, nas candidaturas.

Assim, anaboliza-se o desencanto prévio, combustível da apatia política que é letal em ano de eleição. Dia desses, num tão inesperado quanto proveitoso encontro com Ana Carolina Evangelista, cientista política, pesquisadora em estudos sobre religião e democracia, ela deu o papo sobre o que anda em jogo neste 2026. Nada a ver com Copa do Mundo. Em tempos de horizontes estreitos, as brasileiras demandam “imaginação de futuro”. Saiu de cena a dimensão sonhática, para usar um termo eternizado por Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente. No lugar de esperança e utopia, medo e indiferença.

O diagnóstico não chega a surpreender, num ambiente político-institucional que autoriza um parlamentar a se esgoelar em rede social contra um projeto de lei que criminaliza a misoginia. Aberração, para o deputado lacrador, não é viajar em jatinho de Daniel Vorcaro, protagonista da maior fraude bancária da História, mas o texto aprovado no Senado para punir o ódio a mulheres. Inaceitável não é a violência que, em nível recorde, ameaça e mata brasileiras de todas as idades, mas a punição aos criminosos.

Difícil se animar, quando se vê deputada se borrando de tinta em plenário para atacar Erika Hilton, mulher trans que, em primeiro mandato na Câmara Federal, já apresentou duas dezenas de projetos de interesse de todas nós, brasileiras, incluindo o fim da escala 6x1. Neste ano, a jornada de cinco dias de trabalho por dois de descanso completará um século nos Estados Unidos. Foi instituída em maio de 1926, sem redução de salário, por Henry Ford, pioneiro da indústria automobilística, aos operários e, posteriormente, aos trabalhadores administrativos. No Brasil, depois de o governo ter abraçado a proposta, setores do empresariado e da política se esmeram em interditar o debate e fazem o que podem para bloquear a tramitação.

O Brasil bate recorde de feminicídio, violência sexual, brutalidade doméstica. A misoginia exorbita nas redes sociais. Entre as mulheres, é maior o desemprego; menor a renda; ameaçador o endividamento; dupla a jornada; tripla a preocupação. São elas que administram o orçamento doméstico, o cuidado com crianças e idosos. São as que mais sofrem em casa e temem as ruas. Não chegam a um quinto da Câmara e do Senado; são fração nas posições de comando nas empresas. No Supremo Tribunal Federal, resiste uma solitária ministra Cármen Lúcia.

Há muitos sinais de interdição, a despeito do aumento da escolaridade e da qualificação profissional, da disposição para o mercado de trabalho e para a vida pública. Não por acaso, por onde se olhe, pesquisas têm revelado o cansaço, a descrença, a desolação das brasileiras. Numa das mais recentes, o IBGE apresentou a proporção de adolescentes que se declaram sem vontade de viver. Um assombro. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), parceria com os ministérios da Educação e da Saúde, mostrou que uma em cada quatro meninas na faixa etária de 13 a 17 anos respondeu que, na maioria das vezes ou sempre, “a vida não vale a pena ser vivida”. Foi o dobro do resultado dos meninos da mesma faixa etária, 12%. Entre elas, 41% reportaram sentimento frequente de tristeza nos 30 dias anteriores à entrevista; 58% se sentiram irritadas, nervosas ou mal-humoradas.

É gravíssimo quando gente tão jovem se confessa tão intensamente infeliz. Um desafio aos candidatos — homens — às eleições 2026 será convencer eleitoras, suas filhas e netas, de que, à espreita, há um futuro solar, não sombrio.

 

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