O Globo
O que se vislumbra para outubro é a primeira
disputa presidencial sem candidatura feminina desde 2006
Do limiar de abril, o que se vislumbra para outubro é a primeira eleição presidencial sem candidatura feminina desde 2006. Neste século, apenas no primeiro pleito (2002), quando Roseana Sarney desistiu de concorrer, não houve mulher como cabeça de chapa — Rita Camata foi vice de José Serra (PSDB), e Deyse Oliveira de Zé Maria (PSTU). O Brasil teve uma mulher, Dilma Rousseff, duas vezes vencedora (2010 e 2014); candidatas competitivas, caso de Marina Silva (2010, 2014 e 2018) e Simone Tebet (2022); uma dezena de vices com visibilidade, de Rita Camata (2002) a Ana Amélia, Sonia Guajajara, Manoela d’Ávila e Kátia Abreu, todas em 2018. A participação cresceu na esteira da cobrança das feministas por representatividade e sucumbiu à supremacia dos homens de partido.
Já escrevi anteriormente por aqui sobre a
paisagem política, de tão monótona, assemelhar-se a uma floresta de eucalipto.
Repito. Diversidade, na natureza e nos espaços de poder, é ativo a valorizar,
nunca depreciar. Mas o país com maioria de mulheres na população — e também no eleitorado
— se dá à miséria de abrir mão da voz, das ideias, da presença feminina no
debate público, nos programas de governo, nas candidaturas.
Assim, anaboliza-se o desencanto prévio,
combustível da apatia política que é letal em ano de eleição. Dia desses, num
tão inesperado quanto proveitoso encontro com Ana Carolina Evangelista,
cientista política, pesquisadora em estudos sobre religião e democracia, ela
deu o papo sobre o que anda em jogo neste 2026. Nada a ver com Copa do Mundo.
Em tempos de horizontes estreitos, as brasileiras demandam “imaginação de
futuro”. Saiu de cena a dimensão sonhática, para usar um termo eternizado por
Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente. No lugar de esperança e utopia,
medo e indiferença.
O diagnóstico não chega a surpreender, num
ambiente político-institucional que autoriza um parlamentar a se esgoelar em
rede social contra um projeto de lei que criminaliza a misoginia. Aberração,
para o deputado lacrador, não é viajar em jatinho de Daniel Vorcaro,
protagonista da maior fraude bancária da História, mas o texto aprovado no
Senado para punir o ódio a mulheres. Inaceitável não é a violência que, em
nível recorde, ameaça e mata brasileiras de todas as idades, mas a punição aos
criminosos.
Difícil se animar, quando se vê deputada se
borrando de tinta em plenário para atacar Erika Hilton, mulher trans que, em
primeiro mandato na Câmara Federal, já apresentou duas dezenas de projetos de
interesse de todas nós, brasileiras, incluindo o fim da escala 6x1. Neste ano,
a jornada de cinco dias de trabalho por dois de descanso completará um século
nos Estados Unidos. Foi instituída em maio de 1926, sem redução de salário, por
Henry Ford, pioneiro da indústria automobilística, aos operários e,
posteriormente, aos trabalhadores administrativos. No Brasil, depois de o
governo ter abraçado a proposta, setores do empresariado e da política se
esmeram em interditar o debate e fazem o que podem para bloquear a tramitação.
O Brasil bate recorde de feminicídio,
violência sexual, brutalidade doméstica. A misoginia exorbita nas redes
sociais. Entre as mulheres, é maior o desemprego; menor a renda; ameaçador o
endividamento; dupla a jornada; tripla a preocupação. São elas que administram
o orçamento doméstico, o cuidado com crianças e idosos. São as que mais sofrem
em casa e temem as ruas. Não chegam a um quinto da Câmara e do Senado; são
fração nas posições de comando nas empresas. No Supremo Tribunal Federal,
resiste uma solitária ministra Cármen Lúcia.
Há muitos sinais de interdição, a despeito do
aumento da escolaridade e da qualificação profissional, da disposição para o
mercado de trabalho e para a vida pública. Não por acaso, por onde se olhe,
pesquisas têm revelado o cansaço, a descrença, a desolação das brasileiras.
Numa das mais recentes, o IBGE apresentou a proporção de adolescentes que se
declaram sem vontade de viver. Um assombro. A Pesquisa Nacional de Saúde do
Escolar (Pense), parceria com os ministérios da Educação e da Saúde, mostrou
que uma em cada quatro meninas na faixa etária de 13 a 17 anos respondeu que,
na maioria das vezes ou sempre, “a vida não vale a pena ser vivida”. Foi o
dobro do resultado dos meninos da mesma faixa etária, 12%. Entre elas, 41%
reportaram sentimento frequente de tristeza nos 30 dias anteriores à
entrevista; 58% se sentiram irritadas, nervosas ou mal-humoradas.
É gravíssimo quando gente tão jovem se
confessa tão intensamente infeliz. Um desafio aos candidatos — homens — às
eleições 2026 será convencer eleitoras, suas filhas e netas, de que, à
espreita, há um futuro solar, não sombrio.

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