terça-feira, 14 de abril de 2026

Lula e a maldição do incumbente, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se a campanha petista não entender a razão por que a isenção do IR não trouxe benefício eleitoral para a reeleição, não é a escala 5x2 que o fará

Confirmado o envio da escala 5 x 2 de trabalho para a Câmara dos Deputados, pelo governo, restará a dúvida se a proposta, uma vez aprovada, trará dividendos eleitorais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feito que a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil não foi capaz.

Há indicadores mais preocupantes no Datafolha para Lula do que a ultrapassagem, na margem de erro, pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O primeiro é a taxa de aprovação (soma da avaliação boa e ótima). Dos presidentes reeleitos, Dilma Rousseff foi aquela que disputou com a menor taxa: 39%. Neste quesito, Lula tem 29%.

O segundo é que Lula, desde 2002, não chegava ao início do semestre das eleições tão mal situado nas pesquisas. Naquele ano, ele estava bem atrás do ex-ministro José Serra, mas disputou como desafiante numa campanha marcada pelo desejo de mudança. Agora é o incumbente.

A palavra, além de feia, é um anglicismo semântico ainda não dicionarizado. Existe na língua portuguesa mas não no sentido que tem na inglesa. Como caiu na boca da política e a xenofobia, como diz Sérgio Rodrigues, nunca foi boa conselheira linguística, aqui permanecerá. Até porque as concorrentes nacionais pecam na exatidão. Nem todo mandatário ou situacionista é candidato à reeleição.

Em 2010, quando disputou como incumbente pela primeira vez, tinha, no fim do primeiro trimestre do ano, mais do que o dobro de ótimo/bom (76%) do que o Datafolha lhe confere hoje.

Agora a comparação com a isenção do IR se impõe porque ambas são medidas que a despeito de divisivas (aquela desgostou os fiscalistas e a escala 5x2, o empresariado), geraram expectativas positivas na maioria do eleitorado. Nos primeiros meses do ano, quando entrou em vigor, a isenção do IR, que beneficiou mais de 15 milhões de pessoas, não teria trazido benefícios porque se trata de um período em que o brasileiro é acossado por matrícula e material escolares, IPTU e IPVA. Mas o terceiro trimestre já se iniciou e, ainda assim, a medida não inverteu curva alguma.

Em 2002, a capacidade que teve de ir para cima de Serra e ganhar aquela eleição não se aplica hoje apenas pela diferença de 24 anos que separam os dois Lulas. O desafiante tem a cara do futuro e o incumbente, a do passado. Sim, dá para empilhar indicadores positivos e até alguns programas novos. E também não dá para dizer que se trata de um brechó de seus primeiros mandatos, mas subscrever a tese da ingratidão do eleitor, esta pantera, é uma rima que não leva a lugar algum. Até porque não dá para chamar os 3 milhões na fila do INSS de ingratos.

O Brasil em que Lula foi incumbente com os aplausos de dois terços a seis meses das eleições não tinha 20 milhões de apostadores nem acontecia nas redes sociais, dois fenômenos que, conjugados, indicam a inflação de expectativas em curso. Se o mestre de obras não ficou rico do dia para a noite porque deixou de pagar IR, a atendente de lanchonete também não o fará se arrumar um bico no dia de folga que terá se a escala 5x2 vier a passar.

As melhorias decorrentes de políticas públicas são incrementais e, por isso mesmo, descompassadas das expectativas geradas pelo algoritmo e pela roleta. Nessa disputa pela satisfação de expectativas, ainda não se divisa qual é o horizonte do desejo que Lula vai traçar. Até aqui, sobra desejo, falta horizonte.

É um Lula paternal que se queixa de que o brasileiro não sai do celular. Pode até sinalizar para a disputa de valores num país em que a força da religião mostra terreno para a pregação, mas será que tem funcionado? Não é o que parece.

A derrota de Viktor Orbán é uma boa notícia para Lula porque mostra que a pressão americana sobre eleições alheias não pode tudo. Mas nem todo insucesso de Donald Trump traz benefícios ao Brasil. Desde o início da guerra o preço dos fertilizantes importados, dos quais a agricultura brasileira é completamente dependente, já subiu 50%.

Desafiantes terão mais facilidade em exibir horizontes nunca dantes desbravados. Flávio Bolsonaro tem errado pouco e assim permanecerá enquanto não encontrar minas no seu caminho. A pré-campanha lulista anuncia sua desconstrução desde a quarta-feira de cinzas, mas a quaresma já vai longe e até agora nada. Se o filho do ex-presidente ainda não entrou na mira do PT, a artilharia sobre Fábio Luís da Silva tampouco se esgotou.

Na última entrevista que deu, Lula preferiu se dedicar a desconstruir sua relação com o ministro Alexandre de Moraes chamando-o de “companheiro” e dando-lhe conselhos. Isso depois de toda a bem-sucedida política de enfrentamento do tarifaço ter sido montada em cima do discurso de que o Judiciário é independente. Costeando o alambrado assim, sem um discurso claro em defesa de uma reforma inteligível do Judiciário, vai ser difícil para o presidente se descolar do desgaste que lhe é imposto por este Supremo.

Ainda que afunilado, o cenário não favorece a aposta de que Lula venha a desistir. A menção a esta possibilidade guarda mais relação com a paciência esgotada para a disputa entre aliados nos palanques regionais, vide o mais cabeçudo deles, no Rio Grande do Sul, quando teve que convencer o PT a abrir mão em favor da candidatura mais competitiva do PDT. Uma coisa é fazer um governo de transição, como havia prometido em 2022 e não cumpriu. Outra é fugir da raia a esta altura do campeonato. É mais desonroso do que ser derrotado.

 

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