O Globo
Tentar melhorar popularidade do presidente
com anúncios pontuais ignora o fato de que razões para rejeição ao petista são
mais cristalizadas
O balanço feito por Lula na reunião ministerial
“saideira” de boa parte do time titular dos ministérios evidenciou a
preocupação com o ponteiro da popularidade, que, depois de mais de um ano na
mudança na diretriz da comunicação do governo, voltou a indicar o tanque vazio.
Acontece que nem o problema de fundo do petista e de sua gestão reside na comunicação, nem as medidas pontuais anunciadas ou em gestação no Planalto parecem eficazes para mudar a pior notícia trazida pelas recentes pesquisas ao presidente: a maioria dos eleitores considera pior reelegê-lo do que trazer de volta ao comando do país alguém da família Bolsonaro. A determinação de Lula de passar a traçar comparações entre seu governo e o de Jair Bolsonaro visa a atacar justamente essa percepção, que, se persistir, põe em xeque a viabilidade de um quarto mandato.
Mas há enorme limitação na eficácia das
comparações: justamente o fato de as avaliações serem muito mais de cunho
ideológico que feitas em bases racionais a partir de indicadores e dados
concretos. Foi essa divisão baseada em valores que deu a Lula uma vitória por
pequena margem em 2022. Naquela ocasião, uma parcela do eleitorado que havia
dado a vitória a Bolsonaro quatro anos antes votou contra sua gestão na
pandemia, os ataques às instituições e ao sistema eleitoral, as investidas
contra políticas culturais, a ciência, a proteção ambiental e as universidades,
entre outras.
O que tem sido fatal para Lula é parcela
desse eleitorado, que lhe deu uma chance mesmo depois de, provavelmente, ter
decidido que não votaria mais no PT, ter se decepcionado com seu mandato e não
se sentir contemplada. Não adianta chegar para esse eleitor depois de três anos
e três meses de silêncio e mandar um “oi, sumido” na forma de subsídio a
combustível, revogação da taxa das blusinhas ou uma nova temporada do
Desenrola. Fica parecendo um “catadão” de fim de feira, e o eleitor percebe a
intenção.
O que ajudou a melhorar o humor com Lula no
ano passado foi menos o rebranding da comunicação e aquele papo de ricos contra
pobres que a ação bem articulada de resposta ao tarifaço e aos desvarios de
Donald Trump. Naquela oportunidade, com uma ação de Estado, em que discurso em
defesa da soberania e medidas de mitigação de danos foram combinadas com uma
bem-sucedida negociação diplomática, articulada com o empresariado, ele
desarmou a bomba que a extrema direita havia jogado no colo do Brasil. Numa só
tacada, Lula se mostrou superior ao bolsonarismo naquilo que concerne a um
presidente da República, sem bravata nem necessidade de marketing ou a surrada
narrativa.
Não durou muito, e ele começou a descer a
ladeira quando os fatos começaram a lembrar ao eleitor justamente os gatilhos
mais fortes para o antipetismo: os gastos públicos descontrolados, os ataques
gratuitos aos conservadores (via carnaval) e, principalmente, uma pororoca de
escândalos de corrupção que caiu no colo de Lula mesmo sem ser sua responsabilidade.
Fazer com que aquela pequena fração do
eleitorado que decidirá a eleição volte a achar que o triunfo do bolsonarismo é
mais deletério que a permanência de Lula pressupõe, sobretudo, mostrar o que
pode ocorrer caso Flávio seja eleito.
Nos últimos dias, a família forneceu mostras fartas
do que vem por aí: briga intestina entre filhos e Michelle, a promessa do
pré-candidato de que o pai subirá a rampa com ele, a promessa de franquear o
acesso às terras-raras brasileiras aos Estados Unidos a serviço de seu plano de
hegemonia global e a guerra total contra o Judiciário. Tudo isso lembra a
constante instabilidade do período entre 2019 e 2022, que o mercado parece ter
apagado e reescrito.
Achar que está nas mãos de Sidônio Palmeira
resolver um problema histórico e político — e que tornar a importação de
blusinhas mais barata virará o jogo — é tentar apagar o fogo que devora as
chances reeleitorais de Lula com uma canequinha.

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