O Globo
Campanha de Lula deveria apertar o botão do
‘para’ e mudar a estratégia se quiser vencer
Pesquisa Quaest mostra
avanço consistente de Flávio Bolsonaro (PL) entre os eleitores independentes, e
essa é a pior notícia que o Planalto poderia ter no levantamento divulgado
ontem. Uma vez que os independentes decidirão a eleição, a campanha de Lula deveria
apertar o botão do “para” e mudar a estratégia, se quiser vencer.
A diferença entre os dois candidatos, que era de 16 pontos percentuais a favor de Lula no começo do ano, se inverteu e agora é de 7 pontos percentuais pró-Flávio. Ele lidera o segmento com 33% das intenções de voto ante 26% de Lula. Em janeiro, Flávio tinha 21% no grupo, ante 37%. A rejeição do presidente também é maior no segmento: 61% dizem que não votariam nele, e 54% não votariam em Flávio. Outra notícia ruim é o aumento do percentual de independentes dizendo que Lula não deve continuar na Presidência: em janeiro, eram 64%; agora são 71% — a margem de erro no grupo é de 3 pontos percentuais.
Os independentes representam 32% do
eleitorado. Em 2022, fecharam com Lula. Mas, agora, aos poucos, Flávio vai
emplacando o figurino do “Bolsonaro que toma vacina”. Há um mês, 48% diziam que
ele não era mais moderado que a família, agora são 45%. Lula também ajudou e
deu as costas ao eleitor de centro. Foi eleito numa frente ampla a favor da
democracia, mas no decorrer da gestão governou basicamente com e para os seus.
Dados cruzados da Quaest nos dão ideia de
quem é esse eleitor independente. Ele forma o maior grupo do Sudeste (32%) e do
Sul (34%), regiões em que Lula tem tradicionalmente maior dificuldade. Também é
a maior parte do eleitor entre 35 e 59 anos (34%), a maior parte do eleitorado
de ensino médio (34%) e a maior parte da classe média (32%), que ganha entre
dois e cinco salários mínimos e hoje desaprova o governo Lula. Esse grupo foi
alvo de um dos principais programas do governo, a isenção do Imposto de Renda,
mas desaprova cada vez mais a atual gestão.
A dificuldade de Lula no centro alimentou
especulações de que o ex-ministro Fernando
Haddad e, mais recentemente, o vice Geraldo
Alckmin (PSB) poderiam assumir a candidatura presidencial por terem
potencial de voto maior no grupo. Lula será mesmo o candidato. Primeiro, o PT nem
é tão Haddad assim — muito menos Alckmin, que nem do partido é. Depois, não há
autocrítica sobre a fadiga de material. Apesar da dificuldade com o centro, o
entorno do presidente o vê como único capaz de derrotar Flávio, e os mais
próximos, como a primeira-dama, são os maiores entusiastas do quarto mandato.
Há ainda uma dificuldade de ler 2022. Aquela
eleição foi um plebiscito contra Bolsonaro e uma frente de defesa da democracia.
Não necessariamente uma vontade de voltar a Lula 1 e Lula 2. Basta ver a
diferença pequena de votos entre os dois. Junte-se a isso o caso Master, as
mãos dadas com o STF,
o endividamento das famílias, e a situação se complica. O olhar para fora
também não ajuda. Hungria, Chile, Argentina, Estados Unidos, Uruguai e
outros países resolveram trocar incumbentes.
Há ainda uma avenida para percorrer até as
urnas. Flávio ainda não sofreu desgaste. Mas menos almoço com carne de paca e
mais mudança de rota parecem cair bem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.