O Estado de S. Paulo
O ponto central é reconhecer que Minas funciona como síntese porque abriga, numa mesma unidade, vários ‘Brasis’ convivendo lado a lado
Minas Gerais, terra das grandes “raposas” da sapiência política (José Maria Alckmin, Gustavo Capanema, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, entre outros), voltará a ser, em 4 de outubro de 2026, o maior “termômetro” da eleição presidencial. Não é superstição: é estatística, geografia humana e política comparada. O Estado reúne cerca de 16,5 milhões de eleitoras e eleitores – o segundo maior colégio eleitoral do País, atrás apenas de São Paulo – e, por tamanho e capilaridade, impõe uma realidade simples: quem quer vencer no Brasil precisa competir de verdade em Minas.
A máxima “quem ganha em Minas, ganha no
Brasil” nasceu de uma recorrência histórica que virou frase de campanha. Em
2022, por exemplo, a votação mineira ficou muito próxima do retrato nacional no
primeiro turno e, no segundo, o vencedor no Estado coincidiu com o vencedor do
País – reforçando a ideia de que Minas “acerta” o resultado com frequência. Mas
o ponto central não é tratar o eleitor mineiro como um oráculo: é reconhecer
que Minas funciona como síntese porque abriga, numa mesma unidade, vários
“Brasis” convivendo lado a lado.
Há a região metropolitana de Belo Horizonte,
urbana e terciária, com debates sobre serviços públicos, mobilidade, segurança,
custo de vida e emprego. Há o Triângulo, conectado ao agro e à logística,
atento a crédito, infraestrutura, energia e regras do jogo. Há o Sul de Minas,
com economia diversificada e forte peso de valores comunitários. Há a Zona da
Mata, com sua tradição industrial e universitária. E há o Norte (onde se
localiza Montes Claros, cidade com mais de 400 mil habitantes, a maior da região),
além dos vales, onde a agenda social, a presença do Estado e oportunidades
concretas – saúde, renda, educação, água – pesam de modo decisivo. Quando uma
candidatura consegue atravessar esse mosaico – sem falar para um só público –
ela tende a estar calibrada para o País inteiro.
Por isso, a disputa mineira costuma revelar
três coisas antes do resto do Brasil: 1) o tamanho real da rejeição, porque o
eleitorado local é sensível a “climas” e ao humor econômico; 2) a capacidade de
uma campanha furar bolhas, já que Minas tem interior robusto e metrópole
relevante; e 3) o desempenho do “voto útil” e do pragmatismo: quando a eleição
aperta, cresce a pressão por escolhas com aparência de governabilidade, e Minas
costuma traduzir esse movimento cedo.
Em 2026, com a eleição marcada e o segundo
turno previsto para 25 de outubro, a tendência é Minas virar prioridade desde a
largada: mais presença física, mais alianças regionais, mais disputa de
narrativas locais e menos “slogan nacional” genérico. Quem tratar o Estado como
um bloco homogêneo errará o alvo; quem se limitar a “pautas de costume” ou a
“macroeconomia abstrata” também. O mineiro – como o brasileiro – vota com a
cabeça e com o bolso, mas também com o senso de ordem, de pertencimento e de
expectativa de futuro.
Em termos práticos, vencer em Minas significa
dominar a agenda do cotidiano: inflação percebida, emprego e renda, segurança,
saúde (fila e acesso), educação, infraestrutura, mineração e meio ambiente,
energia e custo de serviços. Significa ainda compreender que Minas premia a
moderação no tom e consistência na proposta: não basta emocionar; é preciso
parecer capaz de entregar. Por isso, o Estado tende a “decidir” não por
misticismo, mas por lógica: se uma candidatura consegue ser majoritária na
síntese, ganha musculatura para ser majoritária no todo.
O que diriam, hoje, as “raposas” da
matreirice mineira? José Maria Alckmin provavelmente lembraria que Minas não
decide por arroubos, mas por ponderação. Lembraria que o mineiro não vota por
slogans: pesa, compara, desconfia. Gustavo Capanema, com seu olhar de
construtor institucional, talvez advertisse contra a tentação de reduzir Minas
a um território a conquistar. Diria que o Estado reage mal à política de ruído.
E que Minas prefere projetos de longo prazo, estabilidade administrativa,
linguagem civilizada. Quem fala alto perde o ouvido mineiro. Quem promete
milagres tropeça na memória coletiva.
Juscelino Kubitschek diria que Minas não
oscila por capricho, mas orienta por prudência. Lembraria que o mineiro não se
deixa levar por ventos passageiros, consultando o mapa, medindo distâncias,
calculando riscos. Foi assim que guiou seus passos na construção de Brasília.
Lembraria que o voto mineiro responde a projetos, não a bravatas. Como
apreciador de frases de impacto, JK talvez advertisse: “Não tentem empurrar
Minas. Minas escolhe quando reconhece o horizonte”.
Já Tancredo Neves, mestre da conciliação,
provavelmente sorriria com ironia. E lembraria que o pêndulo mineiro não oscila
ao acaso: ele se move quando percebe risco institucional, excesso ideológico ou
ameaça ao equilíbrio democrático. Tancredo costumava lembrar o dístico da
bandeira consagrada como divisa dos inconfidentes mineiros do século 18:
“Libertas quae sera tamen” (“a liberdade, mesmo que venha depois, ainda vale o
preço”.

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