quarta-feira, 1 de abril de 2026

Minas Gerais, o pêndulo da campanha de 2026, por Gaudêncio Torquato

O Estado de S. Paulo

O ponto central é reconhecer que Minas funciona como síntese porque abriga, numa mesma unidade, vários ‘Brasis’ convivendo lado a lado

Minas Gerais, terra das grandes “raposas” da sapiência política (José Maria Alckmin, Gustavo Capanema, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, entre outros), voltará a ser, em 4 de outubro de 2026, o maior “termômetro” da eleição presidencial. Não é superstição: é estatística, geografia humana e política comparada. O Estado reúne cerca de 16,5 milhões de eleitoras e eleitores – o segundo maior colégio eleitoral do País, atrás apenas de São Paulo – e, por tamanho e capilaridade, impõe uma realidade simples: quem quer vencer no Brasil precisa competir de verdade em Minas.

A máxima “quem ganha em Minas, ganha no Brasil” nasceu de uma recorrência histórica que virou frase de campanha. Em 2022, por exemplo, a votação mineira ficou muito próxima do retrato nacional no primeiro turno e, no segundo, o vencedor no Estado coincidiu com o vencedor do País – reforçando a ideia de que Minas “acerta” o resultado com frequência. Mas o ponto central não é tratar o eleitor mineiro como um oráculo: é reconhecer que Minas funciona como síntese porque abriga, numa mesma unidade, vários “Brasis” convivendo lado a lado.

Há a região metropolitana de Belo Horizonte, urbana e terciária, com debates sobre serviços públicos, mobilidade, segurança, custo de vida e emprego. Há o Triângulo, conectado ao agro e à logística, atento a crédito, infraestrutura, energia e regras do jogo. Há o Sul de Minas, com economia diversificada e forte peso de valores comunitários. Há a Zona da Mata, com sua tradição industrial e universitária. E há o Norte (onde se localiza Montes Claros, cidade com mais de 400 mil habitantes, a maior da região), além dos vales, onde a agenda social, a presença do Estado e oportunidades concretas – saúde, renda, educação, água – pesam de modo decisivo. Quando uma candidatura consegue atravessar esse mosaico – sem falar para um só público – ela tende a estar calibrada para o País inteiro.

Por isso, a disputa mineira costuma revelar três coisas antes do resto do Brasil: 1) o tamanho real da rejeição, porque o eleitorado local é sensível a “climas” e ao humor econômico; 2) a capacidade de uma campanha furar bolhas, já que Minas tem interior robusto e metrópole relevante; e 3) o desempenho do “voto útil” e do pragmatismo: quando a eleição aperta, cresce a pressão por escolhas com aparência de governabilidade, e Minas costuma traduzir esse movimento cedo.

Em 2026, com a eleição marcada e o segundo turno previsto para 25 de outubro, a tendência é Minas virar prioridade desde a largada: mais presença física, mais alianças regionais, mais disputa de narrativas locais e menos “slogan nacional” genérico. Quem tratar o Estado como um bloco homogêneo errará o alvo; quem se limitar a “pautas de costume” ou a “macroeconomia abstrata” também. O mineiro – como o brasileiro – vota com a cabeça e com o bolso, mas também com o senso de ordem, de pertencimento e de expectativa de futuro.

Em termos práticos, vencer em Minas significa dominar a agenda do cotidiano: inflação percebida, emprego e renda, segurança, saúde (fila e acesso), educação, infraestrutura, mineração e meio ambiente, energia e custo de serviços. Significa ainda compreender que Minas premia a moderação no tom e consistência na proposta: não basta emocionar; é preciso parecer capaz de entregar. Por isso, o Estado tende a “decidir” não por misticismo, mas por lógica: se uma candidatura consegue ser majoritária na síntese, ganha musculatura para ser majoritária no todo.

O que diriam, hoje, as “raposas” da matreirice mineira? José Maria Alckmin provavelmente lembraria que Minas não decide por arroubos, mas por ponderação. Lembraria que o mineiro não vota por slogans: pesa, compara, desconfia. Gustavo Capanema, com seu olhar de construtor institucional, talvez advertisse contra a tentação de reduzir Minas a um território a conquistar. Diria que o Estado reage mal à política de ruído. E que Minas prefere projetos de longo prazo, estabilidade administrativa, linguagem civilizada. Quem fala alto perde o ouvido mineiro. Quem promete milagres tropeça na memória coletiva.

Juscelino Kubitschek diria que Minas não oscila por capricho, mas orienta por prudência. Lembraria que o mineiro não se deixa levar por ventos passageiros, consultando o mapa, medindo distâncias, calculando riscos. Foi assim que guiou seus passos na construção de Brasília. Lembraria que o voto mineiro responde a projetos, não a bravatas. Como apreciador de frases de impacto, JK talvez advertisse: “Não tentem empurrar Minas. Minas escolhe quando reconhece o horizonte”.

Já Tancredo Neves, mestre da conciliação, provavelmente sorriria com ironia. E lembraria que o pêndulo mineiro não oscila ao acaso: ele se move quando percebe risco institucional, excesso ideológico ou ameaça ao equilíbrio democrático. Tancredo costumava lembrar o dístico da bandeira consagrada como divisa dos inconfidentes mineiros do século 18: “Libertas quae sera tamen” (“a liberdade, mesmo que venha depois, ainda vale o preço”.

 

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