quarta-feira, 1 de abril de 2026

Na luta pela sobrevivência, vice jogou parado, por César Felício

Valor Econômico

Pressões para que Alckmin disputasse em São Paulo começaram ainda em 2023

No dia 5 de fevereiro, em entrevista ao portal UOL, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expôs à luz do dia uma articulação que se processava nos bastidores praticamente desde o início do seu governo. Colocou em dúvida a permanência do vice-presidente Geraldo Alckmin na chapa, afirmando que ele e o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, “tinham um papel a cumprir em São Paulo”. Hoje, na reunião ministerial que formalizou a saída de parte da equipe para concorrer às eleições, Lula confirmou a manutenção de Alckmin na chapa. Foi a volta do que não foi. O que mudou?

Alckmin jogou parado. Diante do movimento para expeli-lo da chapa, sinalizou que preferia não concorrer a nada do que disputar o governo ou o Senado por São Paulo. Quem prevalece sem se mover se beneficiou das circunstâncias. Até onde se sabe, trata-se do único aliado do presidente que conseguiu tal mudança de curso. Outros atenderam a uma convocação.

Para entender por que Alckmin ficou, é preciso compreender as esquinas pelas quais ele passou sem ser atropelado.

A primeira pressão contra Alckmin vinha do PT, movido até o ano passado por uma análise bastante otimista do cenário da eleição presidencial de 2026. Havia a crença de que o alijamento do ex-presidente Jair Bolsonaro do processo sucessório tornava a reeleição de Lula muito provável. Com um quarto mandato de Lula, a vice se tornaria um posto mais estratégico do que já é, por sinalizar o possível candidato governista em 2030. E o PT angustia-se com a falta de perspectiva de poder no pós-Lula. A portas fechadas, discutiram-se, desde 2023, ainda no primeiro ano do governo, cenários de chapas puro sangue: Lula/Camilo Santana, ou Lula/Haddad, ou mesmo Lula/Rui Costa.

Pressões para que Alckmin disputasse em São Paulo começaram ainda em 2023

O otimismo deixou de prevalecer, mas a pressão contra Alckmin continuou movida por outro fator: a necessidade de se ampliar a aliança eleitoral de modo a incorporar forças de centro-direita. O alvo era o MDB. Um encontro entre Lula e senadores da sigla, em dezembro, tracionou a conversa para uma eventual chapa Lula/Renan Filho ou Lula/Helder Barbalho.

A conversa não foi adiante porque, em um partido dividido como o MDB sempre foi, os governistas não tinham maioria. Uma contabilidade interna da sigla apontou que dois Estados desequilibravam a balanço para o lado contra o governo: Rio de Janeiro e Minas Gerais. A tendência do MDB é de não apoiar ninguém na eleição presidencial.

Para mudar essa tendência seria necessário uma ofensiva política comandada pelo presidente, mas a relação custo/benefício também pesou. O MDB não tem mais o porte que teve nas décadas passadas, em que a aliança com o partido definia a governabilidade. Um vice emedebista do Nordeste ou do Norte pouco agregaria em termos eleitorais.

O vice-presidente manteve a sua posição na chapa porque os fundamentos que justificariam uma troca na composição não criaram raízes. Lula chega às portas da campanha eleitoral frágil, sem opções para ampliar aliança e não podendo criar arestas com o PSB.

 

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