terça-feira, 14 de abril de 2026

O fator Trump na eleição brasileira, por Fernando Gabeira

O Globo

Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica

Nestes anos democráticos, política externa nunca foi um grande tema eleitoral. Mas agora isso mudará. Será preciso uma definição diante do governo Trump: como se relacionar com os Estados Unidos neste período tão conturbado?

Já tivemos a experiência de um tarifaço, que veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.

Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã.

É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.

Sua relação com aliados históricos é difícil. Deixou a Europa um pouco só na defesa da Ucrânia, atacada por Putin. Obrigou o continente a gastar mais dinheiro com armas. No momento em que se voltou contra o Irã, pediu a ajuda dos europeus. Em seguida, disse: não precisamos do óleo que passa pelo Estreito de Ormuz; os europeus que resolvam o problema do fechamento.

Com os países do Golfo, Trump se mostrou mais problemático. Eles investiram bilhões de dólares em segurança, contavam com os Estados Unidos para protegê-los, e Trump levou a guerra e, com ela, uma grande insegurança sobre a produção de petróleo e a própria dessalinização da água.

Todos esses fatores o tornam um aliado pouco confiável. A desconfiança fica colossal quando se leem os bastidores de sua decisão. Netanyahu fez uma preleção sobre matar o aiatolá Khamenei, bombardear o Irã e despertar uma revolta popular que resultaria na troca de regime. Trump apenas disse:

— Sounds good.

Ele não consultou seus estrategistas, não submeteu a ideia ao Congresso, simplesmente foi à guerra.

Diante de tudo isso, fica claro que uma oposição direta a Trump não é uma saída sensata. Cooperar em alguns itens, como segurança pública, e distanciar-se de apoio a guerras que empobrecem o mundo parecem alguns elementos dessa política.

Uma diretriz de alinhamento acrítico não corresponde à sofisticação da política externa brasileira e pode ser extremamente perigosa no longo prazo. Independentemente de apoiar ou não o regime teocrático do Irã, a decisão de declarar guerra não pode ser tão grotesca quanto a tomada por Trump. Não era possível reproduzir a Venezuela.

O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra; logo, não seria derrotado nos primeiros dias. O Estreito de Ormuz poderia ser fechado, com prejuízos para todo o planeta. A infraestrutura produtiva dos países do Golfo poderia ser atingida.

Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos, mesmo num período e num governo tão excepcionais — especialmente de Donald Trump, que combina arrogância com uma visão limitada da situação mundial.

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