quinta-feira, 30 de abril de 2026

O pior cego, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Estava claro e só não enxergou quem não quis ver. Especialmente o presidente Lula. Fez mais uma aposta errada, uma das piores na sequência de apostas políticas equivocadas que demonstram um líder político em seu ocaso. As condições para a aprovação do indicado eram difíceis de saída, sobretudo pela proximidade das eleições. Não só a oposição declarada, mas um bom pedaço do centrismo no Senado achava que seria melhor uma indicação depois do 4 de outubro – melhor até para o próprio STF.

Não se sabe quem garantiu a Lula que Messias passaria raspando, mas passaria. Se foi Alcolumbre, foi um conselho diabólico para pular para dentro do abismo. Pois a derrota política é histórica na pura acepção da palavra.

Uma boa parte das causas da derrota ficou explicitada num momento-chave da sabatina do indicado, ali pela sétima hora de perguntas e respostas. Foi quando o senador Alessandro Vieira cobrou Jorge Messias não só pelo comportamento de alguns integrantes do Supremo no caso do Master, mas sobre o ataque do STF em relação às CPIs – incluindo abertura de ações judiciais contra o mesmo Vieira.

Antes mesmo que Messias dissesse qualquer coisa (e o que disse acabou por ser irrelevante), Vieira recebeu efusivas manifestações de apoio das principais correntes políticas. Ou seja, Lula e seus operadores no Senado subestimaram a disposição dos parlamentares de dar um troco ao que passaram a identificar como a suprema arrogância dos que assumiram em público uma conduta de “intocáveis”.

Em várias respostas a severas críticas formuladas pelos senadores ao STF durante a sabatina, o próprio Messias tinha deixado claro que não assumiria ali o papel de defensor da Corte. Evitou como pôde responder “sim” ou “não” à provocação do senador Cleitinho sobre se teria sido imoral a conduta de alguns dos integrantes do Supremo, mas usou como recurso de retórica texto de Celso de Mello aludindo à perda de confiança da população no Judiciário.

Parece ter funcionado pouquíssimo a “fuga para frente” que Gilmar Mendes ensaiou ao proceder um “road show” midiático de enfrentamento direto da crise de credibilidade do Supremo. Ao contrário, o decano produziu até aqui um clássico tiro no pé do ponto de vista político – ou seja, convenceu seus adversários (grande parte deles dentro do Senado) da fragilidade da postura da Corte.

O próprio Messias indicou isso indiretamente durante a sabatina, ao assumir com aparente boa vontade a necessidade de reforma do Judiciário e do Supremo. Chegou a ponto de sugerir que o Senado elaborasse um tipo de código de conduta para os ministros da Corte.

Deve acentuar-se o isolamento político das figuras de maior projeção dentro do Supremo. E a ideia da infalibilidade da sabedoria política de Lula e sua infinita capacidade de articulação. Vai colecionando derrotas, achando que terá uma grande vitória.

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