domingo, 12 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Notícias inquietantes para Lula no Datafolha

Por Folha de S. Paulo

Avaliação positiva do governo não supera a negativa nem mesmo entre eleitores mais pobres

Na simulação de segundo turno, há empate com Flávio Bolsonaro, que surge numericamente à frente pela primeira vez

A nova pesquisa do Datafolha traz notícias inquietantes para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a apenas seis meses da disputa presidencial.

Entre os brasileiros aptos a votar, a avaliação do governo petista tem viés de baixa. Ademais, nas simulações de segundo turno, o incumbente aparece empatado com os principais adversários à direita, e Flávio Bolsonaro (PL) se encontra pela primeira vez numericamente à frente.

Passado o primeiro terço do ano, o governismo esperava reações mais positivas ao que julga serem feitos de maior impacto de Lula 3. Trata-se, por exemplo, da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, de programas sociais como o Gás do Povo ou o Pé-de-Meia, do desemprego mínimo ou do aumento dos salários. Não tem sido assim.

A surpresa e a preocupação ficaram evidentes com o frenesi de reuniões recentes em Brasília, destinadas a cobrar propaganda mais eficaz e a discutir medidas de emergência para reduzir inadimplência e juros ou conter o preço dos combustíveis.

Mesmo do ponto de vista do puro pragmatismo eleitoral, a tarefa de impulsionar a popularidade do mandatário é difícil. A conta dos erros de Lula chegou.

O gasto público excessivo e remendos frequentes na política fiscal contribuíram para a alta da inflação. Em decorrência, as taxas de juros aumentaram para os níveis mais altos em 20 anos, assim como a inadimplência.

A vitória de Lula por mínima margem em 2022 deveu-se muito ao apoio do centro. Apesar de entregar ministérios ao centrão, o presidente pouco se ocupou do diálogo com eleitores que não são bolsonaristas nem lulistas. Parece não se dar conta das mudanças políticas e sociais ocorridas desde 2010, quando se tornou o presidente mais popular da história.

Lula agora não tem avaliação positiva nem mesmo entre os eleitores com renda abaixo de dois salários mínimos, sua base principal —é ótimo ou bom para 32% e ruim ou péssimo para 33% deles. No eleitorado em geral, são 29% a 40%, respectivamente. Desde fins de 2024, o saldo jamais voltou a ser positivo.

Entre os "não alinhados" (nem bolsonaristas nem petistas, 27% da amostra do Datafolha), há déficit de 21 pontos; entre os de centro (16% da amostra), de 17.

No primeiro turno, Lula mantém 39% dos votos, ante 35% de Flávio Bolsonaro, que cresce. A campanha não começou, e é difícil prever a reação do eleitorado ao histórico do oposicionista. O presidente, de todo modo, tem meses preocupantes adiante.

O efeito da guerra afeta a inflação. Juros permanecerão altos por mais tempo, assim como as agruras financeiras. O mal-estar da sociedade com escândalos de corrupção também costuma se estender aos governantes.

O governo até agora não tem planos ou discursos novos para apresentar à população, a quem quer convencer de que Lula 3 é Lula 2 —quando havia a ajuda de um cenário externo excepcional.

Autocracia húngara em xeque

Por Folha de S. Paulo

Pesquisas indicam que eleições parlamentares têm potencial para encerrar a gestão autoritária de Orbán

Uma ampla vitória da oposição pode levar à reforma da Constituição de 2011, que ceifou o equilíbrio entre as instituições

As eleições parlamentares húngaras neste domingo (12) não vão impactar a conturbada geopolítica global, mas podem aliviar um persistente incômodo regional, já que o governo de ultradireita da Hungria é o único regime autocrático da União Europeia.

Há 16 anos no poder, o primeiro-ministro Viktor Orbán minou instituições democráticas e fez do país um satélite do russo Vladimir Putin e um modelo louvado pelo americano Donald Trump.

Segundo pesquisa do instituto Idea, o partido Fidesz, de Orbán, está em segundo lugar com 30% das intenções de voto, seguido pelo Mi Hazánk (21%).

Em primeiro aparece o Tisza (39%), do opositor Péter Magyar, que, até o momento, não incluiu a redemocratização do país em sua plataforma de governo. Seu histórico explica tal omissão. Ex-militante do partido de Orbán, atuou em postos sensíveis da autocracia até romper com o regime, em 2024, e fundar sua legenda de centro-direita.

Projeções do instituto Median indicam a conquista de dois terços das cadeiras pelo Tisza. Se confirmadas, espera-se não só a condução de Magyar ao posto de premiê como o cumprimento de suas promessas: pôr fim às tensões com Bruxelas e inserir o país na zona do euro até 2030.

Nessa proposta de conciliação com a UE está assentada a perspectiva de redemocratização da Hungria e de resgate de direitos fundamentais macerados por Orbán. A ampla maioria do Tisza pode levar à aprovação da reforma da Constituição de 2011, que ceifou o equilíbrio entre as instituições de Estado e a independência da corte suprema do país.

Ademais, para uma economia de US$ 248 bilhões que cresceu a taxas inferiores a 1% nos últimos três anos, o acesso a € 18 bilhões de fundos europeus, bloqueados devido ao rumo autoritário do governo e ao servilismo de Orbán a Moscou, será significativo.

O risco de novas sanções de Bruxelas, se não houver mudança de curso por Budapeste, estará sempre presente, assim como a suspensão de direito de voto da Hungria no Conselho Europeu. Trata-se das regras do jogo do bloco, ao qual a Hungria aderiu em 2004, para manter seus integrantes na seara democrática e para garantir sua segurança.

Acusar interferência no pleito da Hungria, como fizeram os governos dos Estados Unidos e da Rússia, soa como artifício para questionar uma possível derrota eleitoral —prática contumaz entre populistas de direita.

Os húngaros terão, neste domingo, oportunidade de retornar ao ambiente democrático. O que se espera é um pleito livre e justo.

Não existe alternativa ao ajuste fiscal

Por O Globo

Com paliativos populistas, governo continua a querer posar de bombeiro do incêndio que ajuda a propagar

De paliativo em paliativo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixará para o próximo ocupante do Palácio do Planalto — que poderá ser ele mesmo — a obrigação de realizar um ajuste fiscal já em 2027. Na entrevista em que lançou a mais recente edição do relatório “Panorama econômico da América Latina e o Caribe”, o economista-chefe do Banco Mundial para a região, William Maloney, reafirmou a realidade já conhecida de todos: qualquer governo que assumir em janeiro terá a tarefa de se concentrar na agenda da consolidação fiscal.

Os sintomas do desarranjo estão por toda parte. O percentual de famílias endividadas bateu novo recorde em março, chegando a 80,4%, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo — um ano atrás, eram 77,1%. O fator determinante para as dívidas crescentes também é conhecido: juros nas alturas por período prolongado. Desde fevereiro de 2022, o Brasil tem uma taxa de dois dígitos.

Não adianta culpar o Banco Central. Ante a ameaça inflacionária provocada por um governo gastador, a autoridade monetária não tem alternativa senão manter a Selic no alto. O juro real — descontada a inflação — permanece quase em 10% em virtude de fatores estruturais que o governo teima em ignorar: baixa taxa de poupança, insegurança jurídica, um mercado em que 43% do crédito é subsidiado e passa ao largo da Selic, concentração bancária e, acima de tudo, o desequilíbrio das contas públicas, que aumenta a desconfiança e obriga o governo a pagar mais caro pelo dinheiro que toma emprestado.

O crescente endividamento das famílias não é o único indicador que deveria causar preocupação. Num cenário de aperto monetário, a economia dá sinais de fadiga. Pelas previsões do Banco Mundial, o PIB sofrerá neste ano mais uma desaceleração forte. A estimativa é que cresça 1,6%, ante 2,3% em 2025 e 3,4% em 2024. No ano que vem, os cálculos sugerem 1,8%. O projeto de impulsionar a expansão da economia com despesa pública se mostra insustentável, mas em suas previsões o governo mantém um otimismo descolado da realidade. O Tesouro prevê que o PIB crescerá acima de 2% ao ano até o fim da década, depois 3% por cinco anos. Ainda supõe que os futuros governos cumprirão o centro da meta fiscal todos os anos. E, com tudo isso, a dívida estabilizaria perto de 90% apenas em 2032.

É uma visão, além de irrealista, insuficiente. O mais sensato a fazer, como sugere o Banco Mundial, é enfrentar sem rodeios nem subterfúgios o gasto público desenfreado. A diferença entre o superávit primário necessário para estabilizar o crescimento da dívida (3,5% do PIB, segundo o economista Marcos Mendes) e o resultado que tem sido apresentado (déficit de 0,5%) é inadmissível. Sem reduzi-la, os juros reais continuarão nas alturas independentemente da nova prestidigitação populista inventada pelo governo para tentar salvar famílias endividadas. Todas elas — como a nova versão do Desenrola que pretende liberar R$ 7 bilhões do FGTS para mitigar o endividamento — têm motivação meramente eleitoreira. O governo continua tentando se apresentar como bombeiro de um incêndio que ajuda a propagar.

Caso Evandro expõe indigência da investigação policial no Brasil

Por O Globo

Depois de 34 anos, STF arquivou processo contra ré que confessou sob tortura ter matado menino no Paraná

O menino Evandro Ramos Caetano desapareceu aos 6 anos, em abril de 1992, na cidade de Guaratuba, litoral do Paraná. Seu corpo foi encontrado mutilado dias depois. Era mais um na série de desaparecimentos de crianças no Paraná nas décadas de 1980 e 1990, um deles também em Guaratuba, dois meses antes de Evandro. As investigações sobre o caso não foram conclusivas, mas um ex-investigador da Polícia Civil, da família da criança, resolveu elucidá-lo por conta própria — sem que ninguém o impedisse. O resultado foram erros trágicos que levaram inocentes à prisão, só reparados neste mês, 34 anos depois, com o arquivamento do processo pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O ex-policial Diógenes Caetano dos Santos Filho criou um dossiê acusando a então mulher do prefeito, Celina Abagge, e sua filha Beatriz de terem usado o corpo de Evandro num ritual satânico. O dossiê mencionava ainda um pai de santo, um pintor, um artesão e dois outros suspeitos. Mãe e filha da família Abagge passaram a ser chamadas de “bruxas de Guaratuba”. Em março de 1998, Beatriz e Celina foram inocentadas por um júri, mas em 1999 o julgamento foi anulado. Em 2011, outro júri condenou apenas Beatriz a 21 anos e quatro meses de prisão numa votação apertada (4 a 3). A condenação foi anulada em 2016 pelo Tribunal de Justiça do Paraná e, em janeiro de 2022, o governo do Paraná pediu desculpas formais a ela.

As investigações foram uma sucessão de falhas e ilegalidades cometidas pelas polícias Civil e Militar, como demonstrou o repórter e professor universitário Ivan Mizanzuk no podcast “Projeto Humanos” de 2018. Mizanzuk provou que as confissões à PM do Paraná haviam sido feitas sob tortura e que os vídeos e áudios apresentados como provas tinham sido adulterados. Beatriz relata seus diálogos com os torturadores: “Mas não sei o que vocês querem que eu fale. Eles falavam assim: ‘Diga que você matou a criança’. Eu dizia: ‘Tá, eu matei a criança’. Eu não sabia nem que criança queriam que eu dissesse”. A confirmação de que as confissões foram obtidas por meio de tortura foi determinante para que o sequestro e assassinato de Evandro terminassem nos arquivos judiciais como crimes sem autoria conhecida.

O arquivamento do processo era essencial, mas é preciso manter o caso na memória. As taxas de elucidação de homicídios no país continuam indigentes, oscilando em torno de 35%. Cerca de 65% dos assassinatos ficam impunes (no Chile, os índices de resolução variam entre 60% e 80%; na Colômbia, de 50% a 60%). E mesmo o que a polícia afirma ter resolvido pode não passar de fraude, com confissões obtidas de maneira ilegal ou sob tortura. Tudo o que aconteceu na investigação da morte de Evandro deveria constar do currículo das academias de polícia, para evitar que os erros se repitam.

Lula joga o STF aos leões

Por O Estado de S. Paulo

Ao sugerir suspeição de Alexandre de Moraes no caso Master, Lula tenta se descolar do escândalo que ameaça o STF, expõe sua estratégia de sobrevivência e reafirma que só é leal a si mesmo

Nem a militância petista mais ingênua pode ter dúvida de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um incorrigível pregador de si mesmo. Sua lealdade é invariavelmente submetida ao cálculo de dividendos e prejuízos políticos que cada circunstância lhe oferece. Foi assim no mensalão e na Lava Jato, quando o demiurgo petista não hesitou em entregar aos leões a companheirada encalacrada para conter, tanto quanto possível, o risco de contaminação. Essa memória é essencial para compreender a entrevista que ele concedeu recentemente ao canal ICL Notícias, na qual, ao tentar se proteger, Lula revelou mais do que gostaria.

Ao comentar o escândalo do Banco Master, as estripulias do banqueiro Daniel Vorcaro e suas ramificações no Supremo Tribunal Federal (STF), Lula afirmou ter aconselhado o ministro Alexandre de Moraes a declarar-se impedido: “Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a sua biografia”. Acrescentou que desvios devem recair sobre indivíduos, e não sobre o tribunal, e foi além: “Se o cara quer ficar milionário, não pode ser ministro do Supremo”. E, ao tocar no ponto sensível, lembrou: “Mas a sua mulher estava advogando”.

A suspeição é evidente. A mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, prestou serviços milionários ao Banco Master, posteriormente liquidado sob suspeita de fraudes. Ainda assim, o ministro segue atuando em temas ligados ao caso, amparado pela complacência de seus pares e pela crença militante de que a autoproclamada “defesa da democracia” autoriza ignorar conflitos evidentes.

A fala de Lula é, no fundo, o reconhecimento de que o desgaste do STF e o avanço do caso Master terão impacto direto na disputa presidencial. Mas não há, aqui, qualquer súbito despertar ético. Lula não mudou. O que mudou foi o risco. Com o instinto de quem atravessou décadas de crises, Lula percebeu que o escândalo deixou de ser periférico e ganhou contornos de crise sistêmica, com potencial de atingir não apenas ministros da Corte, mas o próprio ambiente político que sustenta sua reeleição. Some-se a isso o fato de que, além de Moraes e Dias Toffoli, orbitam o caso lideranças do Centrão, governadores e nomes associados ao próprio PT.

Diante desse cenário, Lula moveu-se com rapidez. Ao aconselhar Moraes a preservar a biografia, não defende a moralidade pública nem propõe depuração institucional. Demarca distância. No limite, envia um recado inequívoco: se houver naufrágio, cada um cuide do seu bote.

O efeito colateral é potencialmente devastador. Ao admitir que ministros do STF podem ter ultrapassado limites éticos, e ao associar a toga à incompatibilidade com o enriquecimento, Lula implode a narrativa construída pelo consórcio político-institucional que orbita o Supremo e o Palácio do Planalto. Durante meses, vendeu-se a ideia de que críticas à Corte eram ataques à democracia. Agora, é o próprio presidente quem sugere o contrário: o problema pode estar em condutas individuais que exigem escrutínio.

A tentativa de separar o tribunal de seus membros é correta em tese, mas nasce viciada. Lula não age para proteger a instituição, mas para proteger-se. Sua preocupação não é a credibilidade do STF nem a reputação de Moraes. É o impacto eleitoral de um escândalo que pode crescer rapidamente. Em síntese, o recado ao ministro é claro: não comprometa a campanha.

Há ainda um elemento adicional. Ao tornar público esse distanciamento, Lula parece antecipar-se a um possível desdobramento mais grave, que é uma eventual delação premiada de Daniel Vorcaro. Habituado a crises, o presidente sabe que escândalos dessa natureza seguem uma lógica própria e que todo tsunami começa com uma onda de uns poucos centímetros. O caso Master reúne todos os ingredientes de uma tempestade política de grandes proporções: fluxos financeiros opacos, proximidade com o poder e potenciais revelações explosivas. Lula percebeu o risco e mudou de posição. Resta saber se a manobra será suficiente ou se apenas confirma a dimensão da crise que se tenta evitar.

O bolsonarismo além de Bolsonaro

Por O Estado de S. Paulo

Janela partidária revela um PL fortalecido, expõe a fragilidade do centro e confirma que o bolsonarismo já não depende de seu líder para ter chances reais de chegar ao poder

O PL do clã Bolsonaro saiu turbinado da janela partidária, período legal em que deputados podem trocar de legenda sem perder o mandato. A sigla que abriga essencialmente o bolsonarismo foi a grande vencedora, ao saltar de 87 para 97 representantes na Câmara, resultado de 23 novas filiações e 13 baixas. Trata-se da maior bancada desde 1998, quando o então PFL alcançou 105 cadeiras. Em contraste, partidos que ambicionavam protagonismo ao centro, como o União Brasil, viram-se enredados por crises internas e perdas consideráveis. Já o PT, mesmo com a máquina governista em mãos, permaneceu estagnado.

Mais do que a musculatura renovada do PL, o crescimento demonstra não só a desarticulação de adversários, mas sobretudo a força em que se transformou o bolsonarismo no País. Quando somado à ofensiva pré-eleitoral do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), constata-se sua reafirmação. Jair Bolsonaro pode estar preso, inelegível e afastado do protagonismo eleitoral, mas a corrente política que leva seu nome mostra-se mais viva do que nunca, apesar da derrota de 2022, da revelação da trama golpista e do julgamento e da prisão do ex-presidente e de seus aliados, além do radicalismo empedernido de seu entorno. Ainda assim, demonstra resiliência e adaptação. E, diferentemente do PT de Luiz Inácio Lula da Silva, mostra capacidade de produzir novas lideranças com musculatura eleitoral e força mobilizadora.

Convém recordar o que representou o governo de Jair Bolsonaro. Sua gestão, vamos chamar assim, foi marcada por ausência de políticas críveis em áreas-chave como educação, além da condução desastrosa da pandemia de covid-19, com desprezo pela ciência e pelas vidas perdidas, estímulo à desinformação e uma política sanitária que contribuiu para agravar a tragédia humana daquele período. Dispensável lembrar, ainda, as reiteradas investidas contra as instituições democráticas, culminando na escalada golpista que encontrou seu ápice nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Bolsonaro testou os limites da democracia brasileira. E seu ocaso pessoal representou um alívio institucional para o País.

Ainda assim, o fenômeno político revelou-se maior que seu líder. Há uma base social consistente, ainda que minoritária – entre 12% e 15% do eleitorado mais fiel, segundo diferentes pesquisas –, que sustenta esse projeto com convicção. Mais relevante, porém, é sua capacidade de transbordar esse núcleo duro e influenciar parcelas mais amplas da sociedade.

É nesse ponto que o resultado parlamentar ganha especial relevância. O tamanho da bancada do PL não reflete apenas adesão ideológica, mas também o pragmatismo de atores políticos que farejam a direção do vento. Lideranças do Centrão e da centro-direita, sempre sensíveis à correlação de forças, já perceberam tanto as dificuldades de uma candidatura alternativa à polarização quanto a fragilidade do governo Lula, marcado por inépcia, desgaste político, perda de apoio popular e desânimo na própria base. Diante disso, tais forças não hesitam em se aproximar do polo que aparenta maior viabilidade de poder no curto e médio prazos. E esse polo, hoje, é o bolsonarismo.

A janela partidária funcionou, assim, como termômetro e catalisador. Mediu a força relativa das correntes políticas e acelerou um processo de realinhamento com potencial de redesenhar o sistema político brasileiro. O fortalecimento do PL demonstra que o bolsonarismo se institucionalizou. Deixou de ser um fenômeno conjuntural, dependente de uma liderança carismática, para se consolidar como uma força estruturante da política nacional.

Ignorar esse fato, ou tratá-lo como uma anomalia passageira, seria erro grave. O bolsonarismo, com todas as suas contradições e riscos, veio para ficar. E seu crescimento não se explica apenas por seus próprios méritos organizativos, mas também pelas falhas de seus adversários, incapazes de oferecer uma alternativa convincente e estável à sociedade.

A preservação da democracia exige mais do que derrotas eleitorais pontuais. Depende da reconstrução de confiança e da oferta de caminhos políticos sólidos. Enquanto isso não ocorrer, movimentos como o observado na janela partidária tendem a se repetir – e a ampliar ainda mais a influência de uma força que, longe de definhar, segue em trajetória ascendente.

Roleta-russa em SP

Por O Estado de S. Paulo

Despreparo de alguns policiais transforma uma simples caminhada noturna em aposta de vida ou morte

A morte da auxiliar de serviços gerais Thawanna da Silva Salmázio, baleada no peito pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira durante uma ronda noturna em Cidade Tiradentes, zona leste da capital paulista, mostra que, a depender do bairro, sair às ruas é apostar numa loteria macabra na qual a vida humana tem pouco ou nenhum valor. A maturidade e o nível de treinamento dos policiais militares envolvidos em dada abordagem irão determinar se um cidadão vai viver ou morrer após cruzar seu caminho.

As imagens da ocorrência, registradas pela câmera corporal do soldado Weden Silva Soares, parceiro de Yasmin no patrulhamento, são perturbadoras não só pelo desfecho trágico. Elas revelam uma escalada de insensatez que qualquer agente mais bem treinado teria evitado.

Tudo começou com o marido de Thawanna sendo atingido pelo retrovisor da viatura policial. O casal reclamou. Os policiais deram ré, mas, em vez de se desculparem e seguirem adiante, iniciaram a abordagem com agressividade, questionando por que o casal estava na rua naquele horário. Em seguida, a soldado Yasmin sai do carro e a discussão escala sem controle. Um tiro é disparado em questão de poucos minutos, como se fosse um desfecho trivial para aquela altercação.

A reação do soldado Weden à atitude da colega sintetiza o amadorismo que resultou em tragédia. “Por que você atirou nela?”, questiona. De fato, não havia qualquer razão para o uso da força letal. A soldado Yasmin alega que a vítima teria dado um tapa em seu rosto. Não há registro dessa suposta agressão. Mas, ainda que tenha havido, é evidente o descompasso entre o que se espera de um policial militar envolvido numa situação dessas e o comportamento irresponsável, para dizer o mínimo, da soldado de dedo leve no gatilho.

O uso de força letal por agentes do Estado é regido, fundamentalmente, pelo princípio do uso progressivo. Um tapa, supondo que tenha havido, não autoriza um tiro, mas sim a prisão do agressor, se tanto. Espera-se que policiais militares sejam capazes de suportar a tensão das ruas e responder a provocações sem perder o controle. É para isso, afinal, que são treinados – ou deveriam ser.

Esse caso expôs falhas óbvias de recrutamento, treinamento e, sobretudo, padronização de condutas na Polícia Militar (PM) de São Paulo. É inaceitável que o comportamento de um policial militar varie a ponto de abordagens semelhantes em regiões distintas levarem a desfechos radicalmente opostos. O policiamento ostensivo deve ser padronizado e proporcional. A autoridade policial se exerce com firmeza, mas também com técnica e respeito aos cidadãos.

O preço do despreparo de alguns policiais militares costuma ser mais caro nas periferias da cidade, onde as abordagens da PM não raro são mais conflitivas. Nas regiões mais afastadas do centro expandido, os cidadãos nunca sabem se serão tratados como tais ou como suspeitos a priori. No fundo, talvez saibam.

Sem confiança social na PM, não há segurança pública, há medo. E, quando um cidadão passa a sentir medo ao avistar uma viatura policial, a instituição deixa de representar proteção e passa a ser vista como ameaça. Esse círculo vicioso só produz desordem e morte.

Infecções respiratórias desafiam o país

Por Correio Braziliense

A campanha da gripe se dá em um cenário aparentemente mais delicado: o de mobilizar uma população ainda contaminada por ideias antivacina e em um momento em que as infecções do tipo fugiram da curva

Bater a meta da imunização contra a gripe tem desafiado os gestores da saúde nos últimos anos  — e, na maioria dos casos, com desfechos desanimadores do ponto de vista sanitário. Há duas semanas nas ruas, a campanha de 2026 se dá em um cenário aparentemente mais delicado: o de mobilizar uma população ainda contaminada por ideias antivacina e em um momento em que as infecções do tipo fugiram da curva.

Há um aumento de complicações respiratórias durante o inverno — por isso, a concentração de esforços para a vacinação dos brasileiros na estação anterior. As águas de Março, porém, trouxeram um outono com circulação de vírus atípica e preocupante, como têm alertado órgãos ligados à saúde coletiva.

O boletim mais recente da Fiocruz, divulgado na última quinta-feira, indica que a influenza A "ainda apresenta níveis elevados de incidência" no país e que 13 das 27 unidades da Federação seguem com incidência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em níveis de alerta, com sinal de crescimento nas últimas seis semanas. São elas: Acre, Pará, Tocantins, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo. 

O Distrito Federal está em situação menos crítica, mas longe de ser confortável. A Fiocruz classifica o cenário da capital federal como de risco. São 1.445 casos descobertos de SRAG de 4 de janeiro a 4 de abril — o equivalente a 16 por dia. Houve um pico na primeira semana de março, com 208 diagnósticos, e, desde então, os registros vêm diminuindo, chegando a 60 confirmações entre 29 de março e 4 de abril. Preocupa no caso dessa síndrome o fato de ela ser desencadeada por uma diversidade de vírus — influenza, coronavírus, rinovírus, sincicial respiratório, todos em circulação no momento — e de levar a complicações respiratórias que exigem hospitalização, sobretudo de idosos e bebês.  

Não é preciso exigir muito da memória para trazer à tona os efeitos de um aumento da pressão sobre as unidades de saúde em razão de infecções virais. Em 2024, o país enfrentou a pior epidemia de dengue da história — com 6,4 milhões de casos diagnosticados e 5,9 mil mortes —, ainda se recuperando da devastação sanitária causada pela pandemia da covid-19. Em ambos os casos, a escalada de infectados foi acompanhada por escassez de leitos públicos e privados, sobrecarga de trabalho para profissionais de saúde e superlotação em espaços de acolhimento temporário, entre outras gravidades. 

Agora, há um arsenal mais completo de fórmulas protetivas  — boa parte delas disponíveis gratuitamente pelo SUS — que reduz significativamente o risco de infecções respiratórias evoluírem para quadros críticos. Chega a ser irracional não aderir a um pacto coletivo cujos efeitos aumentam dos anticorpos ao Produto Interno Bruto, passando pela expectativa de vida da população. Já são 1.621 mortes registradas por SRAG desde o início do ano, em um país com expertise em imunização em massa reconhecida internacionalmente. Passou da hora de, internamente, essa competência voltar a ser valorizada.

Uma oportunidade perdida

Por O Povo (CE)

Desde os primórdios, a Lua exerce fascinação sobre todos os agrupamentos humanos, pelos seus "mistérios", associação a divindades e pelo que a sua observação poderia oferecer de prático para a vida cotidiana das civilizações antigas, como regular colheitas e a marcação do tempo.

Mas o "grande salto para a humanidade" ocorreu no dia 20 de julho de 1969, quando o astronauta americano Neil Armstrong tornou-se o primeiro homem a pisar na Lua, levado pela missão Apollo.

Vivia-se um período conturbado, em plena Guerra Fria, quando a então URSS disputava os Estados Unidos na chamada "corrida espacial", com os soviéticos à frente dos EUA, até então.

Agora, os Estados Unidos fazem história novamente. É a primeira vez, em mais de 50 anos, que humanos viajam à Lua, no entanto sem pisar em seu solo. É de se destacar a tripulação diversa que faz essa viagem inédita, pois chegou a alcançar o "lado oculto" da Lua.

A tripulação é formada pelos norte-americanos Victor Glover, Christina Koch e Reid Wiseman e pelo canadense Jeremy Hansen. Glover é a primeira pessoa negra a alcançar a órbita lunar; Christina Koch, a primeira mulher a atingir o feito.

Na sexta-feira, a Artemis II completou a sua missão trazendo de volta para casa a equipe de astronautas que tiveram o privilégio de concluir uma aventura que poucos seres humanos experimentaram.

É apenas de se lamentar que esse exemplo de engenho humano, que une ciência e cooperação, não sirva de exemplo do que a humanidade seria capaz de alcançar se as guerras deixassem de ser prioridade em alguns governos.

É terrível pensar que, enquanto se buscam soluções para a sobrevivência da espécie humana, milhões de pessoas são submetidas à fome e outros milhares sacrificados em guerras que não fazem o menor sentido. Um mundo em que a intolerância parece encontrar terreno fértil para oprimir, ofender e matar.

Por isso é importante ouvir o piloto do programa Artemis II, Victor Glover. Ele disse que o mundo deveria aproveitar esses momentos para se unir. Para ele, principalmente nos momentos em que ficaram sem contato com a Terra, foi uma oportunidade para rezar, ter esperança e bons pensamentos.

É bom pensar que um programa de tamanha importância, que terá papel crucial no futuro da humanidade, poderia ter aberto uma janela para o diálogo e para a paz entre os povos — como pede o papa Leão XIV. No entanto, olhando as guerras e conflitos que se espalham pelo mundo, parece que os homens se dedicam a explodir pontes, distanciando cada vez mais a humanidade de uma convivência pacífica. 

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