Notícias inquietantes para Lula no Datafolha
Por Folha de S. Paulo
Avaliação positiva do governo não supera a
negativa nem mesmo entre eleitores mais pobres
Na simulação de segundo turno, há empate com
Flávio Bolsonaro, que surge numericamente à frente pela primeira vez
A nova pesquisa do Datafolha traz
notícias inquietantes para Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) a apenas seis meses da disputa presidencial.
Entre os brasileiros aptos a votar, a avaliação do governo petista tem viés de baixa. Ademais, nas simulações de segundo turno, o incumbente aparece empatado com os principais adversários à direita, e Flávio Bolsonaro (PL) se encontra pela primeira vez numericamente à frente.
Passado o primeiro terço do ano, o governismo
esperava reações mais positivas ao que julga serem feitos de maior impacto de
Lula 3. Trata-se, por exemplo, da ampliação da faixa de isenção do Imposto de
Renda, de programas sociais como o Gás do Povo ou o Pé-de-Meia, do desemprego
mínimo ou do aumento dos salários. Não tem sido assim.
A surpresa e a preocupação ficaram evidentes
com o frenesi de reuniões recentes em Brasília, destinadas a cobrar propaganda
mais eficaz e a discutir medidas de emergência para reduzir
inadimplência e juros ou conter o preço dos combustíveis.
Mesmo do ponto de vista do puro pragmatismo
eleitoral, a tarefa de impulsionar a popularidade do mandatário é difícil. A
conta dos erros de Lula chegou.
O gasto público excessivo e remendos
frequentes na política fiscal contribuíram para a alta da inflação. Em
decorrência, as taxas de juros aumentaram para os níveis mais altos em 20 anos,
assim como a inadimplência.
A vitória de Lula por mínima margem em 2022
deveu-se muito ao apoio do centro. Apesar de entregar ministérios ao centrão, o
presidente pouco se ocupou do diálogo com eleitores que não são bolsonaristas
nem lulistas. Parece não se dar conta das mudanças políticas e sociais
ocorridas desde 2010, quando se tornou o presidente mais popular da história.
Lula agora não tem avaliação positiva nem
mesmo entre os eleitores com renda abaixo de dois salários mínimos, sua base
principal —é ótimo ou bom para 32% e ruim ou péssimo para 33% deles. No
eleitorado em geral, são 29% a 40%, respectivamente. Desde fins de 2024, o
saldo jamais voltou a ser positivo.
Entre os "não alinhados" (nem
bolsonaristas nem petistas, 27% da amostra do Datafolha), há déficit de 21
pontos; entre os de centro (16% da amostra), de 17.
No primeiro turno, Lula mantém 39% dos votos,
ante 35% de Flávio Bolsonaro, que cresce. A campanha não começou, e é difícil
prever a reação do eleitorado ao histórico do oposicionista. O presidente, de
todo modo, tem meses preocupantes adiante.
O efeito da guerra afeta a inflação. Juros
permanecerão altos por mais tempo, assim como as agruras financeiras. O
mal-estar da sociedade com escândalos de corrupção também costuma se estender
aos governantes.
O governo até agora não tem planos ou
discursos novos para apresentar à população, a quem quer convencer de que Lula
3 é Lula 2 —quando havia a ajuda de um cenário externo excepcional.
Autocracia húngara em xeque
Por Folha de S. Paulo
Pesquisas indicam que eleições parlamentares
têm potencial para encerrar a gestão autoritária de Orbán
Uma ampla vitória da oposição pode levar à
reforma da Constituição de 2011, que ceifou o equilíbrio entre as instituições
As eleições parlamentares
húngaras neste domingo (12) não vão impactar a conturbada geopolítica global,
mas podem aliviar um persistente incômodo regional, já que o governo de
ultradireita da Hungria é o único
regime autocrático da União
Europeia.
Há 16 anos no poder, o
primeiro-ministro Viktor Orbán minou
instituições democráticas e fez do país um satélite do russo Vladimir
Putin e um modelo louvado pelo americano Donald Trump.
Segundo pesquisa do instituto Idea, o partido
Fidesz, de Orbán, está em segundo lugar com 30% das intenções
de voto, seguido pelo Mi Hazánk (21%).
Em primeiro aparece o Tisza (39%), do
opositor Péter Magyar, que, até o momento, não incluiu a redemocratização do
país em sua plataforma de governo. Seu histórico explica tal omissão.
Ex-militante do partido de Orbán, atuou em postos sensíveis da autocracia até
romper com o regime, em 2024, e fundar sua legenda de centro-direita.
Projeções do instituto Median indicam a
conquista de dois terços das cadeiras pelo Tisza. Se confirmadas, espera-se não
só a condução de Magyar ao posto de premiê como o cumprimento de suas
promessas: pôr fim às tensões com Bruxelas e
inserir o país na zona do euro até 2030.
Nessa proposta de conciliação com a UE está
assentada a perspectiva de redemocratização da Hungria e de resgate de direitos
fundamentais macerados por Orbán. A ampla maioria do Tisza pode levar à
aprovação da reforma da Constituição de 2011, que ceifou o equilíbrio entre as
instituições de Estado e a independência da corte suprema do país.
Ademais, para uma economia de
US$ 248 bilhões que cresceu a taxas inferiores a 1% nos últimos três anos, o
acesso a € 18 bilhões de fundos europeus, bloqueados devido ao rumo autoritário
do governo e ao servilismo de Orbán a Moscou,
será significativo.
O risco de novas sanções de Bruxelas, se não
houver mudança de curso por Budapeste, estará sempre presente, assim como a
suspensão de direito de voto da Hungria no Conselho Europeu. Trata-se das
regras do jogo do bloco, ao qual a Hungria aderiu em 2004, para manter seus
integrantes na seara democrática e para garantir sua segurança.
Acusar
interferência no pleito da Hungria, como fizeram os governos
dos Estados
Unidos e da Rússia,
soa como artifício para questionar uma possível derrota eleitoral —prática
contumaz entre populistas de direita.
Os húngaros terão, neste domingo, oportunidade de retornar ao ambiente democrático. O que se espera é um pleito livre e justo.
Não existe alternativa ao ajuste fiscal
Por O Globo
Com paliativos populistas, governo continua a
querer posar de bombeiro do incêndio que ajuda a propagar
De paliativo em paliativo, o presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva deixará para o próximo ocupante do Palácio do Planalto — que poderá ser
ele mesmo — a obrigação de realizar um ajuste fiscal já em 2027. Na entrevista
em que lançou a mais recente edição do relatório “Panorama econômico da América
Latina e o Caribe”, o economista-chefe do Banco Mundial para a região, William
Maloney, reafirmou a realidade já conhecida de todos: qualquer governo que
assumir em janeiro terá a tarefa de se concentrar na agenda da consolidação
fiscal.
Os sintomas do desarranjo estão por toda
parte. O percentual de famílias endividadas bateu novo recorde em março,
chegando a 80,4%, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de
Bens, Serviços e Turismo — um ano atrás, eram 77,1%. O fator determinante para
as dívidas crescentes também é conhecido: juros nas alturas por período
prolongado. Desde fevereiro de 2022, o Brasil tem uma taxa de dois dígitos.
Não adianta culpar o Banco Central. Ante a
ameaça inflacionária provocada por um governo gastador, a autoridade monetária
não tem alternativa senão manter a Selic no alto. O juro real — descontada
a inflação —
permanece quase em 10% em virtude de fatores estruturais que o governo teima em
ignorar: baixa taxa de poupança, insegurança jurídica, um mercado em que 43% do
crédito é subsidiado e passa ao largo da Selic, concentração bancária e, acima
de tudo, o desequilíbrio das contas
públicas, que aumenta a desconfiança e obriga o governo a pagar mais caro
pelo dinheiro que toma emprestado.
O crescente endividamento das famílias não é
o único indicador que deveria causar preocupação. Num cenário de aperto
monetário, a economia dá sinais de fadiga. Pelas previsões do Banco Mundial, o
PIB sofrerá neste ano mais uma desaceleração forte. A estimativa é que cresça
1,6%, ante 2,3% em 2025 e 3,4% em 2024. No ano que vem, os cálculos sugerem
1,8%. O projeto de impulsionar a expansão da economia com despesa pública se
mostra insustentável, mas em suas previsões o governo mantém um otimismo
descolado da realidade. O Tesouro prevê que o PIB crescerá acima de 2% ao ano
até o fim da década, depois 3% por cinco anos. Ainda supõe que os futuros
governos cumprirão o centro da meta fiscal todos os anos. E, com tudo isso, a
dívida estabilizaria perto de 90% apenas em 2032.
É uma visão, além de irrealista,
insuficiente. O mais sensato a fazer, como sugere o Banco Mundial, é enfrentar
sem rodeios nem subterfúgios o gasto público desenfreado. A diferença entre o
superávit primário necessário para estabilizar o crescimento da dívida (3,5% do
PIB, segundo o economista Marcos Mendes) e o resultado que tem sido apresentado
(déficit de 0,5%) é inadmissível. Sem reduzi-la, os juros reais continuarão nas
alturas independentemente da nova prestidigitação populista inventada pelo
governo para tentar salvar famílias endividadas. Todas elas — como a nova
versão do Desenrola que pretende liberar R$ 7 bilhões do FGTS para mitigar o
endividamento — têm motivação meramente eleitoreira. O governo continua
tentando se apresentar como bombeiro de um incêndio que ajuda a propagar.
Caso Evandro expõe indigência da investigação
policial no Brasil
Por O Globo
Depois de 34 anos, STF arquivou processo
contra ré que confessou sob tortura ter matado menino no Paraná
O menino Evandro Ramos Caetano desapareceu
aos 6 anos, em abril de 1992, na cidade de Guaratuba, litoral do Paraná. Seu corpo foi
encontrado mutilado dias depois. Era mais um na série de desaparecimentos de
crianças no Paraná nas décadas de 1980 e 1990, um deles também em Guaratuba,
dois meses antes de Evandro. As investigações sobre o caso não foram
conclusivas, mas um ex-investigador da Polícia Civil, da família da criança,
resolveu elucidá-lo por conta própria — sem que ninguém o impedisse. O
resultado foram erros trágicos que levaram inocentes à prisão, só reparados
neste mês, 34 anos depois, com o arquivamento do processo pelo Supremo Tribunal
Federal (STF).
O ex-policial Diógenes Caetano dos Santos
Filho criou um dossiê acusando a então mulher do prefeito, Celina Abagge, e sua
filha Beatriz de terem usado o corpo de Evandro num ritual satânico. O dossiê
mencionava ainda um pai de santo, um pintor, um artesão e dois outros
suspeitos. Mãe e filha da família Abagge passaram a ser chamadas de “bruxas de
Guaratuba”. Em março de 1998, Beatriz e Celina foram inocentadas por um júri,
mas em 1999 o julgamento foi anulado. Em 2011, outro júri condenou apenas
Beatriz a 21 anos e quatro meses de prisão numa votação apertada (4 a 3). A
condenação foi anulada em 2016 pelo Tribunal de Justiça do Paraná e, em janeiro
de 2022, o governo do Paraná pediu desculpas formais a ela.
As investigações foram uma sucessão de falhas
e ilegalidades cometidas pelas polícias Civil e Militar, como demonstrou o
repórter e professor universitário Ivan Mizanzuk no podcast “Projeto Humanos”
de 2018. Mizanzuk provou que as confissões à PM do Paraná haviam sido feitas
sob tortura e que os vídeos e áudios apresentados como provas tinham sido
adulterados. Beatriz relata seus diálogos com os torturadores: “Mas não sei o
que vocês querem que eu fale. Eles falavam assim: ‘Diga que você matou a
criança’. Eu dizia: ‘Tá, eu matei a criança’. Eu não sabia nem que criança
queriam que eu dissesse”. A confirmação de que as confissões foram obtidas por
meio de tortura foi determinante para que o sequestro e assassinato de Evandro
terminassem nos arquivos judiciais como crimes sem autoria conhecida.
O arquivamento do processo era essencial, mas é preciso manter o caso na memória. As taxas de elucidação de homicídios no país continuam indigentes, oscilando em torno de 35%. Cerca de 65% dos assassinatos ficam impunes (no Chile, os índices de resolução variam entre 60% e 80%; na Colômbia, de 50% a 60%). E mesmo o que a polícia afirma ter resolvido pode não passar de fraude, com confissões obtidas de maneira ilegal ou sob tortura. Tudo o que aconteceu na investigação da morte de Evandro deveria constar do currículo das academias de polícia, para evitar que os erros se repitam.
Lula joga o STF aos leões
Por O Estado de S. Paulo
Ao sugerir suspeição de Alexandre de Moraes
no caso Master, Lula tenta se descolar do escândalo que ameaça o STF, expõe sua
estratégia de sobrevivência e reafirma que só é leal a si mesmo
Nem a militância petista mais ingênua pode
ter dúvida de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um incorrigível
pregador de si mesmo. Sua lealdade é invariavelmente submetida ao cálculo de
dividendos e prejuízos políticos que cada circunstância lhe oferece. Foi assim
no mensalão e na Lava Jato, quando o demiurgo petista não hesitou em entregar
aos leões a companheirada encalacrada para conter, tanto quanto possível, o
risco de contaminação. Essa memória é essencial para compreender a entrevista
que ele concedeu recentemente ao canal ICL Notícias, na qual, ao tentar se
proteger, Lula revelou mais do que gostaria.
Ao comentar o escândalo do Banco Master, as
estripulias do banqueiro Daniel Vorcaro e suas ramificações no Supremo Tribunal
Federal (STF), Lula afirmou ter aconselhado o ministro Alexandre de Moraes a
declarar-se impedido: “Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a sua
biografia”. Acrescentou que desvios devem recair sobre indivíduos, e não sobre
o tribunal, e foi além: “Se o cara quer ficar milionário, não pode ser ministro
do Supremo”. E, ao tocar no ponto sensível, lembrou: “Mas a sua mulher estava
advogando”.
A suspeição é evidente. A mulher de Alexandre
de Moraes, Viviane Barci de Moraes, prestou serviços milionários ao Banco
Master, posteriormente liquidado sob suspeita de fraudes. Ainda assim, o
ministro segue atuando em temas ligados ao caso, amparado pela complacência de
seus pares e pela crença militante de que a autoproclamada “defesa da
democracia” autoriza ignorar conflitos evidentes.
A fala de Lula é, no fundo, o reconhecimento
de que o desgaste do STF e o avanço do caso Master terão impacto direto na
disputa presidencial. Mas não há, aqui, qualquer súbito despertar ético. Lula
não mudou. O que mudou foi o risco. Com o instinto de quem atravessou décadas
de crises, Lula percebeu que o escândalo deixou de ser periférico e ganhou
contornos de crise sistêmica, com potencial de atingir não apenas ministros da
Corte, mas o próprio ambiente político que sustenta sua reeleição. Some-se a
isso o fato de que, além de Moraes e Dias Toffoli, orbitam o caso lideranças do
Centrão, governadores e nomes associados ao próprio PT.
Diante desse cenário, Lula moveu-se com
rapidez. Ao aconselhar Moraes a preservar a biografia, não defende a moralidade
pública nem propõe depuração institucional. Demarca distância. No limite, envia
um recado inequívoco: se houver naufrágio, cada um cuide do seu bote.
O efeito colateral é potencialmente
devastador. Ao admitir que ministros do STF podem ter ultrapassado limites
éticos, e ao associar a toga à incompatibilidade com o enriquecimento, Lula
implode a narrativa construída pelo consórcio político-institucional que orbita
o Supremo e o Palácio do Planalto. Durante meses, vendeu-se a ideia de que
críticas à Corte eram ataques à democracia. Agora, é o próprio presidente quem
sugere o contrário: o problema pode estar em condutas individuais que exigem
escrutínio.
A tentativa de separar o tribunal de seus
membros é correta em tese, mas nasce viciada. Lula não age para proteger a
instituição, mas para proteger-se. Sua preocupação não é a credibilidade do STF
nem a reputação de Moraes. É o impacto eleitoral de um escândalo que pode
crescer rapidamente. Em síntese, o recado ao ministro é claro: não comprometa a
campanha.
Há ainda um elemento adicional. Ao tornar
público esse distanciamento, Lula parece antecipar-se a um possível
desdobramento mais grave, que é uma eventual delação premiada de Daniel
Vorcaro. Habituado a crises, o presidente sabe que escândalos dessa natureza
seguem uma lógica própria e que todo tsunami começa com uma onda de uns poucos
centímetros. O caso Master reúne todos os ingredientes de uma tempestade
política de grandes proporções: fluxos financeiros opacos, proximidade com o poder
e potenciais revelações explosivas. Lula percebeu o risco e mudou de posição.
Resta saber se a manobra será suficiente ou se apenas confirma a dimensão da
crise que se tenta evitar.
O bolsonarismo além de Bolsonaro
Por O Estado de S. Paulo
Janela partidária revela um PL fortalecido,
expõe a fragilidade do centro e confirma que o bolsonarismo já não depende de
seu líder para ter chances reais de chegar ao poder
O PL do clã Bolsonaro saiu turbinado da
janela partidária, período legal em que deputados podem trocar de legenda sem
perder o mandato. A sigla que abriga essencialmente o bolsonarismo foi a grande
vencedora, ao saltar de 87 para 97 representantes na Câmara, resultado de 23
novas filiações e 13 baixas. Trata-se da maior bancada desde 1998, quando o
então PFL alcançou 105 cadeiras. Em contraste, partidos que ambicionavam
protagonismo ao centro, como o União Brasil, viram-se enredados por crises
internas e perdas consideráveis. Já o PT, mesmo com a máquina governista em
mãos, permaneceu estagnado.
Mais do que a musculatura renovada do PL, o
crescimento demonstra não só a desarticulação de adversários, mas sobretudo a
força em que se transformou o bolsonarismo no País. Quando somado à ofensiva
pré-eleitoral do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), constata-se sua reafirmação.
Jair Bolsonaro pode estar preso, inelegível e afastado do protagonismo
eleitoral, mas a corrente política que leva seu nome mostra-se mais viva do que
nunca, apesar da derrota de 2022, da revelação da trama golpista e do
julgamento e da prisão do ex-presidente e de seus aliados, além do radicalismo
empedernido de seu entorno. Ainda assim, demonstra resiliência e adaptação. E,
diferentemente do PT de Luiz Inácio Lula da Silva, mostra capacidade de
produzir novas lideranças com musculatura eleitoral e força mobilizadora.
Convém recordar o que representou o governo
de Jair Bolsonaro. Sua gestão, vamos chamar assim, foi marcada por ausência de
políticas críveis em áreas-chave como educação, além da condução desastrosa da
pandemia de covid-19, com desprezo pela ciência e pelas vidas perdidas,
estímulo à desinformação e uma política sanitária que contribuiu para agravar a
tragédia humana daquele período. Dispensável lembrar, ainda, as reiteradas
investidas contra as instituições democráticas, culminando na escalada golpista
que encontrou seu ápice nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Bolsonaro testou
os limites da democracia brasileira. E seu ocaso pessoal representou um alívio
institucional para o País.
Ainda assim, o fenômeno político revelou-se
maior que seu líder. Há uma base social consistente, ainda que minoritária –
entre 12% e 15% do eleitorado mais fiel, segundo diferentes pesquisas –, que
sustenta esse projeto com convicção. Mais relevante, porém, é sua capacidade de
transbordar esse núcleo duro e influenciar parcelas mais amplas da sociedade.
É nesse ponto que o resultado parlamentar
ganha especial relevância. O tamanho da bancada do PL não reflete apenas adesão
ideológica, mas também o pragmatismo de atores políticos que farejam a direção
do vento. Lideranças do Centrão e da centro-direita, sempre sensíveis à
correlação de forças, já perceberam tanto as dificuldades de uma candidatura
alternativa à polarização quanto a fragilidade do governo Lula, marcado por
inépcia, desgaste político, perda de apoio popular e desânimo na própria base.
Diante disso, tais forças não hesitam em se aproximar do polo que aparenta
maior viabilidade de poder no curto e médio prazos. E esse polo, hoje, é o
bolsonarismo.
A janela partidária funcionou, assim, como
termômetro e catalisador. Mediu a força relativa das correntes políticas e
acelerou um processo de realinhamento com potencial de redesenhar o sistema
político brasileiro. O fortalecimento do PL demonstra que o bolsonarismo se
institucionalizou. Deixou de ser um fenômeno conjuntural, dependente de uma
liderança carismática, para se consolidar como uma força estruturante da
política nacional.
Ignorar esse fato, ou tratá-lo como uma
anomalia passageira, seria erro grave. O bolsonarismo, com todas as suas
contradições e riscos, veio para ficar. E seu crescimento não se explica apenas
por seus próprios méritos organizativos, mas também pelas falhas de seus
adversários, incapazes de oferecer uma alternativa convincente e estável à
sociedade.
A preservação da democracia exige mais do que
derrotas eleitorais pontuais. Depende da reconstrução de confiança e da oferta
de caminhos políticos sólidos. Enquanto isso não ocorrer, movimentos como o
observado na janela partidária tendem a se repetir – e a ampliar ainda mais a
influência de uma força que, longe de definhar, segue em trajetória ascendente.
Roleta-russa em SP
Por O Estado de S. Paulo
Despreparo de alguns policiais transforma uma
simples caminhada noturna em aposta de vida ou morte
A morte da auxiliar de serviços gerais
Thawanna da Silva Salmázio, baleada no peito pela policial militar Yasmin
Cursino Ferreira durante uma ronda noturna em Cidade Tiradentes, zona leste da
capital paulista, mostra que, a depender do bairro, sair às ruas é apostar numa
loteria macabra na qual a vida humana tem pouco ou nenhum valor. A maturidade e
o nível de treinamento dos policiais militares envolvidos em dada abordagem
irão determinar se um cidadão vai viver ou morrer após cruzar seu caminho.
As imagens da ocorrência, registradas pela
câmera corporal do soldado Weden Silva Soares, parceiro de Yasmin no
patrulhamento, são perturbadoras não só pelo desfecho trágico. Elas revelam uma
escalada de insensatez que qualquer agente mais bem treinado teria evitado.
Tudo começou com o marido de Thawanna sendo
atingido pelo retrovisor da viatura policial. O casal reclamou. Os policiais deram
ré, mas, em vez de se desculparem e seguirem adiante, iniciaram a abordagem com
agressividade, questionando por que o casal estava na rua naquele horário. Em
seguida, a soldado Yasmin sai do carro e a discussão escala sem controle. Um
tiro é disparado em questão de poucos minutos, como se fosse um desfecho
trivial para aquela altercação.
A reação do soldado Weden à atitude da colega
sintetiza o amadorismo que resultou em tragédia. “Por que você atirou nela?”,
questiona. De fato, não havia qualquer razão para o uso da força letal. A
soldado Yasmin alega que a vítima teria dado um tapa em seu rosto. Não há
registro dessa suposta agressão. Mas, ainda que tenha havido, é evidente o
descompasso entre o que se espera de um policial militar envolvido numa situação
dessas e o comportamento irresponsável, para dizer o mínimo, da soldado de dedo
leve no gatilho.
O uso de força letal por agentes do Estado é
regido, fundamentalmente, pelo princípio do uso progressivo. Um tapa, supondo
que tenha havido, não autoriza um tiro, mas sim a prisão do agressor, se tanto.
Espera-se que policiais militares sejam capazes de suportar a tensão das ruas e
responder a provocações sem perder o controle. É para isso, afinal, que são
treinados – ou deveriam ser.
Esse caso expôs falhas óbvias de
recrutamento, treinamento e, sobretudo, padronização de condutas na Polícia
Militar (PM) de São Paulo. É inaceitável que o comportamento de um policial
militar varie a ponto de abordagens semelhantes em regiões distintas levarem a
desfechos radicalmente opostos. O policiamento ostensivo deve ser padronizado e
proporcional. A autoridade policial se exerce com firmeza, mas também com
técnica e respeito aos cidadãos.
O preço do despreparo de alguns policiais
militares costuma ser mais caro nas periferias da cidade, onde as abordagens da
PM não raro são mais conflitivas. Nas regiões mais afastadas do centro
expandido, os cidadãos nunca sabem se serão tratados como tais ou como
suspeitos a priori. No
fundo, talvez saibam.
Sem confiança social na PM, não há segurança pública, há medo. E, quando um cidadão passa a sentir medo ao avistar uma viatura policial, a instituição deixa de representar proteção e passa a ser vista como ameaça. Esse círculo vicioso só produz desordem e morte.
Infecções respiratórias desafiam o país
Por Correio Braziliense
A campanha da gripe se dá em um cenário
aparentemente mais delicado: o de mobilizar uma população ainda contaminada por
ideias antivacina e em um momento em que as infecções do tipo fugiram da curva
Bater a meta da imunização contra a gripe tem
desafiado os gestores da saúde nos últimos anos — e, na maioria dos
casos, com desfechos desanimadores do ponto de vista sanitário. Há duas semanas
nas ruas, a campanha de 2026 se dá em um cenário aparentemente mais delicado: o
de mobilizar uma população ainda contaminada por ideias antivacina e em um
momento em que as infecções do tipo fugiram da curva.
Há um aumento de complicações respiratórias
durante o inverno — por isso, a concentração de esforços para a vacinação dos
brasileiros na estação anterior. As águas de Março, porém, trouxeram um outono
com circulação de vírus atípica e preocupante, como têm alertado órgãos ligados
à saúde coletiva.
O boletim mais recente da Fiocruz, divulgado
na última quinta-feira, indica que a influenza A "ainda apresenta níveis
elevados de incidência" no país e que 13 das 27 unidades da Federação
seguem com incidência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em níveis de
alerta, com sinal de crescimento nas últimas seis semanas. São elas: Acre,
Pará, Tocantins, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe,
Bahia, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo.
O Distrito Federal está em situação menos
crítica, mas longe de ser confortável. A Fiocruz classifica o cenário da
capital federal como de risco. São 1.445 casos descobertos de SRAG de 4 de
janeiro a 4 de abril — o equivalente a 16 por dia. Houve um pico na primeira
semana de março, com 208 diagnósticos, e, desde então, os registros vêm
diminuindo, chegando a 60 confirmações entre 29 de março e 4 de abril. Preocupa
no caso dessa síndrome o fato de ela ser desencadeada por uma diversidade de
vírus — influenza, coronavírus, rinovírus, sincicial respiratório, todos em
circulação no momento — e de levar a complicações respiratórias que exigem
hospitalização, sobretudo de idosos e bebês.
Não é preciso exigir muito da memória para
trazer à tona os efeitos de um aumento da pressão sobre as unidades de saúde em
razão de infecções virais. Em 2024, o país enfrentou a pior epidemia de dengue
da história — com 6,4 milhões de casos diagnosticados e 5,9 mil mortes —, ainda
se recuperando da devastação sanitária causada pela pandemia da covid-19. Em
ambos os casos, a escalada de infectados foi acompanhada por escassez de leitos
públicos e privados, sobrecarga de trabalho para profissionais de saúde e
superlotação em espaços de acolhimento temporário, entre outras gravidades.
Agora, há um arsenal mais completo de fórmulas protetivas — boa parte delas disponíveis gratuitamente pelo SUS — que reduz significativamente o risco de infecções respiratórias evoluírem para quadros críticos. Chega a ser irracional não aderir a um pacto coletivo cujos efeitos aumentam dos anticorpos ao Produto Interno Bruto, passando pela expectativa de vida da população. Já são 1.621 mortes registradas por SRAG desde o início do ano, em um país com expertise em imunização em massa reconhecida internacionalmente. Passou da hora de, internamente, essa competência voltar a ser valorizada.
Uma oportunidade perdida
Por O Povo (CE)
Desde os primórdios, a Lua exerce fascinação
sobre todos os agrupamentos humanos, pelos seus "mistérios",
associação a divindades e pelo que a sua observação poderia oferecer de prático
para a vida cotidiana das civilizações antigas, como regular colheitas e a
marcação do tempo.
Mas o "grande salto para a
humanidade" ocorreu no dia 20 de julho de 1969, quando o astronauta
americano Neil Armstrong tornou-se o primeiro homem a pisar na Lua, levado pela
missão Apollo.
Vivia-se um período conturbado, em plena Guerra
Fria, quando a então URSS disputava os Estados Unidos na chamada "corrida
espacial", com os soviéticos à frente dos EUA, até então.
Agora, os Estados Unidos fazem história
novamente. É a primeira vez, em mais de 50 anos, que humanos viajam à Lua, no entanto
sem pisar em seu solo. É de se destacar a tripulação diversa que faz essa
viagem inédita, pois chegou a alcançar o "lado oculto" da Lua.
A tripulação é formada pelos norte-americanos
Victor Glover, Christina Koch e Reid Wiseman e pelo canadense Jeremy Hansen.
Glover é a primeira pessoa negra a alcançar a órbita lunar; Christina Koch, a
primeira mulher a atingir o feito.
Na sexta-feira, a Artemis II completou a sua
missão trazendo de volta para casa a equipe de astronautas que tiveram o
privilégio de concluir uma aventura que poucos seres humanos experimentaram.
É apenas de se lamentar que esse exemplo de
engenho humano, que une ciência e cooperação, não sirva de exemplo do que a
humanidade seria capaz de alcançar se as guerras deixassem de ser prioridade em
alguns governos.
É terrível pensar que, enquanto se buscam
soluções para a sobrevivência da espécie humana, milhões de pessoas são
submetidas à fome e outros milhares sacrificados em guerras que não fazem o
menor sentido. Um mundo em que a intolerância parece encontrar terreno fértil
para oprimir, ofender e matar.
Por isso é importante ouvir o piloto do
programa Artemis II, Victor Glover. Ele disse que o mundo deveria aproveitar
esses momentos para se unir. Para ele, principalmente nos momentos em que
ficaram sem contato com a Terra, foi uma oportunidade para rezar, ter esperança
e bons pensamentos.
É bom pensar que um programa de tamanha importância, que terá papel crucial no futuro da humanidade, poderia ter aberto uma janela para o diálogo e para a paz entre os povos — como pede o papa Leão XIV. No entanto, olhando as guerras e conflitos que se espalham pelo mundo, parece que os homens se dedicam a explodir pontes, distanciando cada vez mais a humanidade de uma convivência pacífica.

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