Carga tributária evidencia erro da política fiscal de Lula
Por Folha de S. Paulo
Novo recorde de arrecadação fracassa em
evitar escalada do déficit movida à expansão contínua dos gastos
A carga pode e deve ser mais bem distribuída,
com maior peso na renda alta e menor tributação regressiva sobre o consumo
Ao bater mais um recorde em 2025, como
recém-divulgado pelo Tesouro Nacional, a carga tributária do país
evidencia o erro básico da política fiscal do terceiro mandato de Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT).
No ano passado, União, estados e municípios
arrecadaram em impostos, taxas e contribuições R$ 4,127 trilhões, equivalentes
a 32,4% do Produto Interno Bruto. Dito de outra maneira, o Estado brasileiro
consumiu perto de um terço da renda da população.
Essas cifras seriam ainda maiores se considerassem, como fazem outros trabalhos, encargos como as contribuições para o FGTS e o Sistema S, que somam 1,95% do PIB. De todo modo, os números do Tesouro dão boa ideia de como evolui a carga.
Antes deste governo petista, ela havia sido
de 31,2% do PIB em 2022. Já seria digna de nota uma alta de 1,2 ponto
percentual em apenas três anos, mas deve-se levar em conta, ainda, que o último
ano de Jair
Bolsonaro (PL) foi de arrecadação
excepcional, graças à escalada dos preços do petróleo com a guerra da Ucrânia.
Na série histórica iniciada em 2010, são mais comuns taxas oscilando em torno de 30% do PIB.
A política de Lula é claramente a principal responsável por esse aumento —nesse
período, a receita dos tributos federais subiu de 20,6% para 21,6% do PIB. A
despeito do avanço, a aposta de Brasília em mais arrecadação para reequilibrar
as contas públicas se mostrou um fracasso previsível.
De 2022 para 2025, o resultado do Tesouro
Nacional passou de superávit de 0,55% do produto (sem contar gastos com juros)
para déficit de 0,46%. Ainda que a primeira cifra tenha sido favorecida por um
calote parcial no pagamento de precatórios, a deterioração é clara. Se
incluídas despesas financeiras, há uma disparada do rombo, de 4,45% para 7,59%.
A ofensiva tributária de Lula 3 incluiu
medidas corretas, que reduziram privilégios injustificados de grupos
influentes, mas também
cobranças casuísticas e nefastas, como o aumento do IOF em 2025 —que
encareceu o crédito bancário. Tudo somado, o esforço foi inútil diante de uma
expansão insustentável dos gastos.
Há limites econômicos e políticos para o
aumento dos impostos. No primeiro caso, a carga brasileira já é excessiva para
um país de renda média. Como mostra o relatório do Tesouro, a arrecadação média
na América Latina fica pouco acima de 21% do PIB; mesmo em países ricos como
Estados Unidos e Japão, o indicador não chega aos patamares daqui.
No segundo, os contribuintes naturalmente
resistirão a arcar com mais sacrifícios enquanto se veem tantos episódios de
desperdício e má gestão no setor público, dos supersalários no Judiciário ao
rombo bilionário dos Correios, passando pela farra das
emendas parlamentares.
A carga pode e deve ser mais bem distribuída,
com maior peso na renda alta e menor tributação regressiva sobre o consumo.
Imaginar que será possível elevá-la indefinidamente, porém, é ilusão.
Húngaros escolhem a liberdade
Por Folha de S. Paulo
Derrotado nas eleições, Orbán deixa rastro de
deterioração institucional e ataque a direitos fundamentais
Para reaver fundos bloqueados pela UE, o novo
premiê precisará agir de forma efetiva para desmontar a estrutura autocrática
do antecessor
Em eleições realizadas
no domingo (12), os húngaros selaram o fim do único governo autocrático
da União
Europeia. Com mais de 98% das urnas apuradas, o partido de
centro-direita do opositor Péter Magyar, o Tisza, deve obter
138 das 199 cadeiras do Parlamento.
Sem maioria, o primeiro-ministro Viktor Orbán,
que já reconheceu a derrota, deixará o cargo, a ser ocupado por Magyar.
A corrosão da
democracia húngara se deu por meio da desestabilização das
instituições e da centralização do poder no premiê e em seu partido, o Fidesz.
Desde que chegou ao posto em 2010, Orbán
promoveu mudanças constitucionais profundas que reduziram freios e contrapesos,
limitaram a atuação da corte suprema e ampliaram o controle político sobre
órgãos de Estado.
Consolidou um ecossistema midiático
pró-governo, a partir da concentração de veículos nas mãos de seus aliados e da
pressão sobre os independentes.
Com retórica nacionalista e conservadora,
adotou medidas contra imigração e
direitos LGBT.
Uma lei aprovada em 2010 reduziu o número de
cadeiras do Parlamento e redesenhou os distritos eleitorais, o que contribuiu
para a continuidade do governo por 16 anos, sempre com maioria de dois terços
no Legislativo.
Na economia,
adotou modelo heterodoxo e intervencionista, favorecendo setores escolhidos e
expandindo conglomerados ligados ao poder, o que estimulou a corrupção e o
clientelismo.
Na política externa, se alinhou a outro
autocrata, o russo Vladimir
Putin, por meio de acordos no setor energético. Também vetou ou
dificultou ajuda financeira à Ucrânia e questionou políticas europeias contra
Moscou. Tornou-se um ícone do populismo de direita, elogiado por Donald Trump e Jair
Bolsonaro (PL).
Tal postura isolou o país na União Europeia,
que se vê sob ameaça do militarismo russo. O bloco deixou de repassar € 19
bilhões à Hungria nos
últimos anos, como forma de sanção à deterioração das instituições democráticas
e do Estado de Direito.
Não à toa, na primeira entrevista após a
confirmação de sua vitória, Magyar deixou
claro que o país será um aliado da UE e da Otan.
E, para reaver os fundos bloqueados, precisará agir de forma efetiva para
desmontar a estrutura autocrática do seu antecessor.
O mundo não acaba com um estrondo, mas com um suspiro, disse o poeta T.S. Eliot. E essa é a lição deixada pela era Orbán. Democracias podem ser corroídas por dentro, lentamente. Num cenário global de ascensão de populismos, trata-se de alerta crucial.
Congresso tem de dar autonomia financeira ao
BC
Por O Globo
Desafios como fintechs ou crime organizado
exigem investimentos robustos em pessoal e tecnologia
O Congresso deveria pôr logo em pauta a
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que dá ao Banco
Central (BC) autonomia administrativa, orçamentária e financeira,
fortalecendo sua capacidade de fiscalização. Depois de ajustes no texto em meio
a resistências do governo, o relatório do senador Plínio Valério (PSDB-AM)
deverá ser liberado nesta semana. A expectativa é que seja votado na Comissão
de Constituição e Justiça do Senado na semana que vem. É preciso dar celeridade
ao trâmite.
A PEC busca equiparar o arcabouço legal do BC
ao dos bancos centrais dos países mais avançados. Embora tenha autonomia para
estabelecer a taxa de juros, a autoridade monetária não controla o próprio
orçamento. A consequência, num cenário de escassez de recursos, tem sido o
esvaziamento, numa autarquia conhecida pela competência dos quadros técnicos.
Cada vez mais servidores se aposentam ou vão para a iniciativa privada. “Há dez
anos, a fiscalização cuidava de 300 empresas, hoje elas passam de 3 mil”,
afirma Valério. “Não há orçamento para isso.” Nos últimos dez anos, o BC perdeu
quase um quarto de seu pessoal. Tem hoje 3 mil servidores, ante 23 mil nos
Estados Unidos e 13 mil na Índia. “Desde a minha sabatina, venho tratando
disso”, afirma Gabriel
Galípolo, presidente do BC. “Pedi apoio de início, pedi ajuda e agora peço
socorro.”
No Brasil um servidor acompanha até 30
instituições diferentes. De acordo com Galípolo, o uso de inteligência
artificial permite aumentar a capacidade de supervisão, mas exige investimento
em tecnologia própria. “São trilhões de reais em operações por dia no sistema financeiro”,
diz ele. “Identificar fraudes apenas com análise manual é praticamente
impossível.”
Há ainda confusão na gestão. O transporte de
valores é feito em caminhões de 1982. Como o BC está submetido a dois
orçamentos (monetário e fiscal), se um veículo quebra, a manutenção é paga por
um, a compra de um novo pelo outro. A estrutura defasada se reflete no
trabalho, num momento em que a autarquia se vê às voltas com a proliferação de
fintechs, a infiltração do crime organizado no mercado formal e desafios como
os expostos pelo escândalo do Banco Master.
O objetivo principal da PEC, diz Valério, é dotar o BC de um orçamento próprio.
Seria perfeitamente possível ao BC se financiar com os recursos que ele próprio
gera, mas são apropriados pela União.
O caso Master demonstrou a importância de um
BC independente e preparado. A autoridade monetária fez o que precisava fazer.
Barrou a compra do Master pelo BRB depois de detectar inconsistências na
operação, liquidou o banco de Daniel Vorcaro, promoveu auditoria interna,
afastou dois funcionários suspeitos de corrupção e entregou o caso à Polícia
Federal. Mas nem tudo pode ser detectado ou combatido a tempo sem os recursos
necessários.
A sucessão de entraves enfrentada no Senado
pela PEC sugere que o problema é menos técnico que político. O governo tem se
mostrado contra a proposta e usado todo pretexto para miná-la. Ora, não é
razoável que a autonomia financeira do BC fique refém das idiossincrasias do
Planalto. Trata-se de questão estritamente administrativa. A instituição
precisa ter funcionários, equipamentos e tecnologia à altura dos semelhantes
mundo afora. Com um BC esvaziado, a fiscalização deixará a desejar. O caso
Master mostra que não se pode baixar a guarda.
Derrota de Orbán é antes de tudo uma vitória
da democracia
Por O Globo
Desafio do novo primeiro-ministro Péter
Magyar é desfazer sequestro do Estado promovido pelo antecessor
A vitória avassaladora do conservador Péter
Magyar sobre Victor Orbán nas eleições parlamentares de domingo extrapolou as
fronteiras da Hungria.
No poder há 16 anos, Orbán é ícone da ultradireita global. Presente na posse de
Jair Bolsonaro em 2019, era apoiado tanto por Vladimir Putin quanto por Donald
Trump. É visto entre os cientistas políticos como o exemplo mais acabado do
autocrata do século XXI, aquele que chega ao poder pela via democrática e, uma
vez instalado, muda regras para preservar o controle das instituições com a
intenção de se manter no poder. Sua derrota é, antes de tudo, uma vitória da democracia.
O partido de Magyar, o Tisza,conquistou 138
das 199 cadeiras do Parlamento, cinco além dos dois terços necessários para
promover mudanças na Constituição. Seu desafio será desfazer o sequestro do
Estado promovido por seu antecessor. Orbán não escondia seu desprezo pela
democracia liberal. Defendia uma variante que chamava de “democracia iliberal”,
em que vale o voto popular, mas não as instituições que garantem as liberdades
e direitos civis. “O sistema de freios e contrapesos é uma invenção dos Estados
Unidos que, por alguma razão de mediocridade intelectual, a Europa decidiu
adotar”, disse.
Orbán ampliou as cadeiras da Corte
constitucional e mudou as regras de aprovação dos novos integrantes. Reduziu a
idade de aposentadoria compulsória de juízes e criou uma instância com poderes
de demitir qualquer magistrado, para encher as Cortes com seus acólitos. Da
Procuradoria-Geral ao instituto de estatísticas oficiais, o Estado foi tomado
por eles. “Em vez de atuarem como mecanismos de controle sobre o Executivo, as
instituições tornaram-se facilitadoras e, por vezes, instrumentos usados para
penalizar organizações não governamentais e partidos de oposição”, diz estudo
do Cato Institute. Regras eleitorais foram alteradas para beneficiar seu
partido, o Fidesz, e a imprensa profissional virou alvo de ataques. Ele
esvaziou o poder de universidades e conselhos de ciência.
A tomada do Estado teve reflexos negativos na
economia. Nos últimos três anos, o PIB mal cresceu. De 2022 para cá, a Hungria
acumulou a maior inflação da União Europeia (UE). Para completar, casos de
corrupção e enriquecimento meteórico revoltaram a opinião pública. Tal situação
levou a participação recorde domingo e pavimentou a vitória de Magyar, cujo
perfil tem sido comparado ao da italiana Giorgia Meloni. Orbán teve a virtude
de reconhecer a derrota, ao contrário do que têm feito outros candidatos a
autocrata.
Mesmo com as ameaças flagrantes à democracia e o apoio velado de Orbán à Rússia de Putin, a UE demorou a tomar providências contra a Hungria, mas aos poucos começou a segurar verbas. Há € 35 bilhões bloqueados. Para resgatar a credibilidade do país junto aos sócios europeus e projetar uma imagem de transformação no mundo, Magyar precisa não apenas desaparelhar o Estado, mas promover as mudanças constitucionais que restabeleçam as bases da democracia liberal.
Grande vitória da democracia liberal
Por O Estado de S. Paulo
Decano da nova extrema direita mundial, Orbán
é derrotado inapelavelmente nas urnas, mostrando que regimes iliberais podem
ser batidos pelo mais singelo instrumento da democracia: o voto
A queda de Viktor Orbán encerra um dos ciclos
políticos mais duradouros da Europa contemporânea. Após 16 anos no poder, o
premiê húngaro foi derrotado de forma inequívoca por Péter Magyar, cuja
coalizão alcançou maioria suficiente para reverter parte do arranjo
institucional herdado. A participação elevada e a margem ampla do resultado dão
à eleição um peso que vai além da alternância rotineira. Pequena em escala, a
Hungria está no centro do debate europeu e mundial.
O que foi submetido ao voto não foi apenas um
governo, mas um modelo. Ao longo de mais de uma década, Orbán combinou
nacionalismo, reacionarismo cultural, intervenção econômica e controle
progressivo das instituições. Reescreveu regras, ampliou sua influência sobre o
Judiciário, reorganizou o sistema de mídia e cultivou uma rede de clientes
beneficiados por contratos públicos. No plano externo, aproximou-se do
autocrata russo Vladimir Putin e esgarçou sua relação com a União Europeia, da
qual continuou a depender financeiramente.
Esse arranjo produziu resultados que, por um
período, sustentaram sua popularidade. Mas os limites se tornaram visíveis. A
economia perdeu dinamismo, a inflação corroeu a renda e o padrão de vida ficou
para trás em relação a países vizinhos. Ao mesmo tempo, ante o enriquecimento
de figuras próximas ao poder e o consequente bloqueio de recursos europeus, a
percepção difusa de corrupção tornou-se concreta. As urnas, como deve ser,
julgaram a política não por suas promessas, mas por seus efeitos.
Há uma tentação, sobretudo fora da Hungria,
de tratar esse desfecho como a queda de um vilão e a restauração automática de
um ideal – uma leitura em grande parte alimentada por narrativas simplistas e
fatalistas sobre “a morte da democracia”. Orbán foi derrotado nas urnas e
reconheceu o resultado. O que decidiu a eleição não foi uma conversão
ideológica súbita – o triunfo de alguma “frente ampla democrática” progressista
sobre a “extrema direita” –, mas o desgaste acumulado de um governo que deixou
de entregar o que prometia. Seu principal adversário emergiu do próprio campo
conservador que agora promete reformar.
A lição mais relevante está justamente aí.
Mesmo com regras manipuladas a favor do regime, o sistema preservou um elemento
de incerteza suficiente para permitir a alternância. A oposição não venceu
apesar das instituições, mas dentro delas, explorando suas brechas e se
adaptando ao terreno. Organizou-se, unificou candidaturas e transformou
insatisfação difusa em maioria eleitoral. A experiência húngara sugere que
estruturas capturadas podem retardar mudanças, mas não necessariamente
bloqueá-las quando o custo político se torna evidente.
As consequências repercutem muito além das
fronteiras do país. Orbán era o principal elo europeu da rede política liderada
pelo presidente dos EUA, Donald Trump – que se empenhou pessoalmente na
campanha, pois via nele o peão com o qual pretendia enfraquecer a Europa. A
derrota de Orbán é, nesse sentido, um golpe duro contra o trumpismo e, por
extensão, contra Putin, que contava com a Hungria para estimular a paralisia da
Europa na guerra na Ucrânia.
Nada disso resolve automaticamente os
problemas húngaros. O novo governo herdará instituições desfiguradas ao longo
de anos e enfrentará resistências reais. Ainda assim, o essencial já ocorreu.
Um projeto que concentrou poder, distorceu incentivos e perdeu aderência foi
removido por meio do voto.
Em diferentes graus, experiências recentes na
Europa apontam na mesma direção: na Polônia, a alternância ocorreu apesar de
anos de tensão institucional; na Itália, o exercício do poder moderou impulsos
iniciais da coalizão de direita de Giorgia Meloni; na Grécia, o confronto com a
realidade econômica reverteu um experimento populista de esquerda. Não há
linearidade nem garantias. Mas tampouco há fatalismo.
Num momento em que se multiplicam propostas
de atalhos institucionais – também no Brasil –, a lição merece atenção. A
política pode ser lenta, imperfeita e frustrante. Mas, numa democracia,
continua sendo capaz de corrigir seus próprios desvios quando não abdica de
suas regras.
Entre o PIB e o boleto vencido
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisa mostra o peso do endividamento sobre
o humor do eleitorado em relação a Lula, expondo o descompasso entre a
propaganda do governo e a realidade das famílias brasileiras
Uma recente pesquisa Meio/Ideia ofereceu ao
Palácio do Planalto um retrato bem menos confortável do que a propaganda
oficial lulopetista gostaria de admitir. No cenário estimulado de primeiro
turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 40,4% das intenções
de voto, ante 37% de Flávio Bolsonaro, diferença que configura empate técnico,
dentro da margem de erro. Mas o dado politicamente mais eloquente está em outro
lugar, que explica em grande medida a estagnação presidencial nas intenções de
voto e a perda de musculatura de seu governo: a avaliação dos brasileiros sobre
a economia do Brasil sob Lula e o PT.
A pesquisa revela um país em que a percepção
econômica é perturbadoramente negativa. Quando perguntados sobre o custo de
vida, 30% dizem que ele “aumentou muito” e 40,4% que “aumentou, mas não muito”.
Ou seja, cerca de sete em cada dez brasileiros percebem piora, apesar do
discurso triunfalista dos morubixabas petistas sobre as conquistas econômicas
do atual mandato. No endividamento, o quadro é igualmente adverso: 40% afirmam
que as dívidas estão maiores do que em 2025, enquanto apenas 13% dizem que
diminuíram. Não por acaso, o próprio levantamento destaca o peso decisivo
desses fatores na definição do voto.
Não é preciso muito esforço para compreender
o efeito político dessa percepção. Donde se constata algo sério, conforme a
análise do fundador do instituto responsável pela pesquisa, Maurício Moura: a
sucessão de Lula não será decidida na variação oficial do PIB (tampouco,
acrescentemos, nas apresentações em PowerPoint de ministros empenhados em
provar que a economia vai bem). Será decidida, isto sim, nas mesas de cozinha,
nas compras parceladas, nas faturas acumuladas e na sensação de que a renda
acaba antes do mês.
Eis o ponto em que o lulopetismo volta a
exibir seu defeito de fabricação: a crença de que a narrativa pode revogar a
realidade. O governo insiste em celebrar índices agregados, como se o cidadão
organizasse a vida por séries estatísticas, e não pelo próprio bolso. Pode
haver crescimento formal, melhora pontual de indicadores ou números
tecnicamente respeitáveis, como os índices relacionados ao crescimento da renda
e à redução do desemprego. Nada disso, contudo, altera o fato de que, para
milhões de brasileiros, a economia real é a do supermercado, do cartão de
crédito e do aluguel. E essa economia desmente, todos os dias, o otimismo
oficial. Quando o custo de vida sobe e o endividamento aperta, o eleitor não
quer explicação. Quer alívio. E, se não o encontra, pune.
Os padrões recentes do endividamento ajudam a
explicar por que o governo está vulnerável. Dados da CNC mostram que cerca de
80% das famílias brasileiras estão endividadas, nível recorde. Quase 30% têm
contas em atraso e mais de 12% não conseguem pagar o que devem. Entre os mais
pobres, o endividamento supera 80%, e, em média, quase um terço da renda mensal
já está comprometida com dívidas.
Diante disso, o governo reage como de
costume. Procura culpados longe de si e fabrica soluções de curto prazo. Ora
são fatores externos, ora são bancos, bets ou “bilionários”. Ao mesmo tempo,
multiplicam-se as tentativas de empurrar o problema adiante: crédito consignado
ampliado, programas de renegociação, promessas de alívio imediato. Quando a
realidade aperta, o lulopetismo improvisa um paliativo e adia o enfrentamento
estrutural.
Esse é seu vício ideológico. O PT segue
tratando sintomas como solução, apostando mais em expedientes táticos do que em
reformas duradouras. Em vez de enfrentar o custo do crédito, a desordem fiscal
e a baixa produtividade, opta por atalhos que produzem algum efeito momentâneo
e nenhum resultado consistente. É a política econômica da anestesia. E
anestesia, como se sabe, não cura, só adia a dor.
Por essa razão, a pesquisa tem um significado
que vai além da fotografia eleitoral. Ela mostra que Lula segue competitivo,
mas já não consegue converter a vantagem do cargo em sensação de bem-estar.
Enquanto o governo fala do PIB, o eleitor olha o rotativo do cartão de crédito.
E, assim, Lula prossegue habitando sua ficção estatística. E ficções, na
política, costumam ruir quando encontram a dura realidade do próximo boleto
vencido.
O saneamento além da Sabesp
Por O Estado de S. Paulo
Governo paulista quer lançar novas
concessões, única maneira de acelerar a universalização
Consolidada a privatização da Companhia de
Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o governo Tarcísio de
Freitas passou, acertadamente, a dar mais atenção aos municípios paulistas que
não são atendidos pela empresa. A grandiosidade da Sabesp pode até enganar: mas
a companhia, por maior que seja, não é onipresente. Hoje, atende a 371 das 645
cidades do Estado, o que indica que há um enorme mercado ainda a ser explorado.
São nada menos do que 274 municípios fora da
área de atuação da Sabesp e que agora estão no foco da Secretaria de Meio
Ambiente, Infraestrutura e Logística. O plano da pasta comandada por Natália
Resende é lançar em breve uma consulta pública para a concessão do saneamento
básico de um bloco formado por 149 cidades, que poderá ser subdividido em até
quatro contratos.
Assim como fez no processo de desestatização
da Sabesp, os gestores paulistas vão colocar a pasta com o projeto debaixo do
braço e percorrer o mundo, em roadshows,
para anunciar a iniciativa e atrair investidores estrangeiros. E os
investidores nacionais – o que inclui a Sabesp – também já terão a chance de
analisar a proposta por aqui.
Não há dúvidas de que esses municípios se
tornarão economicamente ainda mais atrativos: há demanda, haverá oferta e, com
as cidades agrupadas, haverá mais otimização e sinergia de investimentos e
também de custos.
E o capital privado será fundamental para
garantir que um serviço tão essencial chegue às casas dos paulistas. Isso
porque o Marco Legal do Saneamento Básico, aprovado em 2020, impôs metas muito
ambiciosas para o setor no curto prazo. Segundo a lei, até 2033, 99% da
população deverá ser atendida com água potável e 90% ter o esgoto coletado e
tratado.
Pode parecer que tudo vai bem em São Paulo,
mas não vai. Segundo estimativas do governo estadual, se as cidades paulistas
mantiverem o atual ritmo de investimento em saneamento básico, o patamar de
cobertura exigido pelo Marco Legal do Saneamento Básico somente será atingido
daqui a 30 anos.
Isso atesta a incapacidade da administração
pública de gerir grandes negócios e realizar investimentos. A burocracia e a
morosidade do setor público em nada vão ajudar os municípios paulistas a
alcançar tais metas – ao contrário, só vão atrapalhar.
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura
e Logística, não à toa, aposta no programa Universaliza SP. E seus números
impressionam: são previstos R$ 24 bilhões de investimentos logo nos primeiros
anos de concessão, a fim de assegurar a universalização do fornecimento de água
e da coleta e do tratamento de esgoto. Ao todo, serão R$ 51 bilhões de
investimentos até 2060.
O volume de recursos necessários para levar o saneamento básico aos paulistas é vultoso. Não dá para esperar pela boa vontade política dos governantes de turno, que, não raro, não veem potencial de voto nessas obras, que são caras e ficam escondidas debaixo da terra. Mas o Estado de São Paulo tem pressa: enfrentar tamanho problema exige eficiência, agilidade e competência, algo que a iniciativa privada pode oferecer.
Trump mira a China com bloqueio duplo de
Ormuz
Por Valor Econômico
A China está em melhor posição do que a maioria das economias para absorver um choque energético externo, mas isso não significa que ela esteja confortável com uma escalada prolongada no Oriente Médio
A nova estratégia de Trump para pressionar o
Irã, bloquear efetivamente o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz, arrisca
reacender a tensão entre as duas maiores economias do mundo, os EUA e a China —
cuja guerra comercial está sob uma trégua temporária desde outubro do ano
passado. Um dos objetivos de Trump com o bloqueio da via pela Marinha americana
seria forçar Pequim — que tem comprado 90% das exportações iranianas de
petróleo desde o início da guerra — a pressionar o seu aliado Teerã a ser mais
flexível nas negociações com Washington. Isso também poderia ser uma tática de
negociação para Trump chegar à reunião de cúpula com Xi Jinping, daqui a um
mês, em Pequim, tendo o controle sobre algo de que a China precisa, e que
serviria de moeda de troca por um alívio nos controles das exportações chinesas
sobre terras raras ou termos comerciais mais favoráveis aos americanos. Mas a
mais recente estratégia de Trump pode ser interpretada por Pequim como um ato
de coerção, o que reduziria o espaço para a diplomacia e poderia reacender a
disputa comercial.
A navegação no Estreito de Ormuz parou
novamente nesta segunda-feira, após o anúncio de Trump, levando os preços do
petróleo a voltarem a subir para mais de US$ 100 por barril e pressionando as
bolsas da Ásia e da Europa para baixo. Em Wall Street, os principais índices de
ações reverteram as perdas iniciais na expectativa de um acordo entre EUA e
Irã, depois que Trump disse que seu governo recebeu uma ligação do lado
iraniano. É a aposta no Taco — o acrônimo para dizer que Trump sempre desiste
de suas ameaças.
Para governos de todo o mundo — em especial
da Ásia —, a esperança de que o cessar-fogo liberasse o fluxo de energia e
outros produtos essenciais pelo Estreito de Ormuz se transformou uma surpresa
desagradável no domingo. Se antes havia a possibilidade de obter um
salvo-conduto mediante o pagamento de um pedágio ao Irã, agora a passagem pela
via foi fechada pelos EUA para obter uma alavancagem sobre o Irã e a China.
O bloqueio duplo de Ormuz arrisca levar a uma
paralisação completa no estreito, com risco de afetar as cadeias de suprimentos
da China, a segurança energética e o comércio com as nações do Golfo Pérsico,
que são um mercado importante para as exportações chinesas.
Dados alfandegários da China mostram que os
países do Golfo forneceram 42% das importações chinesas de petróleo no ano
passado, enquanto cerca de 12% das importações chinesas de petróleo vieram do
Irã, segundo a empresa de análise Kpler. Além disso, a China obtém um terço de
seu gás natural liquefeito (GNL) do Oriente Médio, com o Catar fornecendo até
28%.
Para além do impacto econômico, o bloqueio
duplo força Pequim a um dilema político que vinha tentando evitar desde o
início da guerra. “Quanto mais tempo o bloqueio durar, mais difícil será para a
China manter sua postura de ambiguidade estratégica entre Washington e Teerã”,
afirmou Jesse Marks, fundador da Rihla Research and Advisory, uma consultoria
sediada em Washington e especializada no Oriente Médio, ao jornal South China
Morning Post. No fim da semana passada, a CNN noticiou, com base em informações
da inteligência americana, que a China estaria se preparando para enviar novos
sistemas de defesa aérea ao Irã, citando fontes anônimas. Questionado sobre
essa possibilidade, Trump disse: “Se a China fizer isso, terá grandes problemas”.
A embaixada da China nos EUA classificou a informação como “falsa”.
A primeira reação de Pequim ao bloqueio duplo
de Ormuz nesta segunda-feira foi pedir a todos os envolvidos no conflito com o
Irã a manter a “calma” e “exercer moderação”, horas antes da entrada em vigor
do bloqueio americano aos portos iranianos.
A China está em melhor posição do que a
maioria das economias para absorver um choque energético externo, com reservas
estratégicas e comerciais de petróleo estimadas em 1,3 bilhão de barris, o
suficiente para cobrir quatro meses de importações. O país também possui
reservas de carvão e conta com uma matriz energética com crescente participação
das fontes renováveis. Mas isso não significa que ela esteja confortável com
uma escalada prolongada no Oriente Médio. Os preços mais altos da energia já
estão se refletindo nos dados de inflação, e Pequim também está se esforçando
para proteger o poder de compra das famílias e garantir o fornecimento estável
de combustível para a sua indústria.
O prolongamento da guerra também não interessa à China, pois o conflito pode novamente adiar a visita de Estado de Trump a Pequim, a primeira de um presidente americano em quase 10 anos, e é vista pelos chineses como fundamental para tratar de assuntos de seu interesse, como a guerra tarifária e o status de Taiwan. Mas por enquanto, apesar da provocação de Trump, a China deverá manter a distância da guerra no Oriente Médio, preferindo apoiar a mediação do Paquistão — um aliado de Pequim. Analistas apontam que qualquer pressão chinesa direta sobre o Irã é improvável, pois prejudicaria a imagem da China como parceira do Sul Global e passaria a impressão de alinhamento com Washington.
Donald Trump opera pela instabilidade
Por Correio Braziliense
À medida que a tensão escala e novos atores
entram no conflito, a desordem em curso ganha proporções globais
Donald Trump não tirou o domingo para
descanso. Iniciou o dia prometendo um bloqueio do Estreito de Ormuz, sem regras
claras sobre como se daria a medida. Antes de intervir no trânsito de um dos
principais fluxos marítimos da economia mundial, arrumou tempo para atacar a
maior organização religiosa do mundo, que tem 25% dos estadunidenses entre os
seus adeptos: a Igreja Católica. Entrou na segunda-feira e na sétima semana da
guerra contra o Irã ainda mais verborrágico, deixando claro que senta na
cadeira da Casa Branca alguém disposto a governar a partir da instabilidade
global.
A ofensiva contra os católicos usou um roteiro
conhecido: uso de inteligência artificial (IA) e de acusações não comprovadas,
com recuo calculado. Ainda no domingo, Trump disse a repórteres que não era um
"grande fã" do papa Leão XIV e o acusou de "brincar com um país
que quer uma arma nuclear". Na madrugada de segunda-feira, foi à sua rede
social para detalhar a desaprovação: "Não quero um papa que ache que tudo
bem o Irã ter uma arma nuclear. Não quero um papa que ache terrível que os
Estados Unidos tenham atacado a Venezuela, um país que estava enviando enormes
quantidades de drogas para os Estados Unidos", escreveu em um trecho do
controverso post.
Logo depois, publicou uma imagem feita por IA
em que ele aparece como Jesus abençoando um doente. Diante da reação mundial
aos ataques ao pontífice e à Igreja Católica — vindas até de sua base de apoio
nos Estados Unidos —, apagou a imagem, negou que ela o retratasse como Cristo
(seria um médico da Cruz Vermelha, que tem, inclusive, sua atuação comprometida
pela gestão do republicano), mas não pediu desculpas a Leão XIV.
O papa, por sua vez, respondeu não ter medo
do governo Trump nem de proclamar "em voz alta a mensagem do
Evangelho". "Não somos políticos, não lidamos com assuntos externos
sob a mesma perspectiva que ele pode compreender, mas acredito na mensagem do
Evangelho como promotor da paz." Também afirmou não "querer entrar em
debate" com o presidente estadunidense, reação alinhada à reconhecida
postura de discrição e cuidado com as declarações públicas — o oposto do
compatriota.
Trump tem apreço pela intranquilidade.
Transitou do ataque ao pontífice à guerra com o Irã sem baixar o tom. Ao
bloquear o Estreito de Ormuz ontem, ameaçou adotar o "mesmo sistema de
morte" empregado contra suspeitos de drogas no Caribe contra embarcações
iranianas que tentassem entrar no canal marítimo. Os iranianos, que acusam os
EUA de pirataria, avisaram que nenhum porto do Golfo estará "a salvo"
de represálias.
De efeito imediato, há novo disparo no preço
do petróleo — aumento de quase 6% — e mobilização de potências até então mais
distantes da crise no Oriente Médio. O porta-voz do Ministério das Relações
Exteriores chinês, Guo Jiakun, declarou ontem que Pequim espera que as partes
envolvidas "criem condições para um rápido retorno à paz e à tranquilidade
na região do Golfo". Estima-se que o Irã represente cerca de 10% das
importações de petróleo da China.
À medida que a tensão escala e novos atores entram no conflito — ainda que no campo das declarações e narrativas —, a desordem em curso ganha proporções globais, evidenciando a impotência do sistema multilateral em dar respostas eficazes ao conflito. Trata-se de campo fértil para o caos. E, como tem sido lembrado neste espaço, a História mostra que a falência da cooperação entre os países não tem um desfecho civilizatório.

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