terça-feira, 14 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Carga tributária evidencia erro da política fiscal de Lula

Por Folha de S. Paulo

Novo recorde de arrecadação fracassa em evitar escalada do déficit movida à expansão contínua dos gastos

A carga pode e deve ser mais bem distribuída, com maior peso na renda alta e menor tributação regressiva sobre o consumo

Ao bater mais um recorde em 2025, como recém-divulgado pelo Tesouro Nacional, a carga tributária do país evidencia o erro básico da política fiscal do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No ano passado, União, estados e municípios arrecadaram em impostos, taxas e contribuições R$ 4,127 trilhões, equivalentes a 32,4% do Produto Interno Bruto. Dito de outra maneira, o Estado brasileiro consumiu perto de um terço da renda da população.

Essas cifras seriam ainda maiores se considerassem, como fazem outros trabalhos, encargos como as contribuições para o FGTS e o Sistema S, que somam 1,95% do PIB. De todo modo, os números do Tesouro dão boa ideia de como evolui a carga.

Antes deste governo petista, ela havia sido de 31,2% do PIB em 2022. Já seria digna de nota uma alta de 1,2 ponto percentual em apenas três anos, mas deve-se levar em conta, ainda, que o último ano de Jair Bolsonaro (PL) foi de arrecadação excepcional, graças à escalada dos preços do petróleo com a guerra da Ucrânia.

Na série histórica iniciada em 2010, são mais comuns taxas oscilando em torno de 30% do PIB.

A política de Lula é claramente a principal responsável por esse aumento —nesse período, a receita dos tributos federais subiu de 20,6% para 21,6% do PIB. A despeito do avanço, a aposta de Brasília em mais arrecadação para reequilibrar as contas públicas se mostrou um fracasso previsível.

De 2022 para 2025, o resultado do Tesouro Nacional passou de superávit de 0,55% do produto (sem contar gastos com juros) para déficit de 0,46%. Ainda que a primeira cifra tenha sido favorecida por um calote parcial no pagamento de precatórios, a deterioração é clara. Se incluídas despesas financeiras, há uma disparada do rombo, de 4,45% para 7,59%.

A ofensiva tributária de Lula 3 incluiu medidas corretas, que reduziram privilégios injustificados de grupos influentes, mas também cobranças casuísticas e nefastas, como o aumento do IOF em 2025 —que encareceu o crédito bancário. Tudo somado, o esforço foi inútil diante de uma expansão insustentável dos gastos.

Há limites econômicos e políticos para o aumento dos impostos. No primeiro caso, a carga brasileira já é excessiva para um país de renda média. Como mostra o relatório do Tesouro, a arrecadação média na América Latina fica pouco acima de 21% do PIB; mesmo em países ricos como Estados Unidos e Japão, o indicador não chega aos patamares daqui.

No segundo, os contribuintes naturalmente resistirão a arcar com mais sacrifícios enquanto se veem tantos episódios de desperdício e má gestão no setor público, dos supersalários no Judiciário ao rombo bilionário dos Correios, passando pela farra das emendas parlamentares.

A carga pode e deve ser mais bem distribuída, com maior peso na renda alta e menor tributação regressiva sobre o consumo. Imaginar que será possível elevá-la indefinidamente, porém, é ilusão.

Húngaros escolhem a liberdade

Por Folha de S. Paulo

Derrotado nas eleições, Orbán deixa rastro de deterioração institucional e ataque a direitos fundamentais

Para reaver fundos bloqueados pela UE, o novo premiê precisará agir de forma efetiva para desmontar a estrutura autocrática do antecessor

Em eleições realizadas no domingo (12), os húngaros selaram o fim do único governo autocrático da União Europeia. Com mais de 98% das urnas apuradas, o partido de centro-direita do opositor Péter Magyar, o Tisza, deve obter 138 das 199 cadeiras do Parlamento.

Sem maioria, o primeiro-ministro Viktor Orbán, que já reconheceu a derrota, deixará o cargo, a ser ocupado por Magyar.

A corrosão da democracia húngara se deu por meio da desestabilização das instituições e da centralização do poder no premiê e em seu partido, o Fidesz.

Desde que chegou ao posto em 2010, Orbán promoveu mudanças constitucionais profundas que reduziram freios e contrapesos, limitaram a atuação da corte suprema e ampliaram o controle político sobre órgãos de Estado.

Consolidou um ecossistema midiático pró-governo, a partir da concentração de veículos nas mãos de seus aliados e da pressão sobre os independentes.

Com retórica nacionalista e conservadora, adotou medidas contra imigração e direitos LGBT.

Uma lei aprovada em 2010 reduziu o número de cadeiras do Parlamento e redesenhou os distritos eleitorais, o que contribuiu para a continuidade do governo por 16 anos, sempre com maioria de dois terços no Legislativo.

Na economia, adotou modelo heterodoxo e intervencionista, favorecendo setores escolhidos e expandindo conglomerados ligados ao poder, o que estimulou a corrupção e o clientelismo.

Na política externa, se alinhou a outro autocrata, o russo Vladimir Putin, por meio de acordos no setor energético. Também vetou ou dificultou ajuda financeira à Ucrânia e questionou políticas europeias contra Moscou. Tornou-se um ícone do populismo de direita, elogiado por Donald Trump e Jair Bolsonaro (PL).

Tal postura isolou o país na União Europeia, que se vê sob ameaça do militarismo russo. O bloco deixou de repassar € 19 bilhões à Hungria nos últimos anos, como forma de sanção à deterioração das instituições democráticas e do Estado de Direito.

Não à toa, na primeira entrevista após a confirmação de sua vitória, Magyar deixou claro que o país será um aliado da UE e da Otan. E, para reaver os fundos bloqueados, precisará agir de forma efetiva para desmontar a estrutura autocrática do seu antecessor.

O mundo não acaba com um estrondo, mas com um suspiro, disse o poeta T.S. Eliot. E essa é a lição deixada pela era Orbán. Democracias podem ser corroídas por dentro, lentamente. Num cenário global de ascensão de populismos, trata-se de alerta crucial.

Congresso tem de dar autonomia financeira ao BC

Por O Globo

Desafios como fintechs ou crime organizado exigem investimentos robustos em pessoal e tecnologia

O Congresso deveria pôr logo em pauta a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que dá ao Banco Central (BC) autonomia administrativa, orçamentária e financeira, fortalecendo sua capacidade de fiscalização. Depois de ajustes no texto em meio a resistências do governo, o relatório do senador Plínio Valério (PSDB-AM) deverá ser liberado nesta semana. A expectativa é que seja votado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado na semana que vem. É preciso dar celeridade ao trâmite.

A PEC busca equiparar o arcabouço legal do BC ao dos bancos centrais dos países mais avançados. Embora tenha autonomia para estabelecer a taxa de juros, a autoridade monetária não controla o próprio orçamento. A consequência, num cenário de escassez de recursos, tem sido o esvaziamento, numa autarquia conhecida pela competência dos quadros técnicos. Cada vez mais servidores se aposentam ou vão para a iniciativa privada. “Há dez anos, a fiscalização cuidava de 300 empresas, hoje elas passam de 3 mil”, afirma Valério. “Não há orçamento para isso.” Nos últimos dez anos, o BC perdeu quase um quarto de seu pessoal. Tem hoje 3 mil servidores, ante 23 mil nos Estados Unidos e 13 mil na Índia. “Desde a minha sabatina, venho tratando disso”, afirma Gabriel Galípolo, presidente do BC. “Pedi apoio de início, pedi ajuda e agora peço socorro.”

No Brasil um servidor acompanha até 30 instituições diferentes. De acordo com Galípolo, o uso de inteligência artificial permite aumentar a capacidade de supervisão, mas exige investimento em tecnologia própria. “São trilhões de reais em operações por dia no sistema financeiro”, diz ele. “Identificar fraudes apenas com análise manual é praticamente impossível.”

Há ainda confusão na gestão. O transporte de valores é feito em caminhões de 1982. Como o BC está submetido a dois orçamentos (monetário e fiscal), se um veículo quebra, a manutenção é paga por um, a compra de um novo pelo outro. A estrutura defasada se reflete no trabalho, num momento em que a autarquia se vê às voltas com a proliferação de fintechs, a infiltração do crime organizado no mercado formal e desafios como os expostos pelo escândalo do Banco Master. O objetivo principal da PEC, diz Valério, é dotar o BC de um orçamento próprio. Seria perfeitamente possível ao BC se financiar com os recursos que ele próprio gera, mas são apropriados pela União.

O caso Master demonstrou a importância de um BC independente e preparado. A autoridade monetária fez o que precisava fazer. Barrou a compra do Master pelo BRB depois de detectar inconsistências na operação, liquidou o banco de Daniel Vorcaro, promoveu auditoria interna, afastou dois funcionários suspeitos de corrupção e entregou o caso à Polícia Federal. Mas nem tudo pode ser detectado ou combatido a tempo sem os recursos necessários.

A sucessão de entraves enfrentada no Senado pela PEC sugere que o problema é menos técnico que político. O governo tem se mostrado contra a proposta e usado todo pretexto para miná-la. Ora, não é razoável que a autonomia financeira do BC fique refém das idiossincrasias do Planalto. Trata-se de questão estritamente administrativa. A instituição precisa ter funcionários, equipamentos e tecnologia à altura dos semelhantes mundo afora. Com um BC esvaziado, a fiscalização deixará a desejar. O caso Master mostra que não se pode baixar a guarda.

Derrota de Orbán é antes de tudo uma vitória da democracia

Por O Globo

Desafio do novo primeiro-ministro Péter Magyar é desfazer sequestro do Estado promovido pelo antecessor

A vitória avassaladora do conservador Péter Magyar sobre Victor Orbán nas eleições parlamentares de domingo extrapolou as fronteiras da Hungria. No poder há 16 anos, Orbán é ícone da ultradireita global. Presente na posse de Jair Bolsonaro em 2019, era apoiado tanto por Vladimir Putin quanto por Donald Trump. É visto entre os cientistas políticos como o exemplo mais acabado do autocrata do século XXI, aquele que chega ao poder pela via democrática e, uma vez instalado, muda regras para preservar o controle das instituições com a intenção de se manter no poder. Sua derrota é, antes de tudo, uma vitória da democracia.

O partido de Magyar, o Tisza,conquistou 138 das 199 cadeiras do Parlamento, cinco além dos dois terços necessários para promover mudanças na Constituição. Seu desafio será desfazer o sequestro do Estado promovido por seu antecessor. Orbán não escondia seu desprezo pela democracia liberal. Defendia uma variante que chamava de “democracia iliberal”, em que vale o voto popular, mas não as instituições que garantem as liberdades e direitos civis. “O sistema de freios e contrapesos é uma invenção dos Estados Unidos que, por alguma razão de mediocridade intelectual, a Europa decidiu adotar”, disse.

Orbán ampliou as cadeiras da Corte constitucional e mudou as regras de aprovação dos novos integrantes. Reduziu a idade de aposentadoria compulsória de juízes e criou uma instância com poderes de demitir qualquer magistrado, para encher as Cortes com seus acólitos. Da Procuradoria-Geral ao instituto de estatísticas oficiais, o Estado foi tomado por eles. “Em vez de atuarem como mecanismos de controle sobre o Executivo, as instituições tornaram-se facilitadoras e, por vezes, instrumentos usados para penalizar organizações não governamentais e partidos de oposição”, diz estudo do Cato Institute. Regras eleitorais foram alteradas para beneficiar seu partido, o Fidesz, e a imprensa profissional virou alvo de ataques. Ele esvaziou o poder de universidades e conselhos de ciência.

A tomada do Estado teve reflexos negativos na economia. Nos últimos três anos, o PIB mal cresceu. De 2022 para cá, a Hungria acumulou a maior inflação da União Europeia (UE). Para completar, casos de corrupção e enriquecimento meteórico revoltaram a opinião pública. Tal situação levou a participação recorde domingo e pavimentou a vitória de Magyar, cujo perfil tem sido comparado ao da italiana Giorgia Meloni. Orbán teve a virtude de reconhecer a derrota, ao contrário do que têm feito outros candidatos a autocrata.

Mesmo com as ameaças flagrantes à democracia e o apoio velado de Orbán à Rússia de Putin, a UE demorou a tomar providências contra a Hungria, mas aos poucos começou a segurar verbas. Há € 35 bilhões bloqueados. Para resgatar a credibilidade do país junto aos sócios europeus e projetar uma imagem de transformação no mundo, Magyar precisa não apenas desaparelhar o Estado, mas promover as mudanças constitucionais que restabeleçam as bases da democracia liberal.

Grande vitória da democracia liberal

Por O Estado de S. Paulo

Decano da nova extrema direita mundial, Orbán é derrotado inapelavelmente nas urnas, mostrando que regimes iliberais podem ser batidos pelo mais singelo instrumento da democracia: o voto

A queda de Viktor Orbán encerra um dos ciclos políticos mais duradouros da Europa contemporânea. Após 16 anos no poder, o premiê húngaro foi derrotado de forma inequívoca por Péter Magyar, cuja coalizão alcançou maioria suficiente para reverter parte do arranjo institucional herdado. A participação elevada e a margem ampla do resultado dão à eleição um peso que vai além da alternância rotineira. Pequena em escala, a Hungria está no centro do debate europeu e mundial.

O que foi submetido ao voto não foi apenas um governo, mas um modelo. Ao longo de mais de uma década, Orbán combinou nacionalismo, reacionarismo cultural, intervenção econômica e controle progressivo das instituições. Reescreveu regras, ampliou sua influência sobre o Judiciário, reorganizou o sistema de mídia e cultivou uma rede de clientes beneficiados por contratos públicos. No plano externo, aproximou-se do autocrata russo Vladimir Putin e esgarçou sua relação com a União Europeia, da qual continuou a depender financeiramente.

Esse arranjo produziu resultados que, por um período, sustentaram sua popularidade. Mas os limites se tornaram visíveis. A economia perdeu dinamismo, a inflação corroeu a renda e o padrão de vida ficou para trás em relação a países vizinhos. Ao mesmo tempo, ante o enriquecimento de figuras próximas ao poder e o consequente bloqueio de recursos europeus, a percepção difusa de corrupção tornou-se concreta. As urnas, como deve ser, julgaram a política não por suas promessas, mas por seus efeitos.

Há uma tentação, sobretudo fora da Hungria, de tratar esse desfecho como a queda de um vilão e a restauração automática de um ideal – uma leitura em grande parte alimentada por narrativas simplistas e fatalistas sobre “a morte da democracia”. Orbán foi derrotado nas urnas e reconheceu o resultado. O que decidiu a eleição não foi uma conversão ideológica súbita – o triunfo de alguma “frente ampla democrática” progressista sobre a “extrema direita” –, mas o desgaste acumulado de um governo que deixou de entregar o que prometia. Seu principal adversário emergiu do próprio campo conservador que agora promete reformar.

A lição mais relevante está justamente aí. Mesmo com regras manipuladas a favor do regime, o sistema preservou um elemento de incerteza suficiente para permitir a alternância. A oposição não venceu apesar das instituições, mas dentro delas, explorando suas brechas e se adaptando ao terreno. Organizou-se, unificou candidaturas e transformou insatisfação difusa em maioria eleitoral. A experiência húngara sugere que estruturas capturadas podem retardar mudanças, mas não necessariamente bloqueá-las quando o custo político se torna evidente.

As consequências repercutem muito além das fronteiras do país. Orbán era o principal elo europeu da rede política liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump – que se empenhou pessoalmente na campanha, pois via nele o peão com o qual pretendia enfraquecer a Europa. A derrota de Orbán é, nesse sentido, um golpe duro contra o trumpismo e, por extensão, contra Putin, que contava com a Hungria para estimular a paralisia da Europa na guerra na Ucrânia.

Nada disso resolve automaticamente os problemas húngaros. O novo governo herdará instituições desfiguradas ao longo de anos e enfrentará resistências reais. Ainda assim, o essencial já ocorreu. Um projeto que concentrou poder, distorceu incentivos e perdeu aderência foi removido por meio do voto.

Em diferentes graus, experiências recentes na Europa apontam na mesma direção: na Polônia, a alternância ocorreu apesar de anos de tensão institucional; na Itália, o exercício do poder moderou impulsos iniciais da coalizão de direita de Giorgia Meloni; na Grécia, o confronto com a realidade econômica reverteu um experimento populista de esquerda. Não há linearidade nem garantias. Mas tampouco há fatalismo.

Num momento em que se multiplicam propostas de atalhos institucionais – também no Brasil –, a lição merece atenção. A política pode ser lenta, imperfeita e frustrante. Mas, numa democracia, continua sendo capaz de corrigir seus próprios desvios quando não abdica de suas regras.

Entre o PIB e o boleto vencido

Por O Estado de S. Paulo

Pesquisa mostra o peso do endividamento sobre o humor do eleitorado em relação a Lula, expondo o descompasso entre a propaganda do governo e a realidade das famílias brasileiras

Uma recente pesquisa Meio/Ideia ofereceu ao Palácio do Planalto um retrato bem menos confortável do que a propaganda oficial lulopetista gostaria de admitir. No cenário estimulado de primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 40,4% das intenções de voto, ante 37% de Flávio Bolsonaro, diferença que configura empate técnico, dentro da margem de erro. Mas o dado politicamente mais eloquente está em outro lugar, que explica em grande medida a estagnação presidencial nas intenções de voto e a perda de musculatura de seu governo: a avaliação dos brasileiros sobre a economia do Brasil sob Lula e o PT.

A pesquisa revela um país em que a percepção econômica é perturbadoramente negativa. Quando perguntados sobre o custo de vida, 30% dizem que ele “aumentou muito” e 40,4% que “aumentou, mas não muito”. Ou seja, cerca de sete em cada dez brasileiros percebem piora, apesar do discurso triunfalista dos morubixabas petistas sobre as conquistas econômicas do atual mandato. No endividamento, o quadro é igualmente adverso: 40% afirmam que as dívidas estão maiores do que em 2025, enquanto apenas 13% dizem que diminuíram. Não por acaso, o próprio levantamento destaca o peso decisivo desses fatores na definição do voto.

Não é preciso muito esforço para compreender o efeito político dessa percepção. Donde se constata algo sério, conforme a análise do fundador do instituto responsável pela pesquisa, Maurício Moura: a sucessão de Lula não será decidida na variação oficial do PIB (tampouco, acrescentemos, nas apresentações em PowerPoint de ministros empenhados em provar que a economia vai bem). Será decidida, isto sim, nas mesas de cozinha, nas compras parceladas, nas faturas acumuladas e na sensação de que a renda acaba antes do mês.

Eis o ponto em que o lulopetismo volta a exibir seu defeito de fabricação: a crença de que a narrativa pode revogar a realidade. O governo insiste em celebrar índices agregados, como se o cidadão organizasse a vida por séries estatísticas, e não pelo próprio bolso. Pode haver crescimento formal, melhora pontual de indicadores ou números tecnicamente respeitáveis, como os índices relacionados ao crescimento da renda e à redução do desemprego. Nada disso, contudo, altera o fato de que, para milhões de brasileiros, a economia real é a do supermercado, do cartão de crédito e do aluguel. E essa economia desmente, todos os dias, o otimismo oficial. Quando o custo de vida sobe e o endividamento aperta, o eleitor não quer explicação. Quer alívio. E, se não o encontra, pune.

Os padrões recentes do endividamento ajudam a explicar por que o governo está vulnerável. Dados da CNC mostram que cerca de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, nível recorde. Quase 30% têm contas em atraso e mais de 12% não conseguem pagar o que devem. Entre os mais pobres, o endividamento supera 80%, e, em média, quase um terço da renda mensal já está comprometida com dívidas.

Diante disso, o governo reage como de costume. Procura culpados longe de si e fabrica soluções de curto prazo. Ora são fatores externos, ora são bancos, bets ou “bilionários”. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as tentativas de empurrar o problema adiante: crédito consignado ampliado, programas de renegociação, promessas de alívio imediato. Quando a realidade aperta, o lulopetismo improvisa um paliativo e adia o enfrentamento estrutural.

Esse é seu vício ideológico. O PT segue tratando sintomas como solução, apostando mais em expedientes táticos do que em reformas duradouras. Em vez de enfrentar o custo do crédito, a desordem fiscal e a baixa produtividade, opta por atalhos que produzem algum efeito momentâneo e nenhum resultado consistente. É a política econômica da anestesia. E anestesia, como se sabe, não cura, só adia a dor.

Por essa razão, a pesquisa tem um significado que vai além da fotografia eleitoral. Ela mostra que Lula segue competitivo, mas já não consegue converter a vantagem do cargo em sensação de bem-estar. Enquanto o governo fala do PIB, o eleitor olha o rotativo do cartão de crédito. E, assim, Lula prossegue habitando sua ficção estatística. E ficções, na política, costumam ruir quando encontram a dura realidade do próximo boleto vencido.

O saneamento além da Sabesp

Por O Estado de S. Paulo

Governo paulista quer lançar novas concessões, única maneira de acelerar a universalização

Consolidada a privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o governo Tarcísio de Freitas passou, acertadamente, a dar mais atenção aos municípios paulistas que não são atendidos pela empresa. A grandiosidade da Sabesp pode até enganar: mas a companhia, por maior que seja, não é onipresente. Hoje, atende a 371 das 645 cidades do Estado, o que indica que há um enorme mercado ainda a ser explorado.

São nada menos do que 274 municípios fora da área de atuação da Sabesp e que agora estão no foco da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. O plano da pasta comandada por Natália Resende é lançar em breve uma consulta pública para a concessão do saneamento básico de um bloco formado por 149 cidades, que poderá ser subdividido em até quatro contratos.

Assim como fez no processo de desestatização da Sabesp, os gestores paulistas vão colocar a pasta com o projeto debaixo do braço e percorrer o mundo, em roadshows, para anunciar a iniciativa e atrair investidores estrangeiros. E os investidores nacionais – o que inclui a Sabesp – também já terão a chance de analisar a proposta por aqui.

Não há dúvidas de que esses municípios se tornarão economicamente ainda mais atrativos: há demanda, haverá oferta e, com as cidades agrupadas, haverá mais otimização e sinergia de investimentos e também de custos.

E o capital privado será fundamental para garantir que um serviço tão essencial chegue às casas dos paulistas. Isso porque o Marco Legal do Saneamento Básico, aprovado em 2020, impôs metas muito ambiciosas para o setor no curto prazo. Segundo a lei, até 2033, 99% da população deverá ser atendida com água potável e 90% ter o esgoto coletado e tratado.

Pode parecer que tudo vai bem em São Paulo, mas não vai. Segundo estimativas do governo estadual, se as cidades paulistas mantiverem o atual ritmo de investimento em saneamento básico, o patamar de cobertura exigido pelo Marco Legal do Saneamento Básico somente será atingido daqui a 30 anos.

Isso atesta a incapacidade da administração pública de gerir grandes negócios e realizar investimentos. A burocracia e a morosidade do setor público em nada vão ajudar os municípios paulistas a alcançar tais metas – ao contrário, só vão atrapalhar.

A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, não à toa, aposta no programa Universaliza SP. E seus números impressionam: são previstos R$ 24 bilhões de investimentos logo nos primeiros anos de concessão, a fim de assegurar a universalização do fornecimento de água e da coleta e do tratamento de esgoto. Ao todo, serão R$ 51 bilhões de investimentos até 2060.

O volume de recursos necessários para levar o saneamento básico aos paulistas é vultoso. Não dá para esperar pela boa vontade política dos governantes de turno, que, não raro, não veem potencial de voto nessas obras, que são caras e ficam escondidas debaixo da terra. Mas o Estado de São Paulo tem pressa: enfrentar tamanho problema exige eficiência, agilidade e competência, algo que a iniciativa privada pode oferecer.

Trump mira a China com bloqueio duplo de Ormuz

Por Valor Econômico

A China está em melhor posição do que a maioria das economias para absorver um choque energético externo, mas isso não significa que ela esteja confortável com uma escalada prolongada no Oriente Médio

A nova estratégia de Trump para pressionar o Irã, bloquear efetivamente o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz, arrisca reacender a tensão entre as duas maiores economias do mundo, os EUA e a China — cuja guerra comercial está sob uma trégua temporária desde outubro do ano passado. Um dos objetivos de Trump com o bloqueio da via pela Marinha americana seria forçar Pequim — que tem comprado 90% das exportações iranianas de petróleo desde o início da guerra — a pressionar o seu aliado Teerã a ser mais flexível nas negociações com Washington. Isso também poderia ser uma tática de negociação para Trump chegar à reunião de cúpula com Xi Jinping, daqui a um mês, em Pequim, tendo o controle sobre algo de que a China precisa, e que serviria de moeda de troca por um alívio nos controles das exportações chinesas sobre terras raras ou termos comerciais mais favoráveis aos americanos. Mas a mais recente estratégia de Trump pode ser interpretada por Pequim como um ato de coerção, o que reduziria o espaço para a diplomacia e poderia reacender a disputa comercial.

A navegação no Estreito de Ormuz parou novamente nesta segunda-feira, após o anúncio de Trump, levando os preços do petróleo a voltarem a subir para mais de US$ 100 por barril e pressionando as bolsas da Ásia e da Europa para baixo. Em Wall Street, os principais índices de ações reverteram as perdas iniciais na expectativa de um acordo entre EUA e Irã, depois que Trump disse que seu governo recebeu uma ligação do lado iraniano. É a aposta no Taco — o acrônimo para dizer que Trump sempre desiste de suas ameaças.

Para governos de todo o mundo — em especial da Ásia —, a esperança de que o cessar-fogo liberasse o fluxo de energia e outros produtos essenciais pelo Estreito de Ormuz se transformou uma surpresa desagradável no domingo. Se antes havia a possibilidade de obter um salvo-conduto mediante o pagamento de um pedágio ao Irã, agora a passagem pela via foi fechada pelos EUA para obter uma alavancagem sobre o Irã e a China.

O bloqueio duplo de Ormuz arrisca levar a uma paralisação completa no estreito, com risco de afetar as cadeias de suprimentos da China, a segurança energética e o comércio com as nações do Golfo Pérsico, que são um mercado importante para as exportações chinesas.

Dados alfandegários da China mostram que os países do Golfo forneceram 42% das importações chinesas de petróleo no ano passado, enquanto cerca de 12% das importações chinesas de petróleo vieram do Irã, segundo a empresa de análise Kpler. Além disso, a China obtém um terço de seu gás natural liquefeito (GNL) do Oriente Médio, com o Catar fornecendo até 28%.

Para além do impacto econômico, o bloqueio duplo força Pequim a um dilema político que vinha tentando evitar desde o início da guerra. “Quanto mais tempo o bloqueio durar, mais difícil será para a China manter sua postura de ambiguidade estratégica entre Washington e Teerã”, afirmou Jesse Marks, fundador da Rihla Research and Advisory, uma consultoria sediada em Washington e especializada no Oriente Médio, ao jornal South China Morning Post. No fim da semana passada, a CNN noticiou, com base em informações da inteligência americana, que a China estaria se preparando para enviar novos sistemas de defesa aérea ao Irã, citando fontes anônimas. Questionado sobre essa possibilidade, Trump disse: “Se a China fizer isso, terá grandes problemas”. A embaixada da China nos EUA classificou a informação como “falsa”.

A primeira reação de Pequim ao bloqueio duplo de Ormuz nesta segunda-feira foi pedir a todos os envolvidos no conflito com o Irã a manter a “calma” e “exercer moderação”, horas antes da entrada em vigor do bloqueio americano aos portos iranianos.

A China está em melhor posição do que a maioria das economias para absorver um choque energético externo, com reservas estratégicas e comerciais de petróleo estimadas em 1,3 bilhão de barris, o suficiente para cobrir quatro meses de importações. O país também possui reservas de carvão e conta com uma matriz energética com crescente participação das fontes renováveis. Mas isso não significa que ela esteja confortável com uma escalada prolongada no Oriente Médio. Os preços mais altos da energia já estão se refletindo nos dados de inflação, e Pequim também está se esforçando para proteger o poder de compra das famílias e garantir o fornecimento estável de combustível para a sua indústria.

O prolongamento da guerra também não interessa à China, pois o conflito pode novamente adiar a visita de Estado de Trump a Pequim, a primeira de um presidente americano em quase 10 anos, e é vista pelos chineses como fundamental para tratar de assuntos de seu interesse, como a guerra tarifária e o status de Taiwan. Mas por enquanto, apesar da provocação de Trump, a China deverá manter a distância da guerra no Oriente Médio, preferindo apoiar a mediação do Paquistão — um aliado de Pequim. Analistas apontam que qualquer pressão chinesa direta sobre o Irã é improvável, pois prejudicaria a imagem da China como parceira do Sul Global e passaria a impressão de alinhamento com Washington.

Donald Trump opera pela instabilidade

Por Correio Braziliense

À medida que a tensão escala e novos atores entram no conflito, a desordem em curso ganha proporções globais

Donald Trump não tirou o domingo para descanso. Iniciou o dia prometendo um bloqueio do Estreito de Ormuz, sem regras claras sobre como se daria a medida. Antes de intervir no trânsito de um dos principais fluxos marítimos da economia mundial, arrumou tempo para atacar a maior organização religiosa do mundo, que tem 25% dos estadunidenses entre os seus adeptos: a Igreja Católica. Entrou na segunda-feira e na sétima semana da guerra contra o Irã ainda mais verborrágico, deixando  claro que senta na cadeira da Casa Branca alguém disposto a governar a partir da instabilidade global.

A ofensiva contra os católicos usou um roteiro conhecido: uso de inteligência artificial (IA) e de acusações não comprovadas, com recuo calculado. Ainda no domingo, Trump disse a repórteres que não era um "grande fã" do papa Leão XIV e o acusou de "brincar com um país que quer uma arma nuclear". Na madrugada de segunda-feira, foi à sua rede social para detalhar a desaprovação: "Não quero um papa que ache que tudo bem o Irã ter uma arma nuclear. Não quero um papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela, um país que estava enviando enormes quantidades de drogas para os Estados Unidos", escreveu em um trecho do controverso post.

Logo depois, publicou uma imagem feita por IA em que ele aparece como Jesus abençoando um doente. Diante da reação mundial aos ataques ao pontífice e à Igreja Católica — vindas até de sua base de apoio nos Estados Unidos —, apagou a imagem, negou que ela o retratasse como Cristo (seria um médico da Cruz Vermelha, que tem, inclusive, sua atuação comprometida pela gestão do republicano), mas não pediu desculpas a Leão XIV. 

O papa, por sua vez, respondeu não ter medo do governo Trump nem de proclamar "em voz alta a mensagem do Evangelho". "Não somos políticos, não lidamos com assuntos externos sob a mesma perspectiva que ele pode compreender, mas acredito na mensagem do Evangelho como promotor da paz." Também afirmou não "querer entrar em debate" com o presidente estadunidense, reação alinhada à reconhecida postura de discrição e cuidado com as declarações públicas — o oposto do compatriota.

Trump tem apreço pela intranquilidade. Transitou do ataque ao pontífice à guerra com o Irã sem baixar o tom. Ao bloquear o Estreito de Ormuz ontem, ameaçou adotar o "mesmo sistema de morte" empregado contra suspeitos de drogas no Caribe contra embarcações iranianas que tentassem entrar no canal marítimo. Os iranianos, que acusam os EUA de pirataria, avisaram que nenhum porto do Golfo estará "a salvo" de represálias. 

De efeito imediato, há novo disparo no preço do petróleo — aumento de quase 6% — e mobilização de potências até então mais distantes da crise no Oriente Médio. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, declarou ontem que Pequim espera que as partes envolvidas "criem condições para um rápido retorno à paz e à tranquilidade na região do Golfo". Estima-se que o Irã represente cerca de 10% das importações de petróleo da China.

À medida que a tensão escala e novos atores entram no conflito — ainda que no campo das declarações e narrativas —, a desordem em curso ganha proporções globais, evidenciando a impotência do sistema multilateral em dar respostas eficazes ao conflito. Trata-se de campo fértil para o caos. E, como tem sido lembrado neste espaço, a História mostra que a falência da cooperação entre os países não tem um desfecho civilizatório. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.