Antagonizar Trump convém a Lula
Por Folha de S. Paulo
Petista, que já se beneficiou da oposição ao
tarifaço, agora se vale da rejeição ampla à guerra no Irã
Segundo o Datafolha, 70% são contrários ao
conflito; Flávio Bolsonaro terá dificuldade em se dissociar das trapalhadas do
americano
O antiamericanismo, amparado em momentos da
história nos quais Washington exerceu sua vocação colonialista na América
Latina, tornou-se há muito muleta retórica da esquerda brasileira.
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
sempre manipulou tal sentimento com um misto de cinismo e pragmatismo. Enquanto
o mundo rejeitava as guerras de George W. Bush, o petista fez do republicano um
aliado próximo.
Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o conflito era esperado, já que seu direitismo populista sempre foi farol de Jair Bolsonaro (PL) e seguidores.
A iminência da condenação do ex-presidente em
2025 motivou uma operação do seu clã que logrou sucesso inicial em fazer Trump
dirigir as baterias de sua guerra tarifária para o Brasil, além de punir
adversários como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Lula aproveitou a oportunidade para colar nos
rivais a pecha de traidores —e viu sua avaliação melhorar. Obteve ainda uma
aproximação com Trump que deu resultados, livrando Moraes da temida Lei
Magnitsky e reduzindo o escopo do tarifaço.
Mas, desde março, com a campanha pela
reeleição na rua, o discurso mudou. Lula acumula pronunciamentos
e entrevistas em que critica Trump, além de incidentes como a
negativa ao visto de um emissário da Casa Branca que visitaria Bolsonaro na
prisão, ingerência indevida.
Nesta semana, um delegado brasileiro foi
expulso dos EUA, o que levou a retaliação correspondente. Washington
ainda sinalizou
medidas para compensar danos pouco claros a empresas americanas
devido ao Pix.
Ironicamente, o meio de pagamento instantâneo
foi lançado sob Bolsonaro, mas isso importa pouco. Lula não perdeu a chance de
prometer que estrangeiro nenhum mexerá no instrumento. Ademais, não passa
semana sem criticar a captura do antigo aliado venezuelano Nicolás
Maduro e a guerra contra o Irã.
O petista se baseia em números: segundo
o Datafolha, 70% dos
eleitores são contrários ao conflito, 92% acham que ele eleva o
preço dos alimentos, e 75%, que afetará a eleição. Os índices são menores entre
os bolsonaristas, como seria esperado, mas igualmente altos entre eleitores
neutros a serem conquistados.
Há algum risco na estratégia de Lula —apesar
de focado no Irã, o instável líder americano pode achar que é hora de punir o
Brasil; embora a Justiça dos EUA tenha travado seus canhões tarifários, há
outras sanções possíveis, e desta vez não será possível jogar a culpa nos
adversários. É incerto, ademais, se haverá ganho direto de popularidade desta
vez.
De todo modo, há lógica em demarcar a
diferença em relação ao principal adversário, Flávio
Bolsonaro (PL), frequentador de eventos trumpistas. O senador
fluminense, que faz tentativa inglória de se apresentar como moderado,
dificilmente se dissociará das trapalhadas do americano.
Dólar mais barato
Por Folha de S. Paulo
Câmbio se beneficia da guerra no Irã, o que
pode atenuar impacto inflacionário da alta do petróleo
Fraqueza da divisa americana teve início em
2025, com o tarifaço de Trump; ganhos mais duradouros viriam com ajuste das
contas públicas
A trajetória recente de valorização do real
ante o dólar tem
sido notável. Após cair cerca de 12% no ano passado, a moeda
americana aprofundou sua queda nos últimos dias, e a cotação tem
ficado próxima dos R$ 5 ou menos —algo que à primeira vista surpreende diante
de nossas fragilidades econômicas.
Pouco desse fenômeno pode ser creditado a
fatores domésticos, contudo. A maior parte deriva do próprio enfraquecimento do
dólar no contexto global.
A fragilidade da divisa teve início em 2025,
com a política tarifária agressiva da administração Donald Trump somada
a confrontos com aliados tradicionais, o que reforçou nos demais países a
necessidade de maior autonomia em defesa, tecnologia e
cadeias de suprimentos.
Esse ambiente abriu novas oportunidades de
investimento além dos Estados
Unidos, que haviam dominado os fluxos de capitais internacionais na
década precedente (2015-2024).
Nesse período anterior, o peso do mercado
acionário dos EUA nos índices globais elevou-se de cerca de 55% para quase 70%.
A reversão desse movimento pode continuar
enquanto outras regiões se tornam mais atrativas, inclusive a América Latina,
que se destaca na produção de matérias-primas agrícolas e minerais.
O Brasil colhe benefícios desde o início da
guerra no Oriente Médio,
que interrompeu fluxos de petróleo e
gás. O país tem a vantagem da distância geográfica do conflito e de ser
fornecedor de baixo custo de diversos produtos primários.
A posição de exportador líquido de petróleo
deve ampliar os superávits comerciais. Ademais, o enorme
diferencial de juros atrai aplicações externas. Tais elementos até
aqui suplantaram os problemas locais.
As incertezas orçamentárias persistem com a
escalada da dívida pública, e o calendário eleitoral adiciona
volatilidade política. Todavia, diante da busca por maior diversificação por
parte de investidores internacionais, qualquer sinal de melhora fiscal à frente
pode reforçar a tendência de valorização do real.
Tal movimento contribuiria para amortecer as
pressões inflacionárias importadas —em combustíveis, fertilizantes e,
indiretamente, alimentos— e facilitar o trabalho do Banco Central.
A despeito de suas mazelas, o Brasil encontra-se bem posicionado no tabuleiro internacional. Aproveitar esse potencial favorável dependerá de ajustes que eliminem o risco de descontrole das contas públicas. Sem eles, o vento externo favorável pode mais uma vez revelar-se efêmero.
Ação contra Google no Cade é essencial para
disciplinar IA
Por O Globo
Plataforma digital será processada por usar
conteúdo de terceiros sem autorização para treinar modelos
É um alento que o Conselho Administrativo de
Defesa Econômica (Cade),
organismo que zela pela livre concorrência no Brasil, tenha decidido por
unanimidade abrir processo contra o Google pelo
uso abusivo de conteúdo de terceiros para alimentar seus modelos de inteligência
artificial (IA).
Depois de várias reviravoltas num processo
que tramita desde 2019 — quando a IA nem sequer estava disponível —, a decisão
unânime reflete o amadurecimento das autoridades brasileiras sobre um tema
crucial para a economia do século XXI. “O Cade demonstra que está na linha de
frente de uma preocupação que não se limita à mera questão econômica”, afirma
Marcelo Rech, presidente executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), uma
das partes no processo original. “O tema de fundo é a sustentabilidade da
informação de qualidade, do jornalismo que atende, sem substitutos, comunidades
locais e a pluralidade de visões, fundamental em sociedades democráticas.”
A ação original apurava a denúncia de que o
mecanismo de buscas Google varre o noticiário e recolhe o conteúdo de milhares
de páginas na internet por meio de procedimentos conhecidos como “raspagem”
(scraping). A publicação desse material sem identificação desvia leitores dos
veículos de imprensa. Com menos acesso, os sites jornalísticos vendem menos
anúncios. No processo, a ANJ atesta que houve queda de audiência em sites
noticiosos devido à prática do Google — uma espécie de parasitismo, já que a
própria plataforma vende anúncios e fatura à custa do trabalho alheio.
Com o advento da IA, o problema se agravou,
pois os conteúdos jornalísticos passaram a ser usados para treinar os modelos
sem que seus autores tivessem sequer sido consultados, quanto mais remunerados.
Trata-se de violação clara da legislação que protege direitos autorais. A
rapina do conteúdo por sistemas de IA é tão flagrante que um dos conselheiros
refletiu melhor e mudou seu voto, antes desfavorável à abertura do processo
contra o Google.
A ação no Brasil deverá seguir o mesmo
caminho de congêneres que tramitam em mercados robustos, como União Europeia,
Austrália ou Estados Unidos. A primeira onda de reclamações contra o
desrespeito aos direitos autorais por sistemas de IA aconteceu em 2023, quando
a Getty Images, uma das maiores agências fotográficas do mundo, processou a
Stability AI por “raspar” 12 milhões de imagens sem autorização. A disputa
judicial continua e se desdobrou em processo semelhante no Reino Unido. Naquele
ano, o jornal The New York Times foi aos tribunais americanos acusar Microsoft
e Open AI, responsável pelo ChatGPT, de treinar modelos com os arquivos do
jornal sem autorização. A Anthropic, exaltada recentemente por proibir o
Pentágono de usar IA para vigilância ou armas autônomas, enfrenta processo
similar. O juiz já avisou que poderá ser punida por manter livros pirateados. A
indenização exigida alcança US$ 1,5 bilhão.
No Brasil, o importante é o Cade e outras
instâncias jurídicas punirem Google e demais empresas que desrespeitam direitos
autorais, estabelecendo regras que permitam a sustentabilidade dos negócios de
produção de conteúdo, em especial o jornalismo profissional, vital para a saúde
de qualquer democracia.
Lei que regulamenta comércio de ouro traz
avanço para coibir garimpo ilegal
Por O Globo
Proposta aprovada na Câmara estabelece regras
rigorosas para controle de origem, transporte e venda
A Câmara
dos Deputados aprovou Projeto de Lei com o objetivo de fechar o cerco
ao comércio ilegal de ouro no Brasil. O texto atende a determinação do Supremo
Tribunal Federal (STF)
e estabelece regras mais rigorosas para controle de origem, transporte, compra
e venda, visando a aumentar a fiscalização. O PL ainda será analisado pelo
Senado. Trata-se de iniciativa fundamental diante dos danos do garimpo ilegal.
Um dos aspectos importantes é a extinção da
presunção de boa-fé na venda de ouro. A distorção durante anos favoreceu a
ilegalidade e estimulou a exploração clandestina. Pela legislação em vigor
desde 2013, distribuidoras de títulos e valores mobiliários podiam comprar o
metal com base apenas na declaração do vendedor, sem necessidade de comprovar
origem. No ano passado, o STF decidiu por unanimidade que esse trecho da lei
era inconstitucional e determinou que fossem tomadas medidas administrativas,
regulatórias e legislativas para coibir a extração em terras indígenas e áreas
de proteção ambiental.
O projeto torna obrigatória a comprovação de
origem em toda a cadeia de comercialização, exige emissão de nota fiscal
eletrônica, impõe regras de transporte com guia específica e constitui um
sistema nacional de rastreabilidade, com marcação física do ouro e registro de
todas as operações. Estabelece ainda que o metal extraído de garimpos só poderá
ser vendido inicialmente a instituições credenciadas pelo Banco Central, que
terão de verificar origem e informar suspeitas de fraude.
Alguns pontos do projeto já estão em vigor
por decisões do STF ou da Receita Federal. Mas é importante que o país tenha
uma legislação rigorosa e abrangente para disciplinar o comércio do ouro. Hoje
impera o descontrole no setor. Um levantamento do Instituto Escolhas mostrou
que 52,8 toneladas do metal vendidas em 2021 no Brasil (54% da produção
nacional) tinham indícios de irregularidade.
Outros pontos controversos ainda precisam ser
discutidos. O principal diz respeito ao rastreamento. A proposta, relatada pelo
deputado Marx Beltrão (PP-AL), atribui exclusividade à Casa da Moeda para
marcação física, rastreio do metal e impressão de selo de autenticidade. O
trecho não fazia parte da proposta enviada pelo Executivo e foi criticado por
ambientalistas. ONGs afirmam que a Casa da Moeda não tem o conhecimento técnico
necessário e que a atribuição deveria ficar com a Agência Nacional de
Mineração. Os senadores terão de analisar se é o caso de manter a
exclusividade.
As normas ganham importância devido aos danos do garimpo ilegal. Garimpeiros ainda permanecem na região dos ianomâmis, a despeito de ações da Polícia Federal e do Ibama. Eles destroem grandes áreas de floresta, contaminam rios, levam doenças e violência às populações indígenas. Permitir que o ouro clandestino chegue ao mercado formal é compactuar com o descalabro e o crime. Não se sabe se a mudança na legislação será suficiente para resolver o problema, mas ela é necessária. Não dá para continuar como está.
A natureza do inquérito das fake News
Por O Estado de S. Paulo
O decano do STF diz que inquérito ‘vai acabar
quando terminar’ e que deve avançar pelas eleições. Ao fazê-lo, deixa claro que
a intenção é inibir a crítica legítima contra ministros
É de justiça louvar o ministro Gilmar Mendes
por sua franqueza. Em entrevista ao Jornal
da Globo, no dia 22 passado, ele defendeu, em português impecável,
que o inquérito das fake news permaneça aberto “pelo menos até as eleições”.
Assim, o decano do Supremo Tribunal Federal (STF) dissipou qualquer dúvida que
ainda pudesse haver sobre a natureza de uma investigação que, há muito, deixou
de ser um instrumento de proteção institucional do STF – e, consequentemente,
da democracia – para se converter em expediente de perseguição a desafetos de
ministros e de controle do discurso político.
O Inquérito 4.781, instaurado de ofício em 14
de março de 2019 pelo então presidente do STF, Dias Toffoli, e entregue à
relatoria de Alexandre de Moraes sem sorteio, nasceu sob a justificativa de
apurar ameaças reais à Corte, seus ministros e familiares. À época, havia um
ambiente político inflamado que, de fato, exigia vigilância rigorosa. Mas as
ameaças passaram e o que se viu desde então foi a expansão ininterrupta de seu
escopo, num processo de degeneração que passou a abarcar categorias de
investigação vagas o bastante para acomodar qualquer ameaça aos interesses dos
ministros.
Ao dizer que o inquérito das fake news “vai
acabar quando terminar” e que é necessário mantê-lo aberto ao longo da campanha
eleitoral, o decano do Supremo dá a entender, sem muita sutileza, que o
processo servirá para intimidar aqueles que, em busca de votos, fizerem
críticas ao tribunal e a seus ministros. Isso obviamente não tem cabimento à
luz da Constituição, cuja observância deve ser zelosamente defendida pelo
Supremo.
Numa mídia social, o ministro Gilmar Mendes
ainda afirmou que haveria uma “indústria de difamação e de acusações caluniosas
contra o Supremo” e que seria seu papel “enfrentá-la”. Decerto há quem invista
contra o Supremo com ânimo liberticida, como é o caso do bolsonarismo. Mas a
resposta a isso deve ser mais respeito à Constituição, não menos.
Se algum ministro se sentir ofendido por
discursos hostis, pode perfeitamente ingressar na Justiça com uma ação contra o
indivíduo que supostamente o agrediu e exigir reparação. O que não pode é um
ministro confundir-se com o próprio Supremo, qualificando qualquer ataque a si
mesmo como se fosse um atentado à Corte e, por extensão, à democracia. Ao
fazê-lo, pretende claramente tornar-se imune a críticas, algo que ninguém, numa
democracia, pode reivindicar.
A linha que separa a defesa institucional da
Corte da autodefesa corporativa de seus ministros não é tão tênue quanto alguns
deles fazem parecer. Em qualquer democracia digna do nome, ministros de
tribunais superiores, sobretudo os da mais alta corte de Justiça, não estão
isentos do escrutínio público, ao contrário: devem estar especialmente sujeitos
a reparos. Mesmo ácidas ou irônicas, as críticas fazem parte do debate público
e devem ser enfrentadas com paridade de armas, vale dizer, discursos políticos
devem ser confrontados com palavras, não com medidas judiciais. Quando
manifestações claramente políticas passam a ser tratadas como crimes em potencial,
está aberta uma avenida para a intimidação de qualquer cidadão que ousar
apontar os erros daqueles que detêm o enorme poder de mobilizar o aparato de
persecução penal do Estado.
A tentativa de incluir o pré-candidato
presidencial Romeu Zema (Novo) no rol de investigados no inquérito das fake
news, em razão dos vídeos satíricos que ele publicou retratando ministros do
STF, expõe a dimensão dessa ameaça. Está claro que o inquérito já não se presta
mais à repressão de condutas supostamente criminosas, tendo avançado
perigosamente para o campo das lides políticas. O calendário eleitoral só
agrava essa distorção.
Ao manter aberta uma investigação de caráter
opaco e contornos indefinidos durante o período em que o debate público deve
ser mais livre, não menos, o Supremo abraçou o risco de projetar sobre o
processo eleitoral uma sombra de interferência que tem de ser dissipada, não
estimulada. O que se tem, portanto, é a consolidação de um expediente que, a
pretexto de defender a democracia, termina por emascular seus principais
fundamentos.
Pela paz no trânsito de São Paulo
Por O Estado de S. Paulo
Governo Tarcísio assume a missão de reduzir a
letalidade e lança o Plano de Segurança Viária, com proposta de parcerias com
as prefeituras para pôr fim a uma verdadeira carnificina
O governo Tarcísio de Freitas lançou o Plano
de Segurança Viária do Estado de São Paulo com uma meta bastante ambiciosa:
reduzir drasticamente a letalidade nas vias urbanas e nas estradas paulistas. A
ideia é cortar pela metade o número de óbitos até 2030, salvando algo em torno
de 19 mil vidas, segundo as estatísticas disponíveis.
Os princípios norteadores que conduzirão esse
trabalho são nobres: o primeiro deles é o de que os acidentes de trânsito não
são acidentes, mas sinistros – ou seja, são evitáveis; e o segundo diz que
nenhuma morte ou lesão grave no trânsito é aceitável.
Hoje, a taxa de mortalidade no Estado de São
Paulo está em 13,42 óbitos a cada 100 mil habitantes. Ou seja, está bem longe
da meta de 5,68 estipulada para daqui a cinco anos. E esse número não é
aleatório: conter as mortes nas ruas e rodovias está entre os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU).
Na capital paulista, a violência no trânsito
matou mais de mil pessoas em 2025, e quase metade delas eram motociclistas,
segundo o Infosiga, uma ferramenta de dados do Departamento de Trânsito do
Estado de São Paulo (Detran-SP). E não é nada alentadora a situação dos outros
644 municípios – pelo contrário.
Em trajetória de alta nos últimos anos, o
número de vítimas de acidentes de trânsito no Estado superou os 6 mil óbitos no
ano passado. O perfil das vítimas paulistas dá a real dimensão do drama: os
mais vulneráveis são os homens (81%), os motociclistas (42%), os pedestres
(25%) e os jovens de 20 a 29 anos (23%). Não menos importante, a maioria dos
óbitos (54%) ocorreu em vias urbanas.
Diante de tamanha catástrofe, finalmente o
governo paulista parece ter decidido agir – o que requer coragem, já que se
disseminou nos últimos tempos a ideia de que qualquer forma de controle do
trânsito caracteriza uma tal de “indústria da multa”, e não são poucos os
governantes que temem apertar o cerco aos infratores e, com isso, perder votos.
Pela primeira vez, órgãos estaduais serão os
responsáveis pela elaboração e execução de ações para dar um basta a essa
guerra urbana paulista. E, para barrar essa escalada da violência, o Sistema de
Trânsito do Estado de São Paulo (Sistran-SP), órgão colegiado que já reúne 552
municípios, incluindo a capital, discutiu ao longo do ano passado o Plano de
Segurança Viária, que acaba de ser lançado. Um decreto publicado recentemente
por Tarcísio instituiu o Comitê Gestor do Plano de Segurança Viária. O Estado
dará suporte técnico às cidades na elaboração dos planos estratégicos e na
operação de observatórios municipais de segurança viária, que serão integrados
ao Observatório Estadual de Segurança no Trânsito.
O plano tem 11 eixos, com ações, metas,
indicadores, prazos e meios de implementação. E entre eles estão o de vias
seguras, segundo o qual a infraestrutura deve ser pensada de modo a antecipar,
evitar e mitigar os erros humanos no trânsito; o de educação, com a missão de
promover uma nova cultura por meio de campanhas educativas e de conscientização
com o acertado foco nos mais vulneráveis, como os pedestres, os ciclistas e os
motociclistas; e o de atendimento às vítimas, que busca a agilidade no socorro
para reduzir as sequelas.
Dados coletados no Infosiga vão subsidiar a
produção das políticas públicas, o que é essencial para fazer frente ao
discurso populista que demoniza os limites no trânsito. Haverá incentivo à
qualificação da fiscalização com o uso de tecnologias e a gestão de dados.
O importante nisso tudo é mostrar que São
Paulo não é terra sem lei. Não era mais possível ficar indiferente à selvageria
nas ruas e nas estradas paulistas, fenômeno que vem se tornando mais letal do
que muitos conflitos militares mundo afora. Nesse sentido, o plano do governo
do Estado deve receber todo o apoio da sociedade, para que o massacre no
trânsito tenha fim.
Corrida contra o tempo
Por O Estado de S. Paulo
BRB anuncia aumento de capital para cobrir
rombo do Master, mas segue em situação frágil
Em crise sem precedentes em sua história, o
Banco de Brasília (BRB) acaba de anunciar um aumento de capital de até R$ 8,8
bilhões.
A medida, aprovada em assembleia geral
extraordinária de acionistas, é uma tentativa de cobrir o rombo deixado pela
desastrosa e fraudulenta associação do BRB ao Banco Master. Pode não passar de
tentativa, porque o governo do Distrito Federal, que é o controlador do BRB,
não só está sem dinheiro em caixa para fazer aportes no banco regional, como
também não tem tido êxito em negociações para conseguir um empréstimo com
bancos privados e com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), escaldados com a
debacle do Master.
Com a aprovação do aumento de capital, o
governo do Distrito Federal precisa colocar ao menos R$ 2,8 bilhões no BRB para
não perder o controle da instituição financeira.
Em outra frente, o BRB comunicou dias antes
um acordo para vender ativos do Master em seu poder pelo valor de R$ 15 bilhões
à gestora de fundos de investimento Quadra Capital. A operação, contudo, ainda
não foi comunicada ao Banco Central porque, segundo o BRB, depende de condições
precedentes previstas no Memorando de Entendimentos.
Tudo somado, o novo presidente do BRB, Nelson
Antônio de Souza, e a atual governadora do Distrito Federal, Celina Leão, que
ao assumir o governo recebeu a bomba BRB/Master para administrar, bem que estão
tentando se desvincular do banco de Daniel Vorcaro e batido nas mais diversas
portas para evitar o derretimento do banco público. Ambos demonstram otimismo
em relação ao futuro do BRB e não admitem a possibilidade de que o banco seja
privatizado.
Ocorre que, sem saber qual o tamanho real do
rombo causado por operações entre o Master e o BRB – algumas delas agora
sabidamente fraudulentas –, qualquer deliberação sobre o futuro da instituição
financeira do DF se assenta em bases para lá de incertas. Nas estimativas mais
conservadoras, o rombo do BRB é de R$ 5 bilhões.
Enquanto isso, o tempo corre e o BRB vai
amargando uma crise de liquidez que não se resolve com a divulgação de uma
agenda positiva (caso do aumento de capital e do acordo com a Quadra).
Ademais, outras potenciais soluções
aventadas, como a estruturação de um fundo para viabilizar a securitização da
dívida ativa do governo do Distrito Federal, estimada em cerca de R$ 52
bilhões, esbarra em questionamentos legais, como revelou o Estadão.
Até agora, o governo federal tem,
corretamente, se recusado a socorrer o BRB, que está onde está não por erros
estratégicos, o que já seria grave, mas por se envolver em relações corruptas
com o Master.
Como se vê, os caminhos para o BRB vão se
estreitando. O banco regional, sólido até se envolver com a instituição de
Vorcaro, agora corre o sério risco de ter o mesmo fim do Master: ser liquidado
extrajudicialmente.
Resta sempre a opção da qual oficialmente o governo do Distrito Federal não quer nem ouvir falar, mas que se apresenta como a única saída honrosa para o BRB: a privatização.
Reforma deve buscar a justiça para todos
Por Correio Braziliense
Há um duplo desafio: aumentar a eficiência, a
transparência e a integridade do sistema de Justiça e preservar a independência
e o papel constitucional do Judiciário
A discussão sobre a reforma do Judiciário
voltou ao centro da agenda nacional em meio a uma crise de imagem do Supremo
Tribunal Federal (STF) que combina desgaste político, suspeitas de conflitos de
interesse e pressões externas. Nesse contexto, as propostas do ministro Flávio
Dino, a iniciativa do presidente da Corte, Edson Fachin, de criar um código de
ética, e a mobilização da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) apontam para um
consenso inicial: o sistema precisa mudar. A divergência está no ritmo, no
alcance e, sobretudo, no método dessas mudanças.
Não se discute uma reforma com o fígado,
ainda mais dessa envergadura. As críticas contra distorções, desvios e abusos
no Poder Judiciário são pertinentes, desde que venham com o intuito de
aprimorar esse pilar do Estado Democrático de Direito. Episódios como os atos
de 8 de Janeiro comprovam que ataques generalizados, com objetivos
eleitoreiros, provocam gravíssimos danos institucionais. Erros individuais
podem ser corrigidos, mas demonizar uma instituição é irresponsabilidade.
Equivale a fechar o Congresso ou a um golpe de Estado para destituir um
presidente da República. Reformas vêm com diálogo e negociação, não com pedras
e tiros.
A proposta de Dino tem o mérito de enfrentar
problemas reais e estruturais. Ao tratar de temas como excesso de litigiosidade,
morosidade processual, distorções remuneratórias e corrupção sistêmica, o
ministro desloca o debate do terreno retórico para o campo institucional. Seus
eixos — que incluem revisão de competências, endurecimento de regras
disciplinares, limites ao uso de inteligência artificial e combate à indústria
de recursos — dialogam com diagnósticos amplamente conhecidos, como o
congestionamento de processos e a baixa efetividade das execuções fiscais. Ao
mesmo tempo, sua ênfase no fortalecimento do sistema de Justiça, e não na sua
contenção, revela uma leitura segundo a qual o problema não é excesso de poder,
mas deficiência de funcionamento.
Já a proposta de Fachin responde à urgência
da crise reputacional. Trata-se de uma medida de implementação mais rápida,
voltada a estabelecer padrões de conduta, transparência e prevenção de
conflitos de interesse no topo da hierarquia judicial. Num momento em que
episódios como o caso do Banco Master atingiram ministros e expuseram
fragilidades institucionais, a sinalização ética não é apenas simbólica, mas
uma necessidade para resgatar a confiança pública.
A OAB, por sua vez, tem um papel estratégico
nesse debate. Ao defender mandatos para ministros do STF, limitação de decisões
monocráticas e regras mais claras sobre atuação de parentes na advocacia, a
entidade amplia o escopo da discussão e introduz temas sensíveis, que tocam
diretamente na arquitetura do poder judicial. Ao mesmo tempo, com razão, prega
a necessidade de participação social, sob o argumento de que qualquer reforma
sem a advocacia carece de legitimidade.
O problema é que, entre o diagnóstico e a
implementação, há um obstáculo conhecido: o corporativismo. A experiência
recente com a tentativa de conter supersalários e "penduricalhos"
ilustra a dificuldade de avançar em temas que afetam diretamente interesses
estabelecidos. Há ainda um risco adicional: o de que a reforma seja capturada
por agendas de ocasião. Em um ambiente polarizado, propostas legítimas podem
ser instrumentalizadas como mecanismos de retaliação contra decisões judiciais
ou como plataformas de mobilização política.
Nesse cenário, a ideia de "autocontenção" como solução não pode ser tratada como panaceia. Reduzir o papel do Judiciário sem enfrentar suas disfunções estruturais seria trocar um problema por outro. Há um duplo desafio: aumentar a eficiência, a transparência e a integridade do sistema de Justiça e preservar a independência e o papel constitucional do Judiciário. Não se pode jogar a criança fora com a água da bacia. Seu objetivo deve ser a justiça para todos.
Google será investigado no Brasil
Por O Povo (CE)
Cade vai avaliar o uso de conteúdo
jornalístico pela big tech americana sem remunerar os veículos de mídia que
produzem as notícias
O tribunal do Conselho Administrativo de
Defesa Econômica (Cade) tomou uma decisão considerada "histórica"
pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ).
Por unanimidade (5x0), o Cade aprovou, na
quinta-feira, a instalação de um Processo Administrativo Sancionador (PAS) com
o objetivo de aprofundar as investigações sobre um possível "abuso
exploratório de posição dominante" por parte do Google.
Ou seja, o Cade vai avaliar o uso de conteúdo
jornalístico pela big tech americana sem remunerar os veículos de mídia que
produzem as notícias.
Conforme explica reportagem publicada na
edição de sexta-feira do O POVO (agência Estado), o inquérito administrativo
inicial foi instaurado em 2018, arquivado em 2024 e reaberto em 2025, por
insistência da ANJ. Os conselheiros entenderam que, com a evolução tecnológica,
outras questões precisavam ser consideradas, especialmente quanto à
inteligência artificial (IA).
Segundo o presidente-executivo da ANJ,
Marcelo Rech, "a decisão do Cade é um marco histórico para os produtores
de conteúdo jornalístico, porque, pela primeira vez, se investigará a fundo no
Brasil o abuso de poder ou dependência econômica digital".
Para Marcelo Rech, a decisão do Cade é um
marco histórico para os produtores de conteúdo jornalístico porque, pela primeira
vez, se investigará a a extensão do uso indevido de poder ou dependência
econômica digital".
De fato, o que as plataformas como o Google
fazem é lucrar com a distribuição do conteúdo produzido pelos veículos de
mídia, lucrando com esse procedimento. No entanto, quem arca com o alto custo
de produção de notícias são os jornais.
A situação piorou com o surgimento da IA, que
passou a utilizar textos jornalísticos para treinar modelos ou gerar respostas
sem que, ao menos, o usuário precise ir ao site original. O que a IA faz é
empacotar uma resposta ou oferecer um texto que é o resumo do que foi produzido
por uma ou mais empresas jornalísticas, sem remunerá-las adequadamente.
Portanto, salta aos olhos a concorrência
desleal promovida por essas empresas de tecnologia, que nada mais fazem do que
plagiar conteúdo sem remunerar que faz o trabalho.
Esse debate não se limita ao Brasil, empresas de mídio de todo o mundo movem uma campanha para que as plataformas remuneram de forma justa quem produz as notícias. São elas que fazem girar essa roda que rende rende bilhões, mas quem lucra são apenas as grande plataformas, apropriando-se indevidamente do material produzido, com esforço e altos custos, pelas empresas de mídia.

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