Decisão sobre ‘penduricalhos’ ampliou incerteza
Por O Globo
Depois de STF ressuscitar quinquênio para
juízes e procuradores, demais servidores também querem a regalia
Era previsível: a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que tentou disciplinar os supersalários no serviço público surtiria efeito contrário, abrindo caminho para outras categorias reivindicarem as mesmas bondades concedidas ao Judiciário e ao Ministério Público (MP). Pois não deu outra. Levou uma semana para o Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas do Estado (Fonacate) reivindicar ao Ministério da Gestão e Inovação a retomada da discussão sobre o adicional por tempo de serviço para servidores públicos — a promoção automática conhecida como quinquênio —, com base na decisão que o ressuscitou para juízes e integrantes do MP. O quinquênio havia sido extinto por Emenda Constitucional em 2003.
O governo que se prepare. O presidente do
Fonacate argumenta que não faz sentido um grupo que já desfruta os maiores
salários do funcionalismo receber o adicional, e o restante não. “Todos somos
servidores e contribuímos com o nosso trabalho para que o Estado brasileiro
cumpra as suas funções”, afirma. A entidade diz que agirá também junto ao
Congresso para resgatar o adicional a partir de projetos que já tramitam no
Legislativo. Embora o quinquênio seja uma prática descabida, pois premia o
servidor por antiguidade e não por mérito, é evidente que o STF criou um
problema que não existia ao tratar as categorias de servidores de forma
diferenciada. Não é improvável que em algum momento as reivindicações deságuem
no próprio Supremo.
O imbróglio é só mais um sinal de que a Corte
não resolveu o nó dos auxílios de todo tipo usados pela elite do funcionalismo
para driblar o teto constitucional de R$ 46,4 mil — conhecidos como
“penduricalhos”. Depois de tantas liminares e discursos duros de ministros, a
decisão revelou-se frustrante. Se a intenção era atenuar a grita de juízes e
promotores que se sentiam injustiçados com eventuais cortes em seus gordos
salários, nem isso conseguiu. A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB)
afirmou que ela “implica severa redução remuneratória imediata” e expôs
“profunda discordância e preocupação” com o julgamento. Ora, “penduricalho” não
deveria ser uma forma de turbinar salário, mas reembolso por despesas mediante
justificativa sensata.
Mas, em vez de determinar o cumprimento do
teto constitucional, o Supremo optou por ampliá-lo. De forma unânime,
estabeleceu que a soma dos “penduricalhos” não pode ultrapassar 70% do valor
estipulado na Constituição. Na prática, os R$ 46,4 mil viraram R$ 78,9 mil de
um dia para o outro. É verdade que foram tomadas medidas positivas, como a
extinção de alguns “penduricalhos” escandalosos. Mas persistem aberrações, e a
maior delas foi a ressurreição do quinquênio, extinto há mais de 20 anos. O
Supremo não agradou a ninguém. Nem à camada mais privilegiada nem à menos
privilegiada, que agora pede equiparação. E que dizer do cidadão, que paga a
conta?
Como a decisão é provisória — vale até que o
Congresso legisle sobre o tema —, urge que Câmara e Senado cumpram seu dever e
estabeleçam regras sensatas. Especificamente sobre os quinquênios, é
fundamental manter a decisão anterior que os extinguiu. Até lá, porém, muitas
categorias correrão para obter o benefício, em prejuízo dos cofres públicos.
Com a inclinação contumaz da Justiça para
atender às demandas do funcionalismo, é de esperar que a incerteza cresça.
Promoção de mulher a general de Exército é
conquista para o Brasil
Por O Globo
Avanço feminino nas Forças Armadas deve ser
defendido e valorizado. Elas precisam chegar ao topo da carreira
A promoção da médica Claudia Lima Gusmão
Cacho a general de brigada do Exército representa a primeira entrada de uma
mulher no generalato no Brasil. Ela ingressou nas Forças
Armadas em 1996 e fez carreira na área de saúde militar. Em 30
anos, ocupou cargos estratégicos no Nordeste, no Centro-Oeste e no Sudeste. Sua
chegada ao alto da hierarquia é sem dúvida mais um incentivo para aumentar a
participação feminina nas três Forças, atualmente em cerca de 10% do efetivo.
Ainda assim, é apenas um primeiro passo num setor em que as barreiras à
presença feminina em postos de comando costumam ser maiores que noutras
ocupações.
Presentes nas escolas que preparam oficiais e
praças desde o século passado, as mulheres puderam participar do primeiro
alistamento feminino voluntário apenas em 2025. A demanda surpreendeu: quase 34
mil inscritas para 1.465 vagas. Com a promoção de Claudia Gusmão a general, é
provável que a procura cresça. O Brasil só tem a ganhar com isso. Mulheres jamais
devem ser impedidas de seguir a vocação que quiserem, inclusive a militar. Uma
vez nas Forças Armadas, não deve haver obstáculo a sua ascensão ao topo da
carreira. Mulheres têm desempenho acadêmico melhor que homens em todas as fases
do ensino. Na população com mais de 25 anos, há mais mulheres que homens com
nível superior completo. Seria contraproducente o Brasil não aproveitar o
talento delas.
A promoção de Claudia Gusmão põe o Brasil na
vanguarda global. Numa amostra de 30 países analisados pelas Nações Unidas em
2024, mulheres eram raridade nos postos mais altos do comando. “Em média,
representam apenas 2% dos oficiais navais e 3% dos oficiais do Exército e da
Força Aérea nesse nível”, diz o estudo “Rumo à igualdade de oportunidades para
mulheres no setor de defesa”. Mesmo na Europa, onde a presença feminina costuma
ser maior, muitos países não contam com mulheres generais. O último relatório da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre perspectivas de gênero
mostra queda na proporção feminina nos postos altos da hierarquia. Mulheres
generais são 0,01% do total. Entre os destaques positivos estão Austrália,
Bangladesh, Canadá, França, Gana, Índia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e
Reino Unido.
A presença feminina nas Forças Armadas dos Estados Unidos tem retrocedido sob Donald Trump. A almirante Lisa Franchetti passou cerca de metade da carreira em missões no mar. Ascendeu ao comando de um contratorpedeiro e, anos mais tarde, chefiou a Sexta Frota no Mediterrâneo. Em 2023, no governo Joe Biden, tornou-se chefe de Operações Navais e a primeira mulher a ocupar assento permanente no Estado-Maior. Em fevereiro do ano passado, porém, foi demitida pelo secretário Pete Hegseth. Meses depois, a vice-almirante Shoshana Chatfield perdeu o cargo de representante americana no comitê militar da Otan. O retrocesso americano na área demonstra que as conquistas não estão garantidas. Precisam ser festejadas, mas também defendidas de forma constante.
Federalizar BRB seria fazer contribuinte
pagar por má gestão
Por Folha de S. Paulo
Fazenda opõe-se corretamente à absorção do
banco do DF, que contratou crise ao socorrer o Master
Instituição estatal apostou em crescimento
rápido, quando boa parte dos bancos privados optava pela eficiência e pela
contenção de gastos
A crise do Banco de Brasília (BRB)
estava anunciada desde que se tornaram conhecidas as relações com o Banco Master —ou
mesmo antes, diante do crescimento acelerado da instituição nos últimos anos.
O banco não conseguiu divulgar o balanço de
2025 no prazo legal, encerrado na terça-feira (31). Nem mesmo os números do
terceiro trimestre foram apresentados, aliás. O atraso é o sinal visível de um
rombo cuja dimensão ainda não é totalmente conhecida.
No centro do problema está a compra, no ano
passado, de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito fraudulentas do Master.
Apenas uma parcela desses ativos, aparentemente, foi recuperada. O BRB admite a
necessidade de provisionar cerca de R$ 8,8 bilhões, mas a auditoria forense em
curso indica que o prejuízo pode ser ainda maior.
O problema possivelmente não se resume a esse
rombo em particular e revela falhas estruturais de governança e estratégia. O
banco estatal apostou num crescimento acelerado e nacional, no momento em que a
maior parte dos bancos privados optava pela digitalização, pela eficiência e
pela contenção de custos.
De 131 agências em 2019, a grande maioria
concentrada no Distrito
Federal, a instituição saltou para 1.042 pontos de atendimento em 19
estados no fim de 2024, recuando apenas ligeiramente para 988 em 2025.
A expansão foi acompanhada por uma explosão
de patrocínios, sobretudo a um clube de futebol, o Flamengo: de R$ 7,2 milhões
em 2019 para R$ 107,5 milhões em 2024, com renovação recente. Usar recursos de
um banco controlado pelo contribuinte local para comprar visibilidade nacional,
enquanto a carteira de crédito sangrava, foi, certamente, uma conduta
temerária.
As saídas aventadas ainda não convencem. A
estratégia principal passa pela venda de ativos e carteiras, incluindo a
criação de um fundo imobiliário com imóveis públicos, além da estruturação de
um fundo com recebíveis do antigo Master e da possível venda da Financeira BRB.
Também se negocia um empréstimo de até R$ 4
bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), com garantias em participações
societárias da Caesb e da CEB, estatais locais, e em imóveis.
Mesmo assim, será necessário um aumento de
capital em montante ainda desconhecido, mas o próprio governo do Distrito
Federal não dispõe de caixa folgado.
A privatização, infelizmente, não é
considerada. A federalização, sugerida como solução de última instância (com
absorção pelo Banco do
Brasil ou pela Caixa
Econômica Federal), tem oposição
correta do Ministério da Fazenda. Transferir o rombo para a
União significaria
socializar os custos de uma gestão imprudente.
Se o BRB não conseguir equacionar o problema
por vias de mercado, o regulador deve estar preparado para medidas drásticas:
intervenção ou, em última hipótese, liquidação. Nenhum cenário pode envolver
socorro federal.
A guerra santa de Trump
Por Folha de S. Paulo
Visão milenarista cristã da Casa Branca faz
papa Leão 14 criticar uso de Deus para justificar conflitos
A fé ampara os crentes na batalha, mas, como
política de Estado, flerta com fanatismo, não diferente do Irã e do atual
governo de Israel
Ao pregar no último domingo (29), o papa Leão
14 criticou o
emprego do nome de Deus para justificar conflitos armados. "[Deus]
não ouve as orações daqueles que fazem guerra, mas as rejeita, dizendo: ‘Ainda
que façais muitas orações, não as ouvirei, vossas mãos estão cheias de
sangue’", afirmou.
Robert Prevost, o primeiro pontífice
americano, citou uma admoestação divina no livro de Isaías. Foi uma escolha
elegante e seletiva, dado que o Criador determina a obliteração dos adversários
de seus protegidos em outros pontos do mesmo Velho Testamento, como em Samuel,
Deuteronômio e Josué.
Mas seu discurso mirava um governante muito
atual, o presidente Donald Trump,
cuja administração tem sido pródiga em respaldar a guerra
contra o Irã como um empreendimento sagrado.
De saída, há o contexto do Oriente Médio.
O Irã é
uma teocracia islâmica, e o sócio dos EUA no conflito é Israel,
o Estado judeu cuja existência é, para boa parte da direita religiosa associada
a Trump, um pré-requisito para a volta de Jesus Cristo à Terra.
O secretário de Defesa americano, Pete
Hegseth, ostenta tatuagens com motivos das cruzadas, a campanha militar de
reconquista lançada há mais de mil anos pelos cristãos da Europa contra o
expansionismo muçulmano.
São símbolos caros não só aos fundamentalistas
evangélicos e católicos americanos: o lema cruzado "Deus Vult"
("Deus quer", em latim castiço), tatuado no bíceps de Hegseth, era
palavra de ordem de bolsonaristas como o ex-chanceler Ernesto Araújo.
O Pentágono sob Hegseth tornou-se um centro
de difusão desse ideário. Ele, que já pediu a reconstrução do Templo de
Jerusalém, conduziu orações no trabalho e pediu que o país reze pelos
soldados "de joelhos dobrados, em nome de Jesus Cristo".
Por óbvio, a associação entre a espada e o
divino não é novidade. As fivelas dos cintos de soldados alemães nas duas
guerras mundiais traziam a inscrição "Deus está conosco", e Adolf
Hitler atribuiu à Providência ter saído vivo de um atentado em 1944.
Assim como o nazista, Trump afirmou que
escapou de um tiro fatal em 2024 por desígnio: "Deus me salvou para que eu
fizesse os EUA grandiosos de novo".
Abundam relatos de soldados americanos se queixando de comandantes que dizem que a guerra visa acelerar o fim dos tempos. Como direito individual, a fé ampara os crentes na batalha. Como política de Estado, contudo, flerta com o fanatismo, ainda que seja só cinismo —não diferente do Irã e do atual governo de Israel.
A ‘onda rosa’ morreu na praia
Por O Estado de S. Paulo
Cúpula da Celac reflete diplomacia
lulopetista – retórica grandiosa e obsolescência operacional –, confirmando o
esgotamento de uma visão anacrônica, ideológica e conivente com ditaduras
A cena em Bogotá dispensava interpretação. O
anfitrião, o presidente Gustavo Petro, atrasou-se por horas e faltou à
abertura; quando finalmente apareceu, o convidado mais ilustre já havia deixado
a mesa. Diante de cadeiras vazias, Luiz Inácio Lula da Silva irritou-se, bateu
na mesa, resmungou qualquer coisa sobre o “colonialismo” e, antes do fim, foi
embora. Não sem antes franquear ao chanceler Mauro Vieira a tarefa de ler seu
discurso recheado de clichês sobre intervenções estrangeiras, que ninguém parecia
muito interessado em ouvir. A 10.ª Cúpula da Comunidade de Estados
Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), concebida para simbolizar a união
latino-americana, terminou como uma encenação involuntária de sua própria
irrelevância.
O fiasco expôs, com crueza, o esgotamento de
um projeto político que Lula tenta ressuscitar: o de uma América Latina
articulada em torno de afinidades ideológicas progressistas. A Celac, desde sua
origem, foi menos um mecanismo de coordenação do que uma alternativa
politicamente motivada à Organização dos Estados Americanos – mais permissiva
com regimes autoritários e mais conveniente para discursos antiamericanos. Seu
problema nunca foi falta de ambição, mas excesso de ilusão.
A promessa era de integração regional. O
resultado é um regionalismo de cúpula: declarações abundantes, entregas
escassas. Além de Lula, apenas três chefes de Estado viajaram a Bogotá: do
Uruguai, do Burundi e de São Vicente e Granadinas. Doze países se dissociaram
de trechos centrais do comunicado final, especialmente no tradicional parágrafo
em defesa de Cuba – há muito o eixo simbólico do bloco. A unidade proclamada
dissolveu-se em notas de rodapé.
O padrão não é novo. Celac, Unasul e Foro de
São Paulo naufragaram como tentativas de institucionalizar uma maré política.
Enquanto durou a chamada “onda rosa”, tais fóruns prosperaram como espaços de
autocongratulação ideológica. À medida que a região se fragmentou e novas
prioridades – segurança, crescimento, estabilidade – ganharam centralidade, sua
utilidade evaporou.
Enquanto a Celac minguava em Bogotá, uma
coalizão liderada por Washington reunia, semanas antes, líderes de uma dezena
de países em torno de uma agenda concreta de segurança regional. Seus métodos e
objetivos são mais do que questionáveis. Em larga medida, o “Escudo das
Américas” promovido por Donald Trump em Miami foi um convescote igualmente
ideológico, mas com sinal trocado. E, no entanto, ele atraiu líderes, produziu
alinhamentos e influenciou comportamentos sobre um tema bem delimitado. A Celac,
por sua vez, mal conseguiu manter seus próprios membros à mesa.
Lula insiste em ler a política
latino-americana pelos mapas do século 20. Fala em “Sul Global”, denuncia o
“colonialismo” e propõe uma integração política, cultural e tecnológica que
raramente se traduz em mecanismos operacionais. Trata-se de uma diplomacia de
identidade, não de resultados. Ao privilegiar afinidades e relativizar
diferenças – inclusive as entre democracias e ditaduras –, o Brasil abdica de
seu papel potencial como articulador pragmático e se reduz a protagonista de
fóruns cada vez mais esvaziados.
O custo dessa escolha não é apenas
reputacional. Ao investir capital político em arranjos de baixa efetividade, o
País perde capacidade de coordenar respostas regionais, de negociar em bloco e
de influenciar agendas concretas. Em vez de liderar, assiste. Em vez de
construir coalizões úteis, cultiva convergências simbólicas.
A cúpula de Bogotá ofereceu, assim, uma
imagem rara de clareza. Uma diplomacia que confunde camaradagem ideológica com
estratégia tende a produzir exatamente isto: encontros solenes, discursos
inflamados e resultados nulos.
Outro herói sem nenhum caráter
Por O Estado de S. Paulo
Trajetória de Sergio Moro, de paladino da
luta anticorrupção a sabujo do clã Bolsonaro, mostra que é preciso tomar
cuidado quando se elegem ‘heróis’ para ‘salvar’ o Brasil
Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, ganhou
um rival à altura: Sergio Moro. A trajetória desse senador da República, de
paladino da luta anticorrupção a sabujo da família Bolsonaro, mostra que é
preciso tomar muito cuidado quando se elegem “heróis” para “salvar” o Brasil.
Assim como a célebre criação de Mário de Andrade, Moro se converteu em tantos
personagens diferentes que é difícil dizer quem ele realmente é.
Primeiro, abandonou o governo de Jair
Bolsonaro, em abril de 2020, acusando o então presidente de interferir na
Polícia Federal para proteger sua família, encalacrada em casos de rachadinhas
e quejandos. Por essa razão, o outrora justiceiro do Brasil, adorado pelos
bolsonaristas, foi chamado de “traíra”, “judas” e “mentiroso” por esses mesmos
bolsonaristas e de “idiota” pelo próprio Bolsonaro. Moro, que se apresentou
como candidato à Presidência em 2022, contra-atacou, dizendo que “quem manda no
presidente Bolsonaro é Valdemar Costa Neto”, em referência ao notório chefão do
PL, que cumpriu pena por corrupção.
Tudo mudou em outubro de 2022, quando Moro,
já eleito senador, declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno contra o petista
Lula. Depois, Moro defendeu Bolsonaro quando este foi condenado por tentativa
de golpe. E, agora, a transformação final: Moro filiou-se ao PL do chefão
Valdemar Costa Neto e, como candidato ao governo do Paraná, dará palanque a
Flávio Bolsonaro na campanha presidencial – o mesmo Flávio das suspeitas de
rachadinha lá no começo dessa história. Como diria Macunaíma, “ai, que
preguiça!”.
O País já se acostumou com movimentos
políticos por vezes desconcertantes. Basta lembrar que Lula e Geraldo Alckmin,
outrora adversários figadais, compuseram a chapa vencedora da eleição
presidencial de 2022. O que singulariza o caso de Moro, porém, é o fosso
abissal entre o discurso que projetou o ex-todo-poderoso juiz da Lava Jato na
vida pública e suas atitudes.
A persona política de Moro foi construída com
base na negação do sistema político, tido por ele e seus aliados como
essencialmente corrupto. Primeiro como ministro de Estado, depois como senador,
Moro chegou a Brasília como a encarnação de uma cruzada moral contra a
corrupção. Mas a sustentação desse papel exigia dele pureza de propósito,
coerência partidária e distanciamento inequívoco de práticas e pessoas sob
suspeição, tudo o que o senador mostrou não ter. Ou bem se está entre os
defensores da moralidade pública e do combate à corrupção ou se cerra fileiras
com o clã Bolsonaro e Costa Neto.
O Moro “herói” da Lava Jato não resistiu ao
teste do tempo e do caráter. Essa figura, a rigor, começou a ruir quando ele
não resistiu ao canto da sereia e aceitou convite para entrar no governo de
Jair Bolsonaro, dando ares de verdade à acusação de que sua atuação na Lava
Jato teve algum viés político. Não se recupera uma imagem depois disso.
Moro pode ser amador politicamente, mas não é
um beócio. O senador sabe quem são seus novos correligionários. Sabe, também, o
que disse sobre eles no passado recente. Portanto, o que mudou não foram os
fatos, mas a conveniência política de todos os envolvidos nessa articulação.
Nunca houve espaço para ingenuidade nesta
página. Sabe-se que a política não é terreno para os puristas. Mas não é disso
que se trata. Há uma diferença gritante entre reconhecer a complexidade do jogo
democrático e trair os próprios princípios. Moro não se projetou nem foi
assimilado como apenas mais um político. Foi alçado à condição de símbolo
justamente por prometer subverter a lógica do cálculo eleitoral imediato em prol
de ambiente político mais racional e republicano. Em Brasília, tornou-se o
oposto disso.
Caberá aos eleitores do Paraná decidirem se isso é tolerável. Para este jornal, muito mais relevante do que o futuro do senador é a lição mais ampla desse episódio. O Brasil já viu, mais de uma vez, figuras públicas serem alçadas à condição de “salvadores da Pátria” para, tempos depois, mostrarem suas verdadeiras identidades e intenções. A repetição desse ciclo não é acidental. É decorrência da disposição de parte da sociedade de hostilizar a política e votar em candidatos a messias.
O Brasil já conheceu um caminho melhor. Ele
passa menos por gestos grandiloquentes e mais por coordenação efetiva, menos
por identidades e mais por interesses. A alternativa à irrelevância não está em
exumar fóruns exauridos, mas em recuperar o pragmatismo que um dia fez da
diplomacia brasileira um instrumento de influência geopolítica real, e não
apenas de retórica politiqueira.
Contagem regressiva para o BRB
Por O Estado de S. Paulo
Banco estatal descumpre prazo para divulgar
balanço e corre risco de sofrer intervenção ou liquidação
O governo do Distrito Federal (GDF) parece
não ter entendido a gravidade da situação em que colocou o Banco de Brasília
(BRB). Após a aventura na qual se envolveu ao tentar comprar o Banco Master, a
instituição financeira descumpriu o prazo para apresentação de seu balanço de
2025 e corre o risco de sofrer medidas extremas da parte do Banco Central (BC).
O então governador do DF, Ibaneis Rocha
(MDB), deixou o cargo nesta semana para disputar a eleição para o Senado sem resolver
o buraco aberto pela compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras podres que
pertenciam ao Master. A bomba ficou no colo de sua vice, Celina Leão (PP), que
tenta agora convencer o governo Lula a impedir que ela exploda de vez.
Até o momento, o governo do Distrito Federal
lidou com o problema como se tivesse todo o tempo do mundo para resolvê-lo.
Além de não publicar o balanço, convocou uma assembleia geral extraordinária de
acionistas, mas somente para o dia 22 de abril. O fundo que o GDF pretendia lançar
para levantar recursos, composto por nove imóveis públicos, patina em meio a
entraves jurídicos, burocráticos e ambientais.
Ibaneis até chegou a pedir um empréstimo de
R$ 4 bilhões para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mas a estimativa é de
que o rombo do banco seja o dobro disso. E, depois de perder R$ 50 bilhões para
cobrir os CDBs emitidos pelo conglomerado do Master, o FGC não pretende bancar
a operação sozinho, ou seja, sem que outros bancos públicos e privados deem
suporte ao socorro, o que pode estender ainda mais as negociações.
Para piorar, documentos internos revelaram
que o BRB já havia identificado sinais de fraude nas carteiras que comprou do
Master. Auditoria realizada por técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU)
apontou erros primários nas projeções financeiras feitas pelo Master e pelo
BRB, graves irregularidades na operação entre as duas instituições, falta de
diligência dos gestores do BRB e indícios de gestão temerária nas negociações.
Diante desse quadro, não se deve esperar benevolência
do BC. Bancos não podem operar com patrimônio negativo, de forma que a
necessidade de um aporte é urgente, sob pena de colocar em risco a segurança do
sistema financeiro. Ademais, a pressão política sobre a autarquia, que era
enorme até a liquidação do Master, arrefeceu muito. O afastamento de servidores
que atuaram em favor de Vorcaro só deu credibilidade à atuação da instituição.
É cada vez mais difícil visualizar uma
solução para o BRB que não passe por algo extremo, como uma intervenção ou até
mesmo uma liquidação. A esta altura, uma federalização, ou seja, a
transferência do ativo para outro banco público, como a Caixa Econômica Federal
ou o Banco do Brasil, parece improvável.
A despeito da boa vontade que o governo Lula tem com empresas estatais, o Executivo não parece disposto a mover uma palha para conter uma crise gerada por um adversário político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O tempo joga contra o BRB, mas o governo do Distrito Federal prefere fingir que não é com ele.
Trump e a retórica das cavernas
Por Correio Braziliense
Admitir o fracasso e recuar exige grandeza
política, uma virtude que colide frontalmente com a natureza errática e
autocentrada do atual Executivo norte-americano
O presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, não tem um plano de saída para a guerra que ele mesmo entrou contra o
Irã. É o que ficou claro depois do discurso na noite de quarta-feira, quando
ele substituiu a estratégia militar pela ameaça pura e simples. Ao declarar que
pretende bombardear o Irã até fazê-lo "voltar à Idade da Pedra", o
chefe da Casa Branca escancarou a ausência de um planejamento para uma
intervenção que se mostra cada vez mais desastrada. Longe de projetar força ou
tranquilizar a comunidade internacional, a retórica agressiva de Trump expõe a
perigosa desorientação de uma superpotência encurralada no Golfo Pérsico pelas
suas próprias e precipitadas decisões, e longe ainda de uma improvável admissão
de erro.
O pronunciamento escancarou um vácuo tático
assustador. Trump subiu ao palanque sem apresentar qualquer caminho claro ou
cronograma viável para o fim das hostilidades. Em vez disso, tentou minimizar a
gravidade do conflito, pedindo aos norte-americanos que mantivessem a guerra
"em perspectiva", enquanto se contorcia para acalmar um eleitorado
domesticamente assombrado pela escalada nos preços dos combustíveis. É pouco
provável, porém, que os cidadãos dos EUA, já pressionados por um aumento no
custo de vida, comprem a retórica de Trump enquanto pagam cada vez mais caro no
supermercado.
A prova de uma falta de rumo da Casa Branca
atingiu o ápice quando o presidente descartou uma incursão por terra para
capturar o urânio enriquecido, citou a operação na Venezuela que capturou o
ex-presidente Nicolás Maduro como modelo de sucesso e chegou ao absurdo de
declarar que o Estreito de Ormuz, artéria vital da economia global, "não é
problema dos Estados Unidos".
A soma dessas declarações erráticas confirma
o que a comunidade internacional já suspeitava: a ação militar norte-americana
no Irã é, até o momento, um desastre em todos os aspectos. Não derrubou o
regime, não estabilizou a região, isolou diplomaticamente os Estados Unidos e
colocou o comércio mundial sob o risco de asfixia. A tentativa de forçar uma
mudança de regime em Teerã pela via da força bruta esbarrou na complexidade de
um Estado resiliente, que vem se preparando para este conflito desde a
derrubada do xá Mohammad Reza Pahlavi em 1979.
A essa altura, a única via de escape racional
do atoleiro vem sendo diagnosticada por analistas independentes. A solução
exige uma dose cavalar de pragmatismo: Washington precisará exigir o fim
verificável do programa nuclear iraniano, mas terá que aceitar, em
contrapartida, que o regime dos aiatolás continue no poder. Trata-se da velha
premissa diplomática de que não se pode obter na mesa de negociações aquilo que
não se conquistou no campo de batalha. É preciso abandonar o delírio da mudança
de regime e focar na contenção da ameaça atômica.
O grande obstáculo para essa solução
pacífica, no entanto, não reside apenas em Teerã, mas na própria Casa Branca.
Adotar essa saída diplomática exigiria que os Estados Unidos reconhecessem que
iniciar essa guerra preventiva foi um erro de cálculo monumental. E é aí que
reside o maior perigo. Admitir o fracasso e recuar exige grandeza política, uma
virtude que colide frontalmente com a natureza errática e autocentrada do atual
Executivo norte-americano.
Para a diplomacia triunfar, Trump precisaria engolir o próprio orgulho, um sacrifício que ele historicamente se recusa a fazer. O risco iminente é que, na recusa em admitir que errou, o presidente americano decida levar adiante sua retórica primitiva. Ao tentar forçar o Irã de volta à Idade da Pedra, os Estados Unidos correm o sério risco de arrastar o resto do mundo junto com eles.
O discurso vazio e perigoso de Trump
Por O Povo (CE)
O presidente americano Donald Trump começou
uma guerra com o Irã sem definir um objetivo preciso e sem uma estratégia para
enfrentar o país dos aiatolás. As desculpas foram desde derrubar o governo
ditatorial até evitar que o Irã enriquecesse urânio ao nível de produção de
armas atômicas.
Tinha tudo para dar errado, como poderia ter
previsto qualquer analista internacional ou mesmo uma pessoa bem informada de
"senso comum", expressão que Trump costuma usar para justificar
qualquer barbaridade que comete.
Muito provavelmente, inebriado pelo
"sucesso" da operação da Venezuela, que levou ao sequestro do
presidente Nicolás Maduro, ele quis replicar a mesma tática no Irã, sem
considerar as abissais diferenças entre as duas nações.
O país persa se prepara há décadas para o
enfrentamento com os EUA. Apesar de ser uma ditadura brutal, o Irã não tem um
sistema de governo vertical, mas atua em rede, o que logo permite a ascensão de
outro líder, evitando vácuos de poder.
É de se lembrar o acordo assinado, em 2015,
entre as principais potências mundiais, reunindo, de um lado, os Estados Unidos
(governo de Barack Obama), Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China — de
outro, o Irã.
Pelo pacto, o Irã comprometeu-se a enriquecer
urânio em níveis bem abaixo do necessário para produzir uma bomba nuclear,
entre outras restrições. Em compensação, conseguiu o fim de sanções econômicas
e acesso a dólares bloqueados no exterior.
O acordo era inspecionado pela Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA), que verificava o cumprimento dos itens
negociados. Em 2018, em seu primeiro mandato, Trump retirou os Estados Unidos
do acordo, sob a alegação de que era insuficiente.
Mais de 60 dias após o início da guerra, com
centenas de mortos, inclusive crianças, Donald Trump espalha informações
desconexas, ao estilo "fake news", provavelmente falando para sua
base mais radicalizada, ou por motivos ainda obscuros. Algumas vezes anunciando
"negociações", que o Irã sempre negava.
Isso cria uma enorme confusão em todo o mudo,
com o petróleo, dólar e ações oscilando a cada fala do presidente americano,
deixando o mundo em suspenso a cada fala que ele emite.
Nesse pronunciamento de 1º de abril muitos,
os mais ingênuos, esperavam que ele aunciasse um cessar-fogo. Mas Trump dobrou
a aposta.
No discurso ele disse que os "objetivos estratégicos fundamentais estão quase concluídos", referindo-se ao susposto desmantelamento da estrutura militar iraniana. Diferentemente do que dissera anteriormente, negou querer derrubar o regime ditatorial iraniano. Em seguida afirmou que iria "terminar o trabalho", prevendo mais duas ou três semana de conflito. É difícil dizer que vai "vencer a guerra. Mas quem já perdeu foram centenas de civis mortos e milhares deslocados de suas casas. Uma guerra sem sentido.

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