quinta-feira, 9 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tentativa de trégua no Irã atesta inépcia de Trump

Por Folha de S. Paulo

Para acalmar eleitores e mercados, americano recua de ultimato pela 5ª vez numa guerra sem objetivo claro

Nenhum dos rivais concorda com os termos tornados públicos da base de negociações, proposta pelo Irã; cessar-fogo é frágil

Após muito suspense, passou a vigorar, na noite de terça-feira (7), um cessar-fogo na guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Ao menos, foi o que disse acreditar Donald Trump, ciente dos riscos inerentes à empreitada.

De um lado, a pressão global devido à escalada dos preços de energia decorrente do fechamento do estreito de Hormuz —o corredor de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo— pela teocracia islâmica.

De outro, o temor doméstico da impopularidade da guerra entre os americanos, que irão às urnas em novembro renovar o Congresso, onde Trump controla hoje Câmara e Senado. Há muito a perder, incluindo a segurança contra um processo de impeachment.

A guerra contra um regime aberrante poderia até ser justificada em outros contextos, mas não no atual, quando os aiatolás se viam encurralados por protestos e enfraquecidos.

Sem justificativa clara, Trump passou a sacar uma por ocasião: ora os riscos do programa nuclear iraniano, ora a mudança de regime, ora Hormuz.

Fixado na reabertura do estreito, em 21 de março deu um ultimato. Obliteraria usinas de energia dos rivais se um acordo não fosse alcançado para reativar o trânsito de navios. Em quatro momentos, adiou o prazo.

Na terça (7), tudo estaria acabado. O republicano, talvez embevecido pela operação que salvou dois pilotos derrubados sobre o Irã no fim de semana, decidiu dar ares apocalípticos à sua ameaça.

"Uma civilização inteira irá morrer nesta noite", escreveu em uma rede social. Se um crime de guerra é algo trivial em combate e a punição depende do lado em que está o acusado no desfecho, aqui Trump sugeriu genocídio. Foi repreendido até por aliados.

Horas depois de uma negociação descrita como intensa pelos participantes, anunciou-se a trégua de duas semanas.

Mercados globais ficaram aliviados, mas não por muito tempo. Já nesta quarta (8), Israel lançou o mais devastador ataque da atual campanha contra o Hezbollah libanês, aliado do Irã. Declarou, com respaldo dos EUA, que o vizinho não faz parte da trégua.

Os iranianos voltaram a lançar mísseis golfo Pérsico afora. A tensão se espalhou para Hormuz, e a mídia de Teerã falou em bloqueio de navios. A Casa Branca alegou que era só propaganda e anunciou que a negociação começa no sábado (11), no Paquistão.

Aí há outro problema da fragilíssima trégua. Nenhum dos rivais concorda com os termos tornados públicos da base de negociações, proposta pelo Irã. Para a teocracia, sua capacidade de enriquecer urânio estará garantida; já Trump quer vetá-la.

Assim, resta a certeza de que, se sobreviver à sua primeira noite, o cessar-fogo, que é um monumento à inépcia diplomática de Trump, terá diversos momentos posteriores para provar-se efetivo. Enquanto isso, o melhor que poderia ocorrer seria Israel e Irã adotarem algum comedimento.

Dois projetos de lei põem em risco a liberdade de expressão

Por Folha de S. Paulo

Falhas nos PLs da Misoginia e do Antissemitismo abrem margem para judicialização de discursos legítimos

Tornou-se corriqueiro usar a Justiça para censurar desafetos; normas deveriam considerar mais os contextos das falas do que conteúdos

O Brasil e o mundo vivem dias difíceis para a liberdade de expressão, que sofre ataques à esquerda e à direita. Por aqui, dois projetos de lei dão exemplo disso.

O primeiro é o chamado PL da Misoginia, que foi aprovado por unanimidade no Senado e seguiu para a Câmara dos Deputados. Há que louvar a disposição de combater a violência contra a mulher. A proposta, porém, é tecnicamente ruim, por estabelecer tipos excessivamente abertos, com penas que podem chegar a cinco anos de reclusão. Pelo texto, considera-se misoginia "a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres".

Se o termo "ódio" ainda implica ao menos um sentimento forte, "aversão" pode significar apenas antipatia. E, se antipatia se tornar crime, precisaremos construir muitos presídios. Tipos imprecisos, que já são um problema no direito penal ordinário, tornam-se verdadeiros entraves em leis que impõem limites a discursos.

Já o PL do Antissemitismo, proposto por Tabata Amaral (PSB-SP) e mais 44 deputados, pode ser descrito como uma tentativa sociológica de definir o termo. Nominalmente, não trata de matéria penal, mas pretende "instruir políticas públicas". Na prática, entretanto, o texto, se aprovado, terá repercussões penais.

Isso porque o Supremo Tribunal Federal (STF) já estabeleceu que o antissemitismo é uma forma de racismo, punível nos termos da lei 7.716/89, e o PL ainda peca pela prolixidade. O diploma abre tantas margens para a qualificação de antissemitismo, e com critérios não exatamente inequívocos, que, caso fosse convertido em lei, não faltaria matéria-prima para iniciar processos penais.

Cumpre ressaltar, e isso vale para os dois projetos, que vivemos numa época em que se tornou corriqueiro usar a Justiça para calar desafetos sem necessidade de vencer a causa. O próprio processo já é a pena. A perspectiva de ver-se enredado num julgamento e ter de gastar dinheiro com advogados em muitos casos já funciona como elemento dissuasório e é suficiente para instaurar um ambiente punitivista que provoca a autocensura.

Nenhum desses problemas é novidade. É praticamente impossível proteger grupos de falas hostis ou somente incômodas sem ao mesmo tempo banir discursos que seriam legítimos num regime democrático.

Por isso tradições jurídicas comprometidas com a proteção da liberdade de expressão preferem abordar a questão considerando mais o contexto em que as palavras são ditas (incitação à violência, fraude, perigo iminente) do que seu conteúdo.

Cessar-fogo trouxe alívio, mas é frágil e desperta dúvidas

Por O Globo

Trump aproveita para cantar vitória, mas só os termos do acordo dirão se alcançou os objetivos traçados

Traz sem dúvida alívio o cessar-fogo de duas semanas na guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã e seus satélites. Por 39 dias, o conflito matou milhares no Oriente Médio e levou o barril de petróleo de US$ 70 para US$ 100, provocando um choque na economia global. Mas, apesar de o respiro ter revelado que a ameaça proferida por Donald Trump de “destruir uma civilização” não passava de bravata, seria prematuro exagerar no otimismo. O cessar-fogo revelou-se frágil desde ontem e desperta bem mais dúvidas que tranquilidade.

A primeira diz respeito ao conteúdo do plano intermediado pelo Paquistão, que Trump qualificou como “base para negociação”. Pelo que veio a público, as exigências iranianas são inaceitáveis. A proposta mantém a capacidade de enriquecimento de urânio iraniana e o controle sobre o Estreito de Ormuz, além de suspender todas as sanções econômicas e resoluções do Conselho de Segurança da ONU e da Agência Internacional de Energia Atômica contra o Irã. Aceitar tais condições equivaleria a premiar não apenas os aiatolás, mas qualquer regime terrorista no futuro.

Quando desferiu os ataques, Trump apresentou dois objetivos militares: aniquilar o programa nuclear e a capacidade iraniana de ameaçar os vizinhos. A queda da teocracia também era meta “desejável”. Cinco semanas depois, é indiscutível o êxito da campanha na destruição do poderio bélico do Irã, assim como na decapitação das lideranças do regime, a começar pelo aiatolá Ali Khamenei. A economia do país está em frangalhos, indústrias estão paralisadas, a população amedrontada, e a relação comercial com os países do Golfo Pérsico fraturada.

Apesar disso, os radicais da Guarda Revolucionária continuam no poder, a teocracia mostrou-se resiliente, e o Irã não parou de atacar um só dia. Mesmo nas primeiras horas depois do cessar-fogo, Kuwait, Israel, Emirados Árabes e Arábia Saudita afirmaram ter sido alvo de ataques. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, apressou-se a afirmar que o cessar-fogo não valia para o Líbano e deflagrou novos bombardeios ao Hezbollah em solo libanês.

Ainda que enfraquecidos, é difícil saber quanto os iranianos estarão dispostos a ceder. Não se sabe nem se as lideranças que negociam em nome do país terão poder de cumprir os compromissos assumidos. O mais crítico é que, até agora, não foram encontrados os 440 quilos de urânio enriquecido para uso militar que Trump prometeu resgatar. O Irã reabriu, mas fechou Ormuz novamente depois dos ataques israelenses no Líbano. Mesmo que o estreito permaneça aberto sob controle iraniano, o avanço será insuficiente para recuperar o setor petrolífero. A infraestrutura de ao menos nove países — de campos de exploração de óleo e gás a refinarias e reservatórios — foi destruída. Cerca de 10% da produção mundial parou. Recuperá-la demandará tempo.

De concreto, os 39 dias de guerra serviram para desgastar ainda mais a relação de Trump com os países europeus, que se negaram ou relutaram em prestar ajuda. Ao mesmo tempo, aproximaram Israel dos países árabes, dando sinal de redesenho do mapa geopolítico da região. Trump se revelou de novo um falastrão, propenso a ameaças seguidas de recuos e da busca desesperada por pretextos que lhe permitissem cantar vitória. No plano militar, pode até ter motivos para isso, mas apenas os termos do cessar-fogo permitirão avaliar se alcançou os objetivos traçados.

Processo de cassação da Enel SP atesta eficácia de modelo de privatização

Por O Globo

Aneel tem 30 dias para recomendar que Ministério de Minas e Energia rompa contrato com a concessionária

A diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) decidiu por unanimidade instalar processo de cassação da concessão da Enel SP, distribuidora de energia na capital paulista e noutros 23 municípios da Região Metropolitana. Depois de apresentada a defesa da empresa, num prazo de 30 dias, a Aneel decidirá se recomendará ao Ministério de Minas e Energia a caducidade do contrato. O episódio envolvendo a Enel SP revela uma faceta virtuosa do programa de privatização de serviços públicos: não fosse a independência das agências reguladoras, milhões de clientes continuariam a depender de uma empresa que tem se revelado incapaz de evitar apagões a qualquer temporal.

Em outubro de 2024, quando o procedimento de cassação foi aberto na Aneel, mais de 3 milhões de endereços ficaram sem luz depois das chuvas — repetindo o que já ocorrera em 2023 e voltaria a ocorrer em 2025, com interrupções prolongadas no fornecimento. É verdade que a Enel SP apresentou um plano de recuperação e, de lá para cá, as queixas diminuíram. Também é certo que a Prefeitura tem deixado a desejar no ritmo de poda de árvores, com prejuízo à rede elétrica quando chove — é uma questão que precisa ser resolvida, pois influi na qualidade do serviço.

Mas nada disso significou, de acordo com a Aneel, que a Enel SP tenha alcançado padrões razoáveis de serviço. Seu desempenho tem permanecido abaixo da média das demais distribuidoras. A agência constatou que as falhas continuam, com tempo insatisfatório para atendimento em emergências, mais interrupções superiores a 24 horas e erros no planejamento e na execução de planos de contingência. No voto que prevaleceu na diretoria, a Aneel deu 60 dias para a Enel SP se preparar para possível intervenção. A concessionária afirmou que “seguirá trabalhando para demonstrar firmemente” que tem cumprido “todos os indicadores previstos em contrato e no plano de recuperação”.

Independentemente do desfecho, fica claro o acerto do modelo adotado na privatização, com agências de natureza técnica, independentes e fortes, destinadas a supervisionar o cumprimento de contratos de concessão de serviços públicos. Tal modelo foi inspirado na experiência americana acumulada desde o século XIX — quando foi criada a primeira agência reguladora, a Interstate Commerce Commission (ICC), para garantir exploração eficiente das ferrovias — e na britânica desde o governo Margaret Thatcher.

O caso da Enel SP demonstra que uma agência reguladora tem capacidade de enfrentar de modo eficaz a crise na distribuição de energia elétrica numa região densamente povoada, de grande importância econômica. Mesmo que haja evidências de captura política das agências na nomeação de diretores, o modelo ainda é melhor e mais transparente que a concentração de poderes em ministérios, bem mais vulneráveis a ingerências políticas. As agências reguladoras devem ser fortalecidas, e não esvaziadas como tem tentado fazer o governo federal.

Uma pausa, muitas incertezas

Por O Estado de S. Paulo

EUA e Irã declaram vitória, mas ninguém venceu. A catástrofe foi adiada, não evitada, e uma negociação ambígua oferece riscos de um EUA desmoralizado e um Irã ainda mais perigoso

O prazo expirava às 21h de terça-feira. Horas antes, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou destruir a infraestrutura iraniana e aniquilar a própria sociedade do país – uma retórica genocida, tão inaceitável quanto reveladora dos riscos da escalada. Não foi o primeiro ultimato nem o primeiro recuo. Ainda assim, o mundo preparava-se para o pior. Em vez disso, veio um cessar-fogo de duas semanas, a minutos do limite. As armas se calaram, mas a guerra apenas mudou de forma.

Na trincheira das narrativas, ambos declararam vitória. Os fatos são menos conclusivos. Teerã celebra a sobrevivência do regime e a preservação de sua principal alavanca estratégica. Mas sua demonstração de força se assenta sobre bases frágeis: a economia está seriamente abalada, a inflação avança, a infraestrutura está depauperada e o risco de pressão social interna foi renovado. Washington aponta para os danos às capacidades militares iranianas e para a reabertura do Estreito de Ormuz. Mas o estreito opera sob as mesmas forças que o haviam sequestrado, e a abertura não durou nem 24 horas sem que o Irã a condicionasse ao fim das hostilidades de Israel contra o Hezbollah. O programa nuclear segue praticamente intacto. E a negociação parte agora de propostas iranianas que, semanas atrás, seriam descartadas como inaceitáveis.

O recuo, mais do que escolha, foi uma necessidade. Os preços de energia, a instabilidade dos mercados e o risco de uma escalada regional incontrolável pesaram mais do que qualquer ganho previsível. Há um limite para o quanto democracias toleram custos crescentes e para o quanto ameaças extremas podem ser levadas adiante sem efeitos colaterais mais graves que os problemas que pretendem resolver. Ameaças dessa envergadura, quando alardeadas em público, criam uma pressão difícil de administrar: recuar cobra um preço; cumprir, um preço ainda maior.

A estratégia de Trump partiu de um pressuposto que lhe é familiar desde os tempos de incorporador em Manhattan: toda pressão, levada ao extremo, acaba por encontrar um preço – e, logo, uma concessão. O problema é que nem todo adversário opera segundo essa lógica. O Irã não precisava vencer nem ceder. Bastava resistir. A escalada, que deveria funcionar como instrumento de barganha, passou a operar como teste de permanência. Em conflitos desse tipo, não vence quem impõe mais danos imediatos, mas quem suporta por mais tempo suas consequências. Nesse jogo, regimes como o iraniano operam com vantagens que democracias dificilmente replicam, justamente porque toleram custos que, do outro lado, se provam politicamente insuportáveis.

O cessar-fogo reflete essa assimetria. É curto, condicional e carregado de ambiguidades. O ponto central das negociações – Ormuz – ilustra bem a mudança de equilíbrio. Não foi um bloqueio clássico. Ataques pontuais, ameaça de minas e prêmios de seguro proibitivos bastaram para que operadores privados suspendessem rotas por conta própria. O estreito não precisa ser fechado – apenas tornar-se economicamente inviável. Em Ormuz, o risco já se converteu em poder. Isso só confirma o fato essencial na raiz desta guerra: o regime terrorista dos aiatolás continua a representar uma ameaça estrutural à região e ao mundo, que se tornará muito mais grave caso venha a empunhar uma arma nuclear.

A pausa era difícil de evitar. Mas seu saldo está longe de ser confortável. O Irã sofreu perdas militares relevantes, mas preservou o regime e demonstrou a eficácia de sua principal ferramenta de pressão. A depender dos desdobramentos da interrupção, corre-se o risco de validar essa estratégia: usar a vulnerabilidade energética global como forma de extorsão. O dilema é evidente: prolongar as negociações dá tempo ao Irã; intensificar a guerra amplia riscos que já se mostraram difíceis de conter.

O Armagedon foi evitado – por ora. No lugar da catástrofe imediata, instalou-se uma incerteza mais duradoura. Cada lado encontra no desfecho sinais do que buscava. O essencial, porém, permanece em disputa. Nessas circunstâncias, o intervalo aberto pelo cessar-fogo tende a não ser um caminho para a paz, mas apenas o prelúdio de uma nova fase do conflito. O que se ganhou foi tempo. O que fazer com ele continua sendo a questão decisiva.

Comércio global à margem da OMC

Por O Estado de S. Paulo

O impasse na última reunião ministerial da OMC era previsível, mas a integração econômica sobrevive por inércia. As regras comerciais já não dependem do fórum que as consolidou

A reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Camarões terminou como tantas desde o colapso da Rodada Doha, em 2008: sem acordo. Negociações sobre o comércio digital fracassaram. Tentativas de reformas institucionais empacaram. Delegações voltaram para casa com declarações vagas. O representante comercial dos EUA anunciou que Washington buscaria acordos fora da OMC.

O impasse não surpreende. A organização depende do consenso entre mais de 160 países. A Índia bloqueia avanços em temas sensíveis, como tributação digital. Os EUA mantêm paralisado o órgão de apelação. A China resiste a mudanças que atinjam seus subsídios. A máquina roda formalmente, mas não produz resultados.

Ainda assim, o comércio global não desacelerou na mesma proporção. Cadeias produtivas continuam ligando fábricas na Ásia, centros tecnológicos na Europa e mercados consumidores nas Américas. Fluxos apenas mudam de caminho, deslocando fornecedores e rotas. Os governos não estão emulando o unilateralismo dos EUA, e não se materializou um protecionismo generalizado. Os países negociam, mesmo quando a OMC não decide.

As regras não desapareceram, mas já não dependem do fórum que as consolidou. Desfazer operações globais implicaria custos elevados, perda de escala e ruptura de contratos. Quando políticas comerciais avançam nessa direção, encontram resistência de empresas e mercados. A integração econômica sobrevive por inércia e interesse, mesmo quando a arquitetura institucional vacila.

Nesse cenário, duas respostas ganham espaço. A primeira parte do que já está em curso. Países avançam onde conseguem. Firmam acordos regionais, constroem arranjos plurilaterais, criam mecanismos alternativos de arbitragem. Evitam pontos de veto e buscam resultados concretos. Reaproveitam regras existentes, adaptam mecanismos de resolução de disputas e montam arranjos paralelos para manter alguma previsibilidade nas trocas.

A segunda resposta pondera os custos desse movimento. A proliferação de acordos cria sobreposições, lacunas e conflitos. Regras divergentes aumentam a incerteza. Sem um ponto de referência comum, o risco de disputas comerciais cresce. Por isso, há quem defenda manter esses avanços ligados à OMC, usando sua estrutura como base jurídica, ainda que de forma mais flexível.

Ambas as alternativas têm seus ônus e bônus, seus riscos e desafios, e nenhuma resolve o problema por completo. A primeira entrega resultados mais rápidos, mas fragmenta o sistema. A segunda preserva coerência, mas avança com dificuldade. Na prática, o mundo tenta combiná-las.

Acordos digitais reúnem grupos de países dispostos a negociar. Acordos de livre-comércio como o CPTPP, entre Ásia-Pacífico e Américas, atraem novos candidatos. A União Europeia amplia sua rede de tratados (Mercosul, Índia, Austrália). Ao mesmo tempo, muitos desses arranjos mantêm portas abertas para adesão futura e procuram alinhar regras com padrões existentes. O resultado é um sistema menos centralizado, mas ainda funcional, em que regras seguem sendo produzidas de forma fragmentada, sem desaparecer por completo.

Esse movimento não reconstrói o multilateralismo abrangente do pós-guerra. Aquele modelo dependia de um grau de convergência política que já não existe. Tampouco aponta para um cenário de ruptura generalizada. Empresas, consumidores e governos têm incentivos para manter o comércio no centro da economia global.

O desafio é outro. Grandes rodadas de liberalização são coisa do passado. Trata-se de preservar alguma previsibilidade num sistema mais fragmentado e modular. A alternativa não é entre uma OMC perfeita e o colapso, mas entre um sistema imperfeito e funcional ou o caos baseado na lei do mais forte. Isso exige flexibilidade para contornar bloqueios, mas também algum esforço de coordenação para evitar que o comércio se transforme numa sucessão de pactos desconectados. Sem esse equilíbrio, o risco não é exatamente o fim da globalização, mas sua degradação. Até aqui, o comércio tem resistido mais do que as instituições que deveriam organizá-lo. A letra da OMC está morta. Seu espírito vive.

O Luís XIV da Petrobras

Por O Estado de S. Paulo

Ao prometer cancelar leilão de gás, Lula sinaliza que pode rasgar contratos

O presidente Lula anunciou que irá cancelar o leilão de GLP, o gás de cozinha, realizado pela Petrobras em 31/3. Na ocasião, alguns contratos de fornecimento foram negociados com ágio de 117% em relação ao preço de tabela que a companhia mantém desde 2024.

Em entrevista à TV Record da Bahia, Lula não mediu palavras para achincalhar o leilão, afirmando se tratar de “cretinice” e “bandidagem”. “Vamos rever esse leilão, vamos anular esse leilão”, prometeu. Como se não bastasse, Lula ainda afirmou que a realização do certame ocorreu contra a vontade da direção da empresa, o que beira o absurdo. É improvável que um leilão de tamanha importância tenha ocorrido por voluntarismo de algum funcionário que resolveu passar por cima da direção. A Petrobras se vale desse instrumento para gerir a oferta e a demanda de GLP e ajustar margens de lucro sem mexer na tabela de preços. Até agora, nada se ouviu de Magda Chambriard, presidente da Petrobras, que, a julgar pelas declarações de Lula, não estaria a par do leilão.

Na verdade, a única vontade que foi contrariada foi a do próprio presidente. Amargando queda na popularidade em pleno ano eleitoral, Lula se mostra disposto a rasgar contratos, prejudicando a empresa, seus clientes e ampliando a sensação de insegurança jurídica no Brasil. Tudo isso sob a desculpa de que o “povo pobre não pagará, em hipótese alguma, o preço dessa guerra”, em referência aos efeitos do conflito entre EUA e Israel contra o Irã sobre os preços.

Ora, desautorizar a Petrobras dessa maneira não atende aos interesses dos brasileiros de nenhuma maneira. Ao contrário: reforça no mercado a imagem de um país onde o cumprimento de contratos depende do humor de quem está no poder, e tal insegurança obriga o Brasil a pagar um prêmio maior àqueles que se dispõem a investir por aqui, afetando o crescimento e a geração de empregos.

Mesmo que o leilão não seja cancelado – até onde se sabe a Petrobras pretende, felizmente, honrar os contratos e entregar o GLP que se comprometeu a vender na semana passada –, o estrago já está feito.

Ao tratar a Petrobras como subalterna a seus desejos, Lula age como se fosse um Luís XIV a proclamar: “A Petrobras sou eu”. Isso cria um clima tenso na companhia e prejudica a tomada de decisões estratégicas daqui em diante. Como prova disso, o Conselho de Administração da Petrobras acaba de aprovar o “encerramento antecipado” do mandato do diretor-executivo de Logística e Comercialização, Claudio Schlosser, a quem estava subordinada a área responsável pelo leilão que tanto desagradou o presidente da República.

É fato que, como principal acionista e controlador da Petrobras, o governo federal tem mais força para impor seus interesses. Mas uma coisa é o governo propor medidas que não necessariamente agradam aos demais acionistas. Outra, bem diferente e mais grave, é sugerir que o contrato assinado hoje será desrespeitado amanhã.

A guerra no Irã vai acabar em algum momento, mas o governo deveria se limitar a trabalhar para mitigar seus efeitos, e não criar mais problemas. Preocupado com as pesquisas eleitorais que põem em dúvida sua reeleição, no entanto, Lula tem sua guerra particular para travar – deixando um rastro de prejuízos para o País.

Frágil cessar-fogo alivia tensão, mas não elimina incerteza

Por Valor Econômico

Mesmo se chegar ao fim das duas semanas, a trégua não muda um cenário de preços de energia mais elevados no médio prazo

O frágil cessar-fogo de duas semanas acertado entre EUA e Irã trouxe relativo alívio para todo o mundo, após uma perigosa escalada em uma guerra que já matou milhares — a maioria iranianos — e que interrompeu o fluxo de energia no vital Estreito de Ormuz, com severo impacto na economia global. Apesar da incerteza, os mercados de energia reagiram ao anúncio com euforia: os preços do petróleo caíram até 16%, para menos de US$ 100 por barril, mesmo com as notícias de novos ataques contra a infraestrutura de petróleo na região e com o fato de mais de 800 navios continuarem parados na entrada do estreito à espera de clareza sobre a segurança da passagem.

Como todos os acordos fechados pelo imprevisível presidente americano Donald Trump, há dúvidas sobre a durabilidade da trégua que, em menos de 24 horas, já passava pela primeira prova de fogo, com a República Islâmica suspendendo a passagem de petroleiros por Ormuz em resposta ao maior bombardeio de Israel no sul do Líbano contra alvos do Hezbollah, segundo informações da mídia estatal iraniana. O governo do premiê israelense Benjamin Netanyahu afirmou que o Líbano está fora do acordo de cessar-fogo temporário — embora esse seja um dos 10 pontos propostos pelo Irã para interromper o conflito. Mesmo se chegar ao fim das duas semanas, a trégua não elimina as incertezas e nem muda um cenário de preços de energia mais elevados no médio prazo em virtude dos danos provocados às instalações de petróleo e gás no Oriente Médio.

A guerra também mudou o status do Estreito de Ormuz, apesar de Trump ter anunciado a “abertura completa, imediata e segura” da via marítima. O Irã comunicou ontem que as empresas de transporte marítimo terão de informar o valor de sua carga e pagar um pedágio — equivalente a US$ 1 por barril de petróleo — em criptomoeda para transitarem por Ormuz, mais um custo para a logística que será paga por consumidores de todo o mundo.

O trânsito pelo estreito é uma das questões mais espinhosas enfrentadas pelos negociadores dos dois lados que correm contra o tempo para transformar um cessar-fogo temporário em uma paz prolongada. O regime iraniano busca manter o controle sobre a via, mas para os aliados árabes dos EUA no Golfo, este seria um cenário catastrófico. A Arábia Saudita já sinalizou que permitir que o Irã continue controlando Ormuz seria uma linha vermelha, pois isso poderia alterar fundamentalmente o equilíbrio de poder dentro da Opep+, o cartel de produtores liderados pelos sauditas, dando a Teerã um potencial poder de veto sobre as exportações de membros rivais.

Em seis semanas de conflito, o que começou como uma questão nuclear — impedir o Irã de obter uma arma atômica, entre os vários objetivos anunciados por Trump — se tornou a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde antes passavam cerca de 20% das remessas globais de petróleo e gás natural liquefeito. A paralisação do tráfego pelo Irã elevou drasticamente os preços globais da energia. Cerca de 187 navios-tanques, com 175 milhões de barris de petróleo e derivados, estão no Golfo Pérsico aguardando para começar a se movimentar, segundo dados da Kpler.

Grandes operadoras marítimas disseram ontem que mantinham uma abordagem cautelosa enquanto aguardavam detalhes sobre como e se o estreito poderá ser reaberto. Nenhuma embarcação, com exceção de duas ligadas ao Irã, está atualmente atravessando a região. Vários operadores acreditam que a situação nos próximos dias se assemelhará ao sistema que se desenvolveu nas últimas duas semanas, no qual apenas um pequeno número de navios autorizados pelo Irã recebe permissão para passar por uma rota específica.

Mesmo que o Irã reabra totalmente o Estreito de Ormuz, analistas alertam que o fornecimento de combustíveis permanecerá restrito e os preços continuarão elevados por meses em virtude dos danos à capacidade de refino em todo o Oriente Médio. Desde o início da guerra, dezenas de refinarias, campos de petróleo, usinas de gás, portos e outras infraestruturas energéticas em pelo menos nove países — do Irã aos Emirados Árabes Unidos — foram alvos de ataques de mísseis e drones. No total, 10% ou mais do fornecimento mundial de petróleo foi interrompido.

A guerra também mudou fundamentalmente as perspectivas para o comércio e a economia mundial, segundo apontam dois relatórios divulgados esta semana. As persistentes tensões geopolíticas e o aumento nos custos lançam uma sombra sobre o comércio global, que cresceu 7,5% no ano passado e atingiu um recorde de US$ 35 trilhões. Essas mesmas tensões estão levando os governos de metade dos países do mundo a aumentar seus orçamentos com defesa, levando a maior endividamento em um momento que a maioria dos governos ainda enfrenta uma situação fiscal crítica, segundo o FMI.

O cessar-fogo no Oriente Médio é uma boa notícia, mas é apenas o primeiro passo para um longo processo de normalização do setor de energia, cuja escalada nos preços ameaça o mundo com um cenário de estagflação — estagnação econômica e inflação elevada.

Nosso lugar na desordem global

Por Correio Braziliense

Incidir diretamente na crise em andamento está, claramente, além do alcance da diplomacia brasileira. Mas o Brasil tem diante de si a oportunidade de se fazer ouvir justamente no que diz respeito à arquitetura do sistema ONU

As primeiras 24 horas desde o anúncio do cessar-fogo bilateral entre Estados Unidos e Irã bastaram para esclarecer ao menos um ponto, entre tantas incertezas relacionadas ao conflito: cada passo à frente deve ser valorizado, até comemorado. Mas é imprudente ver em qualquer avanço algum tipo de garantia para uma paz sólida e duradoura.

A guerra iniciada no último dia de fevereiro tem raízes muito mais profundas que os itens negociados entre os dois lados, com intermediação do Paquistão. Incluem terceiras e quartas partes, como Israel e o Líbano. E, na ausência de documentos firmados e publicados, dão margem a controvérsias — como as que se instalaram, ontem, em torno dos bombardeios israelenses maciços sobre a capital libanesa.

Não se trata, à primeira vista, de episódios que possam, por si sós, pôr a perder a trégua negociada a duríssimas penas, depois de 40 dias de hostilidades. Mas eles ilustram e dão dimensões aos obstáculos colocados no caminho da diplomacia.

Em cada ponta do conflito, injunções domésticas pesam sobre as decisões tomadas nas instâncias de comando. EUA e Israel traçam metas e fazem cálculos com as urnas no horizonte. Em situações distintas, Donald Trump e o premiê Benjamin Netanyahu têm o futuro político vinculado ao veredicto dos eleitores. No Irã, está em jogo o futuro de uma nova liderança, que ascende para substituir os dirigentes abatidos em bombardeios — mártires, na constelação ideológica do islã xiita.

No Líbano, a destruição material, as perdas humanas e o deslocamento em massa de população fazem estremecer a frágil convivência entre as confissões religiosas que compõem o mosaico da população — um terreno social riscado por falhas geológicas que produziram 15 anos de guerra civil, entre 1975 e 1990.

Uma apreciação ligeira e panorâmica dos desafios entrelaçados basta para que se compreenda a fragilidade do processo em curso. Visto da distância conveniente em que nos encontramos, o cenário parece gritar pela urgência de um sistema de relações internacionais capaz de circunscrever disputas, conter escaladas de violência e, sobretudo, inibir seu alastramento.

Foi sob esses lemas que a Organização das Nações Unidas (ONU) nasceu, em 1945, entre escombros e cicatrizes da Segunda Guerra Mundial. Depois de oito décadas, quatro delas aprisionadas nos meandros da Guerra Fria, o sistema multilateral concebido para disciplinar as relações internacionais dá sinais de esgotamento. 

Incidir diretamente na crise em andamento está, claramente, além do alcance da diplomacia brasileira. Mas, até pela relativa equidistância entre as partes envolvidas, o país tem diante de si a oportunidade de se fazer ouvir justamente no que diz respeito à arquitetura do sistema ONU. Como porta-voz da América Latina e do chamado Sul Global, uma parte do mundo que participa apenas da distribuição dos danos — notadamente, a montanha-russa nos mercados globais —, o Brasil tem aportes a fazer nas discussões destinadas a dar forma e expressão a uma ordem internacional multipolar.

Nela, e apenas nela, pode haver caminho para que não recaiam sobre todos os ônus da insanidade cometida por uns poucos.

Uma permanente sensação de insegurança

Por O Povo (CE)

O eleitor tem de rechaçar argumentos simplificadores, com fórmulas mágicas para resolver o problema de uma hora para outra

Dados divulgados pelo governo do Estado do Ceará mostram que o primeiro trimestre de 2026 foi o menos violento no Estado, em 17 anos, desde o início da série histórica iniciada em 2009. Acompanhando essa tendência, também se registrou o menor índice de violência durante a Semana Santa desde o ano de 2009.

É importante registrar que, apesar da queda, o número dos chamados crimes violentos letais intencionais (CVLI) ainda é alto, mesmo caindo consistentemente.

Quanto aos dados, foram 472 homicídios no primeiro trimestre deste ano, queda de 35,3% em relação a 2025. Na Semana Santa foram anotados 24 homicídios, redução de 58,33% ante o período anterior.

Portanto, é preciso lembrar que o governo do Estado tem de continuar investindo nas medidas que apresentam resultados. O povo cearense tem de readquirir o seu direito de viver com um mínimo de tranquilidade, sem medos ou sobressaltos, ao transitar pela cidade ou pelos seus bairros e comunidades.

É comum, quando há queda de homicídios em determinadas localidades, criar-se uma guerra de "narrativas". Autoridades defendem que a aplicação de eventuais medidas na área de segurança pública é o que leva à queda nos homicídios.

A oposição, por sua vez, em determinados contextos, atribui-se a redução a períodos em que há "pacificação" entre organizações criminosas. Ou pelo domínio territorial de uma delas ou por acordos de não agressão entre as facções.

Um assunto complexo como segurança pública deveria ser tratado com mais sensatez. Não se pode atribuir a violência a um único fator, nem tornar esse debate uma arena de acusações, o que não interessa a ninguém. A não ser àqueles que caçam votos com discursos populistas e inócuos.

Além disso, mesmo com os índices de violência caindo, a percepção das pessoas não acompanha essa queda, produzindo uma sensação permanente de insegurança.

Como lembrou o jornalista Érico Firmo em sua coluna na edição desta quarta-feira, pesquisa recente do instituto Datafolha perguntou qual seria o principal problema do Ceará. As respostas espontâneas foram violência, segurança, polícia ou "acabar com bandidos", com índice de 43%. Em segundo lugar ficou "saúde", com 22%. As demais respostas como desemprego, educação, infraestrutura e corrupção tiveram alcançaram no máximo 5%.

Assim, a questão da segurança pública terá papel central nas eleições que se aproximam. O que se espera é que os candidatos façam um debate responsável, que promova mais luz do que barulho.

O eleitor, por sua vez, tem de rechaçar argumentos simplificadores, com fórmulas mágicas para resolver o problema de uma hora para outra. Trata-se de enganação, mas o truque continua a ser usado.

 


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