Tentativa de trégua no Irã atesta inépcia de Trump
Por Folha de S. Paulo
Para acalmar eleitores e mercados, americano
recua de ultimato pela 5ª vez numa guerra sem objetivo claro
Nenhum dos rivais concorda com os termos tornados públicos da base de negociações, proposta pelo Irã; cessar-fogo é frágil
Após muito suspense, passou a vigorar, na
noite de terça-feira (7), um cessar-fogo na guerra de Estados
Unidos e Israel contra
o Irã.
Ao menos, foi o que disse acreditar Donald Trump,
ciente dos riscos inerentes à empreitada.
De um lado, a pressão global devido à escalada dos preços de energia decorrente do fechamento do estreito de Hormuz —o corredor de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo— pela teocracia islâmica.
De outro, o temor doméstico da impopularidade
da guerra entre os americanos, que irão às urnas em novembro renovar o
Congresso, onde Trump controla hoje Câmara e Senado. Há muito a perder,
incluindo a segurança contra um processo de impeachment.
A guerra contra um regime aberrante poderia
até ser justificada em outros contextos, mas não no atual, quando os aiatolás
se viam encurralados por protestos e enfraquecidos.
Sem justificativa clara, Trump passou a sacar
uma por ocasião: ora os riscos do programa nuclear iraniano, ora a mudança de
regime, ora Hormuz.
Fixado na reabertura do estreito, em 21 de
março deu um ultimato. Obliteraria usinas de energia dos rivais se um acordo
não fosse alcançado para reativar o trânsito de navios. Em quatro momentos,
adiou o prazo.
Na terça (7), tudo estaria acabado. O
republicano, talvez embevecido pela operação que salvou dois pilotos derrubados
sobre o Irã no fim de semana, decidiu dar ares apocalípticos à sua ameaça.
"Uma civilização inteira irá morrer
nesta noite", escreveu em uma rede social. Se um crime de guerra é algo
trivial em combate e a punição depende do lado em que está o acusado no
desfecho, aqui Trump sugeriu genocídio. Foi repreendido até por aliados.
Horas depois de uma negociação descrita como
intensa pelos participantes, anunciou-se
a trégua de duas semanas.
Mercados globais ficaram aliviados, mas não
por muito tempo. Já nesta quarta (8), Israel
lançou o mais devastador ataque da atual campanha contra o
Hezbollah libanês, aliado do Irã. Declarou, com respaldo dos EUA, que o vizinho
não faz parte da trégua.
Os iranianos voltaram a lançar mísseis golfo
Pérsico afora. A tensão se espalhou para Hormuz, e a mídia de Teerã falou em
bloqueio de navios. A Casa Branca alegou que era só propaganda e anunciou que a
negociação começa no sábado (11), no Paquistão.
Aí há outro problema da fragilíssima trégua.
Nenhum dos rivais concorda com os termos tornados públicos da base de
negociações, proposta pelo Irã. Para a teocracia, sua capacidade de enriquecer
urânio estará garantida; já Trump quer vetá-la.
Assim, resta a certeza de que, se sobreviver
à sua primeira noite, o cessar-fogo, que é um monumento à inépcia diplomática
de Trump, terá diversos momentos posteriores para provar-se efetivo. Enquanto
isso, o melhor que poderia ocorrer seria Israel e Irã adotarem algum comedimento.
Dois projetos de lei põem em risco a
liberdade de expressão
Por Folha de S. Paulo
Falhas nos PLs da Misoginia e do
Antissemitismo abrem margem para judicialização de discursos legítimos
Tornou-se corriqueiro usar a Justiça para
censurar desafetos; normas deveriam considerar mais os contextos das falas do
que conteúdos
O Brasil e o mundo vivem dias difíceis para a
liberdade de expressão, que sofre ataques à esquerda e à direita. Por aqui,
dois projetos de lei dão exemplo disso.
O primeiro é o chamado PL da Misoginia, que foi
aprovado por unanimidade no Senado e
seguiu para a Câmara dos
Deputados. Há que louvar a disposição de combater a violência contra
a mulher. A proposta, porém, é tecnicamente ruim, por estabelecer tipos
excessivamente abertos, com penas que podem chegar a cinco anos de reclusão.
Pelo texto, considera-se misoginia "a conduta que exteriorize ódio ou
aversão às mulheres".
Se o termo "ódio" ainda implica ao
menos um sentimento forte, "aversão" pode significar apenas
antipatia. E, se antipatia se tornar crime, precisaremos construir muitos
presídios. Tipos imprecisos, que já são um problema no direito penal ordinário,
tornam-se verdadeiros entraves em leis que impõem limites a discursos.
Já o PL do Antissemitismo, proposto por
Tabata Amaral (PSB-SP) e mais 44 deputados, pode ser descrito como uma tentativa
sociológica de definir o termo. Nominalmente, não trata de matéria penal, mas
pretende "instruir políticas públicas". Na prática, entretanto, o
texto, se aprovado, terá repercussões penais.
Isso porque o Supremo Tribunal Federal (STF) já
estabeleceu que o antissemitismo é uma forma de racismo, punível nos termos da
lei 7.716/89, e o PL ainda peca pela prolixidade. O diploma abre tantas margens
para a qualificação de antissemitismo, e com critérios
não exatamente inequívocos, que, caso fosse convertido em lei, não
faltaria matéria-prima para iniciar processos penais.
Cumpre ressaltar, e isso vale para os dois
projetos, que vivemos numa época em que se tornou corriqueiro usar a Justiça
para calar desafetos sem necessidade de vencer a causa. O próprio processo já é
a pena. A perspectiva de ver-se enredado num julgamento e ter de gastar
dinheiro com advogados em muitos casos já funciona como elemento dissuasório e
é suficiente para instaurar um ambiente punitivista que provoca a autocensura.
Nenhum desses problemas é novidade. É
praticamente impossível proteger grupos de falas hostis ou somente incômodas
sem ao mesmo tempo banir
discursos que seriam legítimos num regime democrático.
Por isso tradições jurídicas comprometidas com a proteção da liberdade de expressão preferem abordar a questão considerando mais o contexto em que as palavras são ditas (incitação à violência, fraude, perigo iminente) do que seu conteúdo.
Cessar-fogo trouxe alívio, mas é frágil e
desperta dúvidas
Por O Globo
Trump aproveita para cantar vitória, mas só
os termos do acordo dirão se alcançou os objetivos traçados
Traz sem dúvida alívio o cessar-fogo de duas
semanas na guerra travada por Estados
Unidos e Israel contra o Irã e seus satélites.
Por 39 dias, o conflito matou milhares no Oriente Médio e levou o barril de
petróleo de US$ 70 para US$ 100, provocando um choque na economia global. Mas,
apesar de o respiro ter revelado que a ameaça proferida por Donald Trump de
“destruir uma civilização” não passava de bravata, seria prematuro exagerar no
otimismo. O cessar-fogo revelou-se frágil desde ontem e desperta bem mais
dúvidas que tranquilidade.
A primeira diz respeito ao conteúdo do plano
intermediado pelo Paquistão, que Trump qualificou como “base para negociação”.
Pelo que veio a público, as exigências iranianas são inaceitáveis. A proposta
mantém a capacidade de enriquecimento de urânio iraniana e o controle sobre o
Estreito de Ormuz, além de suspender todas as sanções econômicas e resoluções
do Conselho de Segurança da ONU e da Agência Internacional de Energia Atômica
contra o Irã. Aceitar tais condições equivaleria a premiar não apenas os
aiatolás, mas qualquer regime terrorista no futuro.
Quando desferiu os ataques, Trump apresentou
dois objetivos militares: aniquilar o programa nuclear e a capacidade iraniana
de ameaçar os vizinhos. A queda da teocracia também era meta “desejável”. Cinco
semanas depois, é indiscutível o êxito da campanha na destruição do poderio
bélico do Irã, assim como na decapitação das lideranças do regime, a começar
pelo aiatolá Ali Khamenei. A economia do país está em frangalhos, indústrias
estão paralisadas, a população amedrontada, e a relação comercial com os países
do Golfo Pérsico fraturada.
Apesar disso, os radicais da Guarda Revolucionária
continuam no poder, a teocracia mostrou-se resiliente, e o Irã não parou de
atacar um só dia. Mesmo nas primeiras horas depois do cessar-fogo, Kuwait,
Israel, Emirados Árabes e Arábia Saudita afirmaram ter sido alvo de ataques. O
primeiro-ministro israelense, Benjamin
Netanyahu, apressou-se a afirmar que o cessar-fogo não valia para
o Líbano e
deflagrou novos bombardeios ao Hezbollah em solo libanês.
Ainda que enfraquecidos, é difícil saber
quanto os iranianos estarão dispostos a ceder. Não se sabe nem se as lideranças
que negociam em nome do país terão poder de cumprir os compromissos assumidos.
O mais crítico é que, até agora, não foram encontrados os 440 quilos de urânio
enriquecido para uso militar que Trump prometeu resgatar. O Irã reabriu, mas
fechou Ormuz novamente depois dos ataques israelenses no Líbano. Mesmo que o
estreito permaneça aberto sob controle iraniano, o avanço será insuficiente
para recuperar o setor petrolífero. A infraestrutura de ao menos nove países —
de campos de exploração de óleo e gás a refinarias e reservatórios — foi
destruída. Cerca de 10% da produção mundial parou. Recuperá-la demandará tempo.
De concreto, os 39 dias de guerra serviram
para desgastar ainda mais a relação de Trump com os países europeus, que se
negaram ou relutaram em prestar ajuda. Ao mesmo tempo, aproximaram Israel dos
países árabes, dando sinal de redesenho do mapa geopolítico da região. Trump se
revelou de novo um falastrão, propenso a ameaças seguidas de recuos e da busca
desesperada por pretextos que lhe permitissem cantar vitória. No plano militar,
pode até ter motivos para isso, mas apenas os termos do cessar-fogo permitirão
avaliar se alcançou os objetivos traçados.
Processo de cassação da Enel SP atesta
eficácia de modelo de privatização
Por O Globo
Aneel tem 30 dias para recomendar que
Ministério de Minas e Energia rompa contrato com a concessionária
A diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica
(Aneel)
decidiu por unanimidade instalar processo de cassação da concessão da Enel SP,
distribuidora de energia na capital paulista e noutros 23 municípios da Região
Metropolitana. Depois de apresentada a defesa da empresa, num prazo de 30 dias,
a Aneel decidirá se recomendará ao Ministério de
Minas e Energia a caducidade do contrato. O episódio envolvendo
a Enel SP revela uma faceta virtuosa do programa de privatização de serviços
públicos: não fosse a independência das agências reguladoras, milhões de
clientes continuariam a depender de uma empresa que tem se revelado incapaz de
evitar apagões a qualquer temporal.
Em outubro de 2024, quando o procedimento de
cassação foi aberto na Aneel, mais de 3 milhões de endereços ficaram sem luz
depois das chuvas — repetindo o que já ocorrera em 2023 e voltaria a ocorrer em
2025, com interrupções prolongadas no fornecimento. É verdade que a Enel SP
apresentou um plano de recuperação e, de lá para cá, as queixas diminuíram.
Também é certo que a Prefeitura tem deixado a desejar no ritmo de poda de
árvores, com prejuízo à rede elétrica quando chove — é uma questão que precisa
ser resolvida, pois influi na qualidade do serviço.
Mas nada disso significou, de acordo com a
Aneel, que a Enel SP tenha alcançado padrões razoáveis de serviço. Seu
desempenho tem permanecido abaixo da média das demais distribuidoras. A agência
constatou que as falhas continuam, com tempo insatisfatório para atendimento em
emergências, mais interrupções superiores a 24 horas e erros no planejamento e
na execução de planos de contingência. No voto que prevaleceu na diretoria, a
Aneel deu 60 dias para a Enel SP se preparar para possível intervenção. A
concessionária afirmou que “seguirá trabalhando para demonstrar firmemente” que
tem cumprido “todos os indicadores previstos em contrato e no plano de
recuperação”.
Independentemente do desfecho, fica claro o
acerto do modelo adotado na privatização, com agências de natureza técnica,
independentes e fortes, destinadas a supervisionar o cumprimento de contratos
de concessão de serviços públicos. Tal modelo foi inspirado na experiência
americana acumulada desde o século XIX — quando foi criada a primeira agência
reguladora, a Interstate Commerce Commission (ICC), para garantir exploração
eficiente das ferrovias — e na britânica desde o governo Margaret Thatcher.
O caso da Enel SP demonstra que uma agência reguladora tem capacidade de enfrentar de modo eficaz a crise na distribuição de energia elétrica numa região densamente povoada, de grande importância econômica. Mesmo que haja evidências de captura política das agências na nomeação de diretores, o modelo ainda é melhor e mais transparente que a concentração de poderes em ministérios, bem mais vulneráveis a ingerências políticas. As agências reguladoras devem ser fortalecidas, e não esvaziadas como tem tentado fazer o governo federal.
Uma pausa, muitas incertezas
Por O Estado de S. Paulo
EUA e Irã declaram vitória, mas ninguém
venceu. A catástrofe foi adiada, não evitada, e uma negociação ambígua oferece
riscos de um EUA desmoralizado e um Irã ainda mais perigoso
O prazo expirava às 21h de terça-feira. Horas
antes, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou destruir a infraestrutura
iraniana e aniquilar a própria sociedade do país – uma retórica genocida, tão
inaceitável quanto reveladora dos riscos da escalada. Não foi o primeiro
ultimato nem o primeiro recuo. Ainda assim, o mundo preparava-se para o pior.
Em vez disso, veio um cessar-fogo de duas semanas, a minutos do limite. As
armas se calaram, mas a guerra apenas mudou de forma.
Na trincheira das narrativas, ambos
declararam vitória. Os fatos são menos conclusivos. Teerã celebra a
sobrevivência do regime e a preservação de sua principal alavanca estratégica.
Mas sua demonstração de força se assenta sobre bases frágeis: a economia está
seriamente abalada, a inflação avança, a infraestrutura está depauperada e o
risco de pressão social interna foi renovado. Washington aponta para os danos
às capacidades militares iranianas e para a reabertura do Estreito de Ormuz.
Mas o estreito opera sob as mesmas forças que o haviam sequestrado, e a
abertura não durou nem 24 horas sem que o Irã a condicionasse ao fim das
hostilidades de Israel contra o Hezbollah. O programa nuclear segue
praticamente intacto. E a negociação parte agora de propostas iranianas que, semanas
atrás, seriam descartadas como inaceitáveis.
O recuo, mais do que escolha, foi uma
necessidade. Os preços de energia, a instabilidade dos mercados e o risco de
uma escalada regional incontrolável pesaram mais do que qualquer ganho
previsível. Há um limite para o quanto democracias toleram custos crescentes e
para o quanto ameaças extremas podem ser levadas adiante sem efeitos colaterais
mais graves que os problemas que pretendem resolver. Ameaças dessa envergadura,
quando alardeadas em público, criam uma pressão difícil de administrar: recuar
cobra um preço; cumprir, um preço ainda maior.
A estratégia de Trump partiu de um
pressuposto que lhe é familiar desde os tempos de incorporador em Manhattan:
toda pressão, levada ao extremo, acaba por encontrar um preço – e, logo, uma
concessão. O problema é que nem todo adversário opera segundo essa lógica. O
Irã não precisava vencer nem ceder. Bastava resistir. A escalada, que deveria
funcionar como instrumento de barganha, passou a operar como teste de permanência.
Em conflitos desse tipo, não vence quem impõe mais danos imediatos, mas quem
suporta por mais tempo suas consequências. Nesse jogo, regimes como o iraniano
operam com vantagens que democracias dificilmente replicam, justamente porque
toleram custos que, do outro lado, se provam politicamente insuportáveis.
O cessar-fogo reflete essa assimetria. É
curto, condicional e carregado de ambiguidades. O ponto central das negociações
– Ormuz – ilustra bem a mudança de equilíbrio. Não foi um bloqueio clássico.
Ataques pontuais, ameaça de minas e prêmios de seguro proibitivos bastaram para
que operadores privados suspendessem rotas por conta própria. O estreito não
precisa ser fechado – apenas tornar-se economicamente inviável. Em Ormuz, o
risco já se converteu em poder. Isso só confirma o fato essencial na raiz desta
guerra: o regime terrorista dos aiatolás continua a representar uma ameaça
estrutural à região e ao mundo, que se tornará muito mais grave caso venha a
empunhar uma arma nuclear.
A pausa era difícil de evitar. Mas seu saldo
está longe de ser confortável. O Irã sofreu perdas militares relevantes, mas
preservou o regime e demonstrou a eficácia de sua principal ferramenta de
pressão. A depender dos desdobramentos da interrupção, corre-se o risco de
validar essa estratégia: usar a vulnerabilidade energética global como forma de
extorsão. O dilema é evidente: prolongar as negociações dá tempo ao Irã;
intensificar a guerra amplia riscos que já se mostraram difíceis de conter.
O Armagedon foi evitado – por ora. No lugar
da catástrofe imediata, instalou-se uma incerteza mais duradoura. Cada lado
encontra no desfecho sinais do que buscava. O essencial, porém, permanece em
disputa. Nessas circunstâncias, o intervalo aberto pelo cessar-fogo tende a não
ser um caminho para a paz, mas apenas o prelúdio de uma nova fase do conflito.
O que se ganhou foi tempo. O que fazer com ele continua sendo a questão
decisiva.
Comércio global à margem da OMC
Por O Estado de S. Paulo
O impasse na última reunião ministerial da
OMC era previsível, mas a integração econômica sobrevive por inércia. As regras
comerciais já não dependem do fórum que as consolidou
A reunião ministerial da Organização Mundial
do Comércio (OMC) em Camarões terminou como tantas desde o colapso da Rodada
Doha, em 2008: sem acordo. Negociações sobre o comércio digital fracassaram.
Tentativas de reformas institucionais empacaram. Delegações voltaram para casa
com declarações vagas. O representante comercial dos EUA anunciou que
Washington buscaria acordos fora da OMC.
O impasse não surpreende. A organização
depende do consenso entre mais de 160 países. A Índia bloqueia avanços em temas
sensíveis, como tributação digital. Os EUA mantêm paralisado o órgão de
apelação. A China resiste a mudanças que atinjam seus subsídios. A máquina roda
formalmente, mas não produz resultados.
Ainda assim, o comércio global não
desacelerou na mesma proporção. Cadeias produtivas continuam ligando fábricas
na Ásia, centros tecnológicos na Europa e mercados consumidores nas Américas.
Fluxos apenas mudam de caminho, deslocando fornecedores e rotas. Os governos
não estão emulando o unilateralismo dos EUA, e não se materializou um
protecionismo generalizado. Os países negociam, mesmo quando a OMC não decide.
As regras não desapareceram, mas já não
dependem do fórum que as consolidou. Desfazer operações globais implicaria
custos elevados, perda de escala e ruptura de contratos. Quando políticas
comerciais avançam nessa direção, encontram resistência de empresas e mercados.
A integração econômica sobrevive por inércia e interesse, mesmo quando a
arquitetura institucional vacila.
Nesse cenário, duas respostas ganham espaço.
A primeira parte do que já está em curso. Países avançam onde conseguem. Firmam
acordos regionais, constroem arranjos plurilaterais, criam mecanismos
alternativos de arbitragem. Evitam pontos de veto e buscam resultados
concretos. Reaproveitam regras existentes, adaptam mecanismos de resolução de
disputas e montam arranjos paralelos para manter alguma previsibilidade nas
trocas.
A segunda resposta pondera os custos desse
movimento. A proliferação de acordos cria sobreposições, lacunas e conflitos.
Regras divergentes aumentam a incerteza. Sem um ponto de referência comum, o
risco de disputas comerciais cresce. Por isso, há quem defenda manter esses
avanços ligados à OMC, usando sua estrutura como base jurídica, ainda que de
forma mais flexível.
Ambas as alternativas têm seus ônus e bônus,
seus riscos e desafios, e nenhuma resolve o problema por completo. A primeira
entrega resultados mais rápidos, mas fragmenta o sistema. A segunda preserva
coerência, mas avança com dificuldade. Na prática, o mundo tenta combiná-las.
Acordos digitais reúnem grupos de países
dispostos a negociar. Acordos de livre-comércio como o CPTPP, entre
Ásia-Pacífico e Américas, atraem novos candidatos. A União Europeia amplia sua
rede de tratados (Mercosul, Índia, Austrália). Ao mesmo tempo, muitos desses
arranjos mantêm portas abertas para adesão futura e procuram alinhar regras com
padrões existentes. O resultado é um sistema menos centralizado, mas ainda
funcional, em que regras seguem sendo produzidas de forma fragmentada, sem
desaparecer por completo.
Esse movimento não reconstrói o
multilateralismo abrangente do pós-guerra. Aquele modelo dependia de um grau de
convergência política que já não existe. Tampouco aponta para um cenário de
ruptura generalizada. Empresas, consumidores e governos têm incentivos para
manter o comércio no centro da economia global.
O desafio é outro. Grandes rodadas de
liberalização são coisa do passado. Trata-se de preservar alguma
previsibilidade num sistema mais fragmentado e modular. A alternativa não é
entre uma OMC perfeita e o colapso, mas entre um sistema imperfeito e funcional
ou o caos baseado na lei do mais forte. Isso exige flexibilidade para contornar
bloqueios, mas também algum esforço de coordenação para evitar que o comércio
se transforme numa sucessão de pactos desconectados. Sem esse equilíbrio, o
risco não é exatamente o fim da globalização, mas sua degradação. Até aqui, o
comércio tem resistido mais do que as instituições que deveriam organizá-lo. A
letra da OMC está morta. Seu espírito vive.
O Luís XIV da Petrobras
Por O Estado de S. Paulo
Ao prometer cancelar leilão de gás, Lula
sinaliza que pode rasgar contratos
O presidente Lula anunciou que irá cancelar o
leilão de GLP, o gás de cozinha, realizado pela Petrobras em 31/3. Na ocasião,
alguns contratos de fornecimento foram negociados com ágio de 117% em relação
ao preço de tabela que a companhia mantém desde 2024.
Em entrevista à TV Record da Bahia, Lula não
mediu palavras para achincalhar o leilão, afirmando se tratar de “cretinice” e
“bandidagem”. “Vamos rever esse leilão, vamos anular esse leilão”, prometeu.
Como se não bastasse, Lula ainda afirmou que a realização do certame ocorreu
contra a vontade da direção da empresa, o que beira o absurdo. É improvável que
um leilão de tamanha importância tenha ocorrido por voluntarismo de algum
funcionário que resolveu passar por cima da direção. A Petrobras se vale desse
instrumento para gerir a oferta e a demanda de GLP e ajustar margens de lucro
sem mexer na tabela de preços. Até agora, nada se ouviu de Magda Chambriard,
presidente da Petrobras, que, a julgar pelas declarações de Lula, não estaria a
par do leilão.
Na verdade, a única vontade que foi
contrariada foi a do próprio presidente. Amargando queda na popularidade em
pleno ano eleitoral, Lula se mostra disposto a rasgar contratos, prejudicando a
empresa, seus clientes e ampliando a sensação de insegurança jurídica no
Brasil. Tudo isso sob a desculpa de que o “povo pobre não pagará, em hipótese
alguma, o preço dessa guerra”, em referência aos efeitos do conflito entre EUA
e Israel contra o Irã sobre os preços.
Ora, desautorizar a Petrobras dessa maneira
não atende aos interesses dos brasileiros de nenhuma maneira. Ao contrário:
reforça no mercado a imagem de um país onde o cumprimento de contratos depende
do humor de quem está no poder, e tal insegurança obriga o Brasil a pagar um
prêmio maior àqueles que se dispõem a investir por aqui, afetando o crescimento
e a geração de empregos.
Mesmo que o leilão não seja cancelado – até
onde se sabe a Petrobras pretende, felizmente, honrar os contratos e entregar o
GLP que se comprometeu a vender na semana passada –, o estrago já está feito.
Ao tratar a Petrobras como subalterna a seus
desejos, Lula age como se fosse um Luís XIV a proclamar: “A Petrobras sou eu”.
Isso cria um clima tenso na companhia e prejudica a tomada de decisões
estratégicas daqui em diante. Como prova disso, o Conselho de Administração da
Petrobras acaba de aprovar o “encerramento antecipado” do mandato do
diretor-executivo de Logística e Comercialização, Claudio Schlosser, a quem
estava subordinada a área responsável pelo leilão que tanto desagradou o presidente
da República.
É fato que, como principal acionista e
controlador da Petrobras, o governo federal tem mais força para impor seus
interesses. Mas uma coisa é o governo propor medidas que não necessariamente
agradam aos demais acionistas. Outra, bem diferente e mais grave, é sugerir que
o contrato assinado hoje será desrespeitado amanhã.
A guerra no Irã vai acabar em algum momento, mas o governo deveria se limitar a trabalhar para mitigar seus efeitos, e não criar mais problemas. Preocupado com as pesquisas eleitorais que põem em dúvida sua reeleição, no entanto, Lula tem sua guerra particular para travar – deixando um rastro de prejuízos para o País.
Frágil cessar-fogo alivia tensão, mas não
elimina incerteza
Por Valor Econômico
Mesmo se chegar ao fim das duas semanas, a
trégua não muda um cenário de preços de energia mais elevados no médio prazo
O frágil cessar-fogo de duas semanas acertado
entre EUA e Irã trouxe relativo alívio para todo o mundo, após uma perigosa
escalada em uma guerra que já matou milhares — a maioria iranianos — e que
interrompeu o fluxo de energia no vital Estreito de Ormuz, com severo impacto
na economia global. Apesar da incerteza, os mercados de energia reagiram ao
anúncio com euforia: os preços do petróleo caíram até 16%, para menos de US$ 100
por barril, mesmo com as notícias de novos ataques contra a infraestrutura de
petróleo na região e com o fato de mais de 800 navios continuarem parados na
entrada do estreito à espera de clareza sobre a segurança da passagem.
Como todos os acordos fechados pelo
imprevisível presidente americano Donald Trump, há dúvidas sobre a durabilidade
da trégua que, em menos de 24 horas, já passava pela primeira prova de fogo,
com a República Islâmica suspendendo a passagem de petroleiros por Ormuz em
resposta ao maior bombardeio de Israel no sul do Líbano contra alvos do
Hezbollah, segundo informações da mídia estatal iraniana. O governo do premiê
israelense Benjamin Netanyahu afirmou que o Líbano está fora do acordo de
cessar-fogo temporário — embora esse seja um dos 10 pontos propostos pelo Irã
para interromper o conflito. Mesmo se chegar ao fim das duas semanas, a trégua
não elimina as incertezas e nem muda um cenário de preços de energia mais
elevados no médio prazo em virtude dos danos provocados às instalações de
petróleo e gás no Oriente Médio.
A guerra também mudou o status do Estreito de
Ormuz, apesar de Trump ter anunciado a “abertura completa, imediata e segura”
da via marítima. O Irã comunicou ontem que as empresas de transporte marítimo
terão de informar o valor de sua carga e pagar um pedágio — equivalente a US$ 1
por barril de petróleo — em criptomoeda para transitarem por Ormuz, mais um
custo para a logística que será paga por consumidores de todo o mundo.
O trânsito pelo estreito é uma das questões
mais espinhosas enfrentadas pelos negociadores dos dois lados que correm contra
o tempo para transformar um cessar-fogo temporário em uma paz prolongada. O
regime iraniano busca manter o controle sobre a via, mas para os aliados árabes
dos EUA no Golfo, este seria um cenário catastrófico. A Arábia Saudita já
sinalizou que permitir que o Irã continue controlando Ormuz seria uma linha
vermelha, pois isso poderia alterar fundamentalmente o equilíbrio de poder
dentro da Opep+, o cartel de produtores liderados pelos sauditas, dando a Teerã
um potencial poder de veto sobre as exportações de membros rivais.
Em seis semanas de conflito, o que começou
como uma questão nuclear — impedir o Irã de obter uma arma atômica, entre os
vários objetivos anunciados por Trump — se tornou a reabertura do Estreito de
Ormuz, por onde antes passavam cerca de 20% das remessas globais de petróleo e
gás natural liquefeito. A paralisação do tráfego pelo Irã elevou drasticamente
os preços globais da energia. Cerca de 187 navios-tanques, com 175 milhões de
barris de petróleo e derivados, estão no Golfo Pérsico aguardando para começar
a se movimentar, segundo dados da Kpler.
Grandes operadoras marítimas disseram ontem
que mantinham uma abordagem cautelosa enquanto aguardavam detalhes sobre como e
se o estreito poderá ser reaberto. Nenhuma embarcação, com exceção de duas
ligadas ao Irã, está atualmente atravessando a região. Vários operadores
acreditam que a situação nos próximos dias se assemelhará ao sistema que se
desenvolveu nas últimas duas semanas, no qual apenas um pequeno número de
navios autorizados pelo Irã recebe permissão para passar por uma rota
específica.
Mesmo que o Irã reabra totalmente o Estreito
de Ormuz, analistas alertam que o fornecimento de combustíveis permanecerá
restrito e os preços continuarão elevados por meses em virtude dos danos à
capacidade de refino em todo o Oriente Médio. Desde o início da guerra, dezenas
de refinarias, campos de petróleo, usinas de gás, portos e outras
infraestruturas energéticas em pelo menos nove países — do Irã aos Emirados
Árabes Unidos — foram alvos de ataques de mísseis e drones. No total, 10% ou
mais do fornecimento mundial de petróleo foi interrompido.
A guerra também mudou fundamentalmente as
perspectivas para o comércio e a economia mundial, segundo apontam dois
relatórios divulgados esta semana. As persistentes tensões geopolíticas e o
aumento nos custos lançam uma sombra sobre o comércio global, que cresceu 7,5%
no ano passado e atingiu um recorde de US$ 35 trilhões. Essas mesmas tensões
estão levando os governos de metade dos países do mundo a aumentar seus orçamentos
com defesa, levando a maior endividamento em um momento que a maioria dos
governos ainda enfrenta uma situação fiscal crítica, segundo o FMI.
O cessar-fogo no Oriente Médio é uma boa notícia, mas é apenas o primeiro passo para um longo processo de normalização do setor de energia, cuja escalada nos preços ameaça o mundo com um cenário de estagflação — estagnação econômica e inflação elevada.
Nosso lugar na desordem global
Por Correio Braziliense
Incidir diretamente na crise em andamento
está, claramente, além do alcance da diplomacia brasileira. Mas o Brasil tem
diante de si a oportunidade de se fazer ouvir justamente no que diz respeito à
arquitetura do sistema ONU
As primeiras 24 horas desde o anúncio do
cessar-fogo bilateral entre Estados Unidos e Irã bastaram para esclarecer ao
menos um ponto, entre tantas incertezas relacionadas ao conflito: cada passo à
frente deve ser valorizado, até comemorado. Mas é imprudente ver em qualquer
avanço algum tipo de garantia para uma paz sólida e duradoura.
A guerra iniciada no último dia de fevereiro
tem raízes muito mais profundas que os itens negociados entre os dois lados,
com intermediação do Paquistão. Incluem terceiras e quartas partes, como Israel
e o Líbano. E, na ausência de documentos firmados e publicados, dão margem a
controvérsias — como as que se instalaram, ontem, em torno dos bombardeios
israelenses maciços sobre a capital libanesa.
Não se trata, à primeira vista, de episódios
que possam, por si sós, pôr a perder a trégua negociada a duríssimas penas,
depois de 40 dias de hostilidades. Mas eles ilustram e dão dimensões aos
obstáculos colocados no caminho da diplomacia.
Em cada ponta do conflito, injunções
domésticas pesam sobre as decisões tomadas nas instâncias de comando. EUA e
Israel traçam metas e fazem cálculos com as urnas no horizonte. Em situações
distintas, Donald Trump e o premiê Benjamin Netanyahu têm o futuro político vinculado
ao veredicto dos eleitores. No Irã, está em jogo o futuro de uma nova
liderança, que ascende para substituir os dirigentes abatidos em bombardeios —
mártires, na constelação ideológica do islã xiita.
No Líbano, a destruição material, as perdas
humanas e o deslocamento em massa de população fazem estremecer a frágil
convivência entre as confissões religiosas que compõem o mosaico da população —
um terreno social riscado por falhas geológicas que produziram 15 anos de
guerra civil, entre 1975 e 1990.
Uma apreciação ligeira e panorâmica dos
desafios entrelaçados basta para que se compreenda a fragilidade do processo em
curso. Visto da distância conveniente em que nos encontramos, o cenário parece
gritar pela urgência de um sistema de relações internacionais capaz de
circunscrever disputas, conter escaladas de violência e, sobretudo, inibir seu
alastramento.
Foi sob esses lemas que a Organização das
Nações Unidas (ONU) nasceu, em 1945, entre escombros e cicatrizes da Segunda
Guerra Mundial. Depois de oito décadas, quatro delas aprisionadas nos meandros
da Guerra Fria, o sistema multilateral concebido para disciplinar as relações
internacionais dá sinais de esgotamento.
Incidir diretamente na crise em andamento
está, claramente, além do alcance da diplomacia brasileira. Mas, até pela
relativa equidistância entre as partes envolvidas, o país tem diante de si a oportunidade
de se fazer ouvir justamente no que diz respeito à arquitetura do sistema ONU.
Como porta-voz da América Latina e do chamado Sul Global, uma parte do mundo
que participa apenas da distribuição dos danos — notadamente, a montanha-russa
nos mercados globais —, o Brasil tem aportes a fazer nas discussões destinadas
a dar forma e expressão a uma ordem internacional multipolar.
Nela, e apenas nela, pode haver caminho para que não recaiam sobre todos os ônus da insanidade cometida por uns poucos.
Uma permanente sensação de insegurança
Por O Povo (CE)
O eleitor tem de rechaçar argumentos
simplificadores, com fórmulas mágicas para resolver o problema de uma hora para
outra
Dados divulgados pelo governo do Estado do
Ceará mostram que o primeiro trimestre de 2026 foi o menos violento no Estado,
em 17 anos, desde o início da série histórica iniciada em 2009. Acompanhando
essa tendência, também se registrou o menor índice de violência durante a
Semana Santa desde o ano de 2009.
É importante registrar que, apesar da queda,
o número dos chamados crimes violentos letais intencionais (CVLI) ainda é alto,
mesmo caindo consistentemente.
Quanto aos dados, foram 472 homicídios no
primeiro trimestre deste ano, queda de 35,3% em relação a 2025. Na Semana Santa
foram anotados 24 homicídios, redução de 58,33% ante o período anterior.
Portanto, é preciso lembrar que o governo do
Estado tem de continuar investindo nas medidas que apresentam resultados. O
povo cearense tem de readquirir o seu direito de viver com um mínimo de
tranquilidade, sem medos ou sobressaltos, ao transitar pela cidade ou pelos
seus bairros e comunidades.
É comum, quando há queda de homicídios em
determinadas localidades, criar-se uma guerra de "narrativas".
Autoridades defendem que a aplicação de eventuais medidas na área de segurança
pública é o que leva à queda nos homicídios.
A oposição, por sua vez, em determinados
contextos, atribui-se a redução a períodos em que há "pacificação"
entre organizações criminosas. Ou pelo domínio territorial de uma delas ou por
acordos de não agressão entre as facções.
Um assunto complexo como segurança pública
deveria ser tratado com mais sensatez. Não se pode atribuir a violência a um
único fator, nem tornar esse debate uma arena de acusações, o que não interessa
a ninguém. A não ser àqueles que caçam votos com discursos populistas e
inócuos.
Além disso, mesmo com os índices de violência
caindo, a percepção das pessoas não acompanha essa queda, produzindo uma
sensação permanente de insegurança.
Como lembrou o jornalista Érico Firmo em sua
coluna na edição desta quarta-feira, pesquisa recente do instituto Datafolha
perguntou qual seria o principal problema do Ceará. As respostas espontâneas foram
violência, segurança, polícia ou "acabar com bandidos", com índice de
43%. Em segundo lugar ficou "saúde", com 22%. As demais respostas
como desemprego, educação, infraestrutura e corrupção tiveram alcançaram no
máximo 5%.
Assim, a questão da segurança pública terá
papel central nas eleições que se aproximam. O que se espera é que os
candidatos façam um debate responsável, que promova mais luz do que barulho.
O eleitor, por sua vez, tem de rechaçar argumentos simplificadores, com fórmulas mágicas para resolver o problema de uma hora para outra. Trata-se de enganação, mas o truque continua a ser usado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.