O Estado de S. Paulo
Não é preciso muito preparo ou ler um livro como a crucial reflexão de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro, publicado há 58 anos, para saber que o Brasil tem dono e descobrir que cada pedaço dele também tem mandão! Saber quem é o maior e melhor artista, empresa, jornal, ideologia, livro e até comida e bebida é imperativo no Brasil. Tudo pode ser graduado, mas, entre nós, o “número um” de alguma esfera da vida sinaliza superioridade em tudo.
O melhor deve ser dono, patrão e medalhão, como magnificamente teorizou Machado de Assis, em 1881. É costume estender o mandonismo e considerar que coisa alguma pode existir sem dono ou patrão, numa suposição coerente com o viés autoritário. Um modelo de poder, aliás, coerente com uma sociedade de fundo cultural escravocrata e até hoje escravista na sua alergia ao trabalho e amor à riqueza e ao luxo por ela proporcionados.
Opinar graduando é coerente com uma visão de
mundo aristocrática. Uma escala vertical feita de nobres e pobres, ligados por
mediadores que aspiram às fidalguias das leis privadas, das prerrogativas, dos
empregos sem trabalho e da parcialidade dos nobres colegas numa perversão do
corporativismo.
Há uma inevitável perturbação quando o regime
democrático demanda uma periódica renovação dos mandões. Como não compreender a
figura política do golpe como um fantasma a rondar esse sistema cujos eleitos
não são investidos, mas empossados como donos dos cargos públicos?
Romper com essa reacionária cosmovisão que
abona o “Você sabe com quem está falando?” presente em toda a nossa estrutura
administrativa é fundamental, pois no fundo há um traço que caracteriza todo
salvador da pátria: ele quer ser imperador do Brasil.
Aspiração espontaneamente demonstrada num
certo museu que pegou fogo, quando uma diretora que, por sinal, era dona da
instituição, perguntou a um dado pesquisador sobre seus planos com a intenção
de contratá-lo, e ouviu: “Eu quero mesmo, senhora diretora, é ser imperador do
Brasil!”.
Tal plano é dificilmente reprimido em todas
as esferas da sociedade que tem como modelo mandões, reis, donos e diretores. O
carnaval, que tem a chave do inconsciente nacional, exprime com luxuosidade
essa nostalgia de nobreza com riqueza.
A pulsão aristocrática aparece na imensa
dificuldade de viver as interdependências entre os três poderes da República.
Pois como ter Executivo, Legislativo e Judiciário se cada líder se imagina como
dono do Brasil? Como lidar com interdependências numa sociedade – com a devida
vênia – de donos, mandões, golpistas, ditadores, salvacionistas, populistas e
malandros? Querido leitor e bela leitora, por favor, respondam.
*É antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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