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O governo Trump transforma o Pentágono em um
braço armado do nacionalismo cristão fundamentalista
O embate entre Donald Trump e o papa Leão XIV tem gerado polêmica e a imagem do presidente norte-americano como Jesus causou indignação, mas a realidade é que os episódios são apenas a ponta do iceberg de um fenômeno muito mais profundo. Nos últimos meses, a administração do republicano tem adotado normas e medidas para permitir que o exército mais poderoso do mundo seja sequestrado por uma ala radical do cristianismo. Essa base não esconde a intenção de fazer do Pentágono o braço armado de um plano global de hegemonia de uma versão da fé cristã. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, é considerado um dos líderes dessa ala e, não por acaso, leva tatuado no corpo lemas usados por guerreiros enviados às Cruzadas.
O embate com o papa Leão XIV, portanto, era
apenas questão de tempo. Quando o pontífice assumiu a defesa de uma posição
cristã contrária às guerras, a Casa Branca decidiu que era hora de iniciar uma
ofensiva contra o Vaticano. O que estava em jogo não era apenas uma disputa de
versões. Ver o chefe da Igreja denunciar o uso do nome de Deus para justificar
a guerra foi considerado um obstáculo às ambições dos Estados Unidos.
Polêmicas não são novidade na vida do
secretário de Trump. Em 2015, num episódio que se tornou público, um Hegseth
embriagado em um bar de Ohio causou constrangimento ao cantar de forma
descontrolada “morte aos muçulmanos”. Mesmo sem o efeito do álcool, ele nunca
escondeu quem era. Ao longo dos últimos anos, defendeu uma “guerra santa de 360
graus” para exorcizar “o espectro esquerdista que domina a educação, a religião
e a cultura”.
Com baixa popularidade, a Casa Branca volta a
apelar à “guerra santa”
Para justificar a derrota das tropas
norte-americanas no Afeganistão, Hegseth alegou que “o fanatismo foi uma
vantagem para eles (milícias do Talebã) que mal levamos em consideração”. Em
um de seus livros, de 2016, o secretário relembrou como se sentiu ao ver uma
imagem online de um combatente do Estado Islâmico com o Alcorão em uma mão e um
AK-47 na outra. “Com Deus ao seu lado e o vento a seu favor, ele é um guerreiro
conquistador”, escreveu. “Ele está lutando por algo maior do que ele mesmo. Ele
está lutando por seu Deus.” Em seguida, veio o apelo por uma postura parecida
entre os cristãos. “Reconheço esse combatente, mesmo sem nunca o ter conhecido.
Sinto-me atraído por ele porque me identifico com ele”, prosseguiu. “Deploro o
que ele representa, o que ele faz e como o faz. Ele é um soldado do ódio, da
subjugação e da pura maldade. Mas compreendo suas paixões.”
Quatro anos depois, Hegseth publicaria outro
livro com um título ainda mais escancarado sobre suas intenções: A Cruzada
Americana. Nele, vê os Estados Unidos em uma luta travada por cristãos brancos
conservadores em nome de Deus. “Nosso momento atual é muito parecido com o
século XI. Não queremos lutar, mas, como nossos irmãos cristãos há mil anos,
devemos”, afirmou, numa referência às cruzadas. O livro conclui: “Juntos, com a
ajuda de Deus, salvaremos a América”.
Grande parte da “inspiração” para as declarações e pensamento do senhor da guerra nos EUA vem do pastor Doug Wilson, do estado de Idaho. Ultraconservador, Wilson coleciona polêmicas e suas opiniões são extremas, mesmo para a direita cristã. Defensor do “patriarcado bíblico”, o pastor sugere que esposas se submetam aos maridos, que os pais imponham disciplina “dolorosa” aos filhos e que os meninos aprendam a “teologia da luta corporal”. Afirma ainda que a escravidão era uma “instituição americana benéfica” e se descreveu como filosoficamente “em dívida” com Robert Dabney, o capelão militar do general confederado Stonewall Jackson, personagem que defendeu a escravidão e que difundia abertamente a tese da supremacia branca.
O mentor de Hegseth causou, em 2025, um
profundo mal-estar quando sugeriu que o direito ao voto para as mulheres
deveria “ser repensado”. Outro aspecto polêmico de seu pensamento refere-se aos
alvos militares legítimos. Wilson acredita na existência de uma batalha
religiosa a ser travada no mundo e que, se necessário, mulheres e crianças
devem ser sacrificadas. Na congregação fundada pelo pastor e da qual faz parte
o chefe do Pentágono, há um sistema de tribunais eclesiásticos que aplica
punições por heresia.
As ideias de Hegseth, conhecidas desde que
assumiu o cargo, em janeiro de 2025, ganharam espaço e passaram a ser expostas
de maneira mais escancarada ao longo dos últimos meses. A chancela da Casa
Branca ao movimento ultraconservador permitiu que essas ideias prosperassem.
Nos primeiros dias de governo, Trump assinou uma ordem executiva de criação de
uma força-tarefa na procuradoria-geral para investigar “ataques” na sociedade
norte-americana dirigidos a cristãos. Também determinou a “erradicação” de
qualquer “tendência anticristã” nas agências federais. O republicano criou
ainda um Escritório de Fé da Casa Branca, liderado pela reverenda Paula White,
apresentada como “conselheira religiosa” do presidente e “tele-evangelista”.
Polêmica, White chegou a sugerir que “confederações demoníacas” roubaram e
eleição de 2020 na qual Trump foi derrotado. No seu currículo,
acumula a acusação de ter vendido orações aos fiéis.
O tom messiânico do governo logo se transformou
em política. Uma das decisões foi adotar um novo estilo de propaganda. Para
ampliar o recrutamento de jovens, Hegseth ordenou o uso de imagens religiosas
nas campanhas. Num vídeo publicado nas redes sociais, o Pentágono anunciava:
“Somos uma nação sob Deus”. Nas imagens, com paraquedistas a saltar de um avião
e soldados com fuzis de assalto em punho, o Salmo 18:37 era exibido na tela.
“Persegui os meus inimigos e os alcancei; não virei as costas até que eles
fossem destruídos”, diz o versículo.
A situação ficou ainda mais problemática quando, em janeiro de 2026, os funcionários do Pentágono receberam um e-mail no qual eram convocados a participar de uma oração, marcada para dias depois. O texto dizia tratar-se de uma atividade voluntária, mas os comandantes teriam registrado a participação (ou não) de cada um de seus soldados. Hegseth realizava os cultos uma vez por mês. Mas, desde janeiro, o convite estendeu-se a todos os servidores e para os integrantes de empresas que fornecem equipamentos ao Pentágono, entre elas a Boeing. Detalhe: 30% dos militares norte-americanos são agnósticos ou professam outra fé.
Em fevereiro deste ano, o secretário convidou
para uma visita à sede do Pentágono seu próprio mentor, o pastor Wilson. Em um
discurso de 15 minutos, o evangélico descreveu o evento no quartel-general
militar dos Estados Unidos como o potencial início de uma transformação
nacional. A partir daquele momento, o país seria levado para as asas da
proteção de Deus. Wilson voltou a repetir aos soldados a tese da guerra
religiosa. “Se você carrega o nome de Jesus Cristo, não há armadura maior do
que essa”, pregou. “As equipes de pesquisa e desenvolvimento do diabo não
conseguirão criar nada capaz de penetrar essa armadura.” Mais:
“O que estamos pedindo em oração, pelo que
estamos trabalhando, o que estamos buscando, o que ansiamos é por um avivamento
raro e imprevisível, uma reforma rara e imprevisível. Muitas coisas mais
estranhas já aconteceram. Deus é grande”.
“Juntos, com a ajuda de Deus, salvaremos a
América”, escreveu o secretário Hegseth
Em compasso com a chegada dos
ultraconservadores ao poder, o governo promoveu um expurgo. Dias antes do Natal
de 2025, Hegseth demitiu ou afastou os religiosos que serviam de conselheiros e
atendiam os militares na instituição. O argumento era de que os conselheiros
adotavam “posturas seculares” no diálogo com os soldados. Nos batalhões, o
governo impôs novos critérios que podem simplesmente excluir centenas de
mulheres do serviço militar.
Segundo os críticos, o governo Trump avança
para impor o nacionalismo cristão fundamentalista como base de valores em uma
instituição que, de mãos dadas com a política externa, derruba governos e
instaura seus próprios aliados pelo mundo. Ter essa posição permeada por um
grupo que se alinha a supremacistas brancos tem deixado diplomatas e
observadores alarmados.
Em 5 de fevereiro, Hegseth evocou, em um
discurso, Urbano II, o papa que lançou as Cruzadas em 1095 com a promessa de
que aqueles que lutassem receberiam a remissão de todos os pecados.
“A disposição para fazer sacrifícios em nome de seu país nasce de uma coisa, uma crença profunda e inabalável no amor de Deus por nós e em sua promessa de vida eterna”, defendeu Hegseth. “O guerreiro que estiver disposto a dar a vida por sua unidade, seu país e seu Criador, esse guerreiro encontrará a vida eterna.”
Durante a guerra no Irã, à medida que os
objetivos militares se tornaram pouco claros e o governo passou a enfrentar
dificuldades para explicar os motivos que o levaram a atacar o país do Oriente
Médio, Hegseth e Trump passaram a justificar a operação com “argumentos
bíblicos”, alguns deles constrangedores, como a citação pelo secretário de
Guerra de um trecho bíblico falso declamado pelo matador de aluguel
interpretado por Samuel L. Jackson no filme Pulp Fiction. O secretário, vê-se,
é um devoto que não conhece as Escrituras.
Não se trata apenas de uma cortina de fumaça
para esconder um fracasso. Trump, Hegseth e outros radicais se imaginam, de
fato, em uma cruzada. São os novos templários.
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.

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