Folha de S. Paulo
Messias foi crucificado por briga entre o
Planalto e o Senado
Suas afirmações sobre religião e STF parecem
contraditórias; e são
Jorge Messias é
um jurista competente. Foi um erro o Senado tê-lo
rejeitado, numa derrota que tem o peso histórico de 132 anos.
Messias foi crucificado na disputa entre o presidente do Senado e o presidente da República, como uma demonstração de força de Alcolumbre de que, um, a eleição já começou e ela não está ganha e, dois, o impeachment dos ministros do STF –que requer apoio de 54 senadores– não está fora de questão.
A derrota de Messias é menos sobre Messias e
mais sobre as eleições de 2026 e o ego de Alcolumbre. Se os senadores pensassem
que Lula teria enorme vantagem nas eleições (o que não tem), e se Alcolunbre
pensasse que bolsonaristas não seriam a principal força política do Senado em
2027 (devem ser), não valeria o desgaste. Acontece que nem a conduta de bom
samaritano de Messias —colocando-se como terrivelmente evangélico e com dor de
ofício pelas prisões do 8 de Janeiro– o salvou.
Falando em Messias, a sabatina trouxe à tona
a questão de qual o papel da religião dos ministros do STF? Antes de ser
rejeitado pelo plenário do Senado, Messias afirmou que "é possível
interpretar a Constituição ‘com fé’, e não ‘pela fé’", que possui "respeito
absoluto à laicidade", que "os princípios cristãos" o
"acompanham" e que "há 40 anos" se vê como um "servo
de Deus".
Se as afirmações de Messias sobre religião e
STF parecem contraditórias entre si, é porque o são, intencionalmente: o
candidato não almejou em ser coerente, mas, sim, em ser palatável a todos.
Falhou.
Três reivindicações aqui se misturam.
Primeiro, a demanda por representatividade: evangélicos, como cidadãos, podem
ocupar postos de poder e já o fazem. Segundo, a demanda por liberdade de
religião: evangélicos possuem o direito a exercer sua fé. Terceiro, a demanda
por domínio: religiosos não podem usar de seu cargo público para impor
princípios de sua fé àqueles que não compartilham de sua crença.
Poderá o STF ter um ministro ateu? Se essa
pergunta soa tão absurda no dia de hoje, é porque não se sabe ainda até onde
vai a extrema direita teocrática para impor o seu projeto.
Hoje soubemos que está disposta a jogar um
século de história pela janela.

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