Folha de S. Paulo
Programas e áreas mais sensíveis do governo são
ameaçados por impactos da guerra
Medidas têm efeitos limitados sobre gás de
cozinha e combustíveis de aviação e caminhões
As bombas de combustível e os botijões de gás
anteciparam as eleições no país. Entre vacinas de efeito econômico, o
governo Lula recorre
a medidas para se proteger dos estilhaços políticos causados pela guerra
no Oriente Médio.
O que está em jogo é o controle da inflação em ano eleitoral e o impacto direto em programas populares. O que se passa no distante Estreito de Ormuz mexe com os botijões do gás de cozinha que sacodem nas carrocerias de caminhões país afora, levando o Gás do Povo.
Nas telas, 130 milhões de passageiros que
voaram pelos céus do Brasil no ano passado –um número recorde– acompanham abismados os
preços das passagens aéreas. Pelas estradas, caminhoneiros circulam
desconfiados, à espera dos resultados práticos que virão da medida provisória
publicada em março para aplacar
a alta do diesel. Até agora, mais de 420 emendas que já se amontoam sobre o
texto original.
O jogo é pesado para o governo, e menos
controlável do que aparenta. Os três combustíveis que hoje pressionam a
inflação compartilham de uma mesma lógica. Todos estão, em maior ou menor grau,
ancorados nos humores do mercado internacional.
O Brasil importa cerca 25% do diesel que
consome. O gás de cozinha também depende de cerca de 25% de importação. No
querosene de aviação,
cerca de 21% do combustível vem de outros países.
O fato de a maior parte da produção destes
combustíveis estar concentrada no Brasil não define seu preço. O que conta é o
tipo de mercado do qual fazem parte. São commodities que obedecem a um
movimento global de preços. Com o barril do petróleo orbitando
a casa dos US$ 110, depois de ser cotado em US$ 70 em fevereiro, não há
produção regional que segure o tranco.
Em sua resposta econômica, o governo faz o
que dá para fazer. Subsídio, corte de impostos, fiscalização de preços
abusivos. São medidas que funcionam como anestesia. Aliviam a dor no curto
prazo, sem eliminar a causa. A contenção política tem limites, e cobra seu
preço depois. A ver como os remédios reagem até outubro.

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