Valor Econômico
Comparação entre governos não será vantajosa
para Lula sem a disputa de valores
O 8º Congresso do PT mostrou a adoção do
diagnóstico feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Barcelona. A
esquerda ganha eleições com utopia e entrega austeridade. Torna-se alvo do voto
antissistema capturado por uma extrema-direita que capitaliza o mal-estar das
promessas não cumpridas.
O que falta - além de matizar a austeridade - é estratégia. O manifesto gastou 3.493 palavras e deixou “corrupção” de fora. Só citou “bets” uma vez para mencionar que foram alvo da reforma tributária deste mandato. Não são dois problemas. É um só, a indicar a falta de ambição na disputa de valores. Só há duas formas de se enriquecer da noite para o dia: roubo e jogo. E precisa de governo pra mostrar que ambas levam a um beco sem saída.
Não tem mágica. Todo esse moralismo caberia
na defesa de uma proposta para acabar com as bets e de garantir os meios para
que essa investigação do Master chegue ao dinheiro roubado. Não adianta propor
uma proibição que o Congresso não aprovará? Esta é outra história. É só ver
quem pagou e pagará o pato da PEC da blindagem, se quem votou contra ou a
favor.
O tapete de ovos estendido sobre Master, por
causa do Supremo Tribunal Federal, impede, na verdade, que se exiba a trilha
percorrida pelo presidente da República na sua volta ao poder. Lula chegou ao
Palácio do Planalto, em 2003, movido por um projeto de poder. Ao persegui-lo,
pagou, justa e injustamente, pelos erros cometidos. Voltou ao poder, 20 anos
depois, movido por um projeto de biografia. E, por isso, guardou mais distância
da mediação dos negócios do Estado, vácuo que foi preenchido pela disputa entre
STF e Congresso. O Master cresceu nessa várzea.
É o acabrunhamento em assumir os fatos, além
do medo que os sanguessugas laterais do petismo venham a ser respingados, que deixa
o PT a reboque no tema. O manifesto petista incorporou a “autocontenção”
pregada pelo presidente do STF, Edson Fachin, para o STF, mas o presidente será
cobrado a ir além. Dizer que as instituições brasileiras precisam de reforma,
tanto quanto a ONU, é uma digressão sem rumo.
Os dez anos do impeachment de Dilma Rousseff
são comemorados no momento em que Luiz Vassallo e Jenne Andrade, de “O Estado
de S. Paulo”, mostram que o sucessor da presidente apeada do poder atuou na
montagem da “operação das arábias” que impediria a liquidação do Master. Mais
um pouco e se chegará ao ministro do STF apresentado pelo ex-presidente Michel
Temer a Daniel Vorcaro.
Ficou claro, ainda, que o discurso petista,
por meio de todos os seus porta-vozes, espera fazer da educação integral um
grande mote desta campanha. Lula ainda foi além. Na sua mensagem ao partido,
disse que o magistério é uma atividade que precisa ser incentivada no país
porque “ninguém mais quer ser professor”. Eis o diagnóstico petista. Faltam
professores, entre outros motivos, porque são crescentes as queixas de
indisciplina, que chegam ao limite da violência, de jovens que levam a falta de
freio em casa para a escola.
A escola integral só resolverá o problema se
for acompanhada de condicionalidades capazes de premiar o bom comportamento.
Entre os requisitos para o pagamento de R$ 10 bilhões para 5,6 milhões de
alunos beneficiários do Pé-de-Meia, por exemplo, está a inscrição no cadastro
único, ser beneficiário do Bolsa Família e ter 80% de frequência nas aulas.
Não há uma única exigência em relação a
disciplina. “Beta” virou xingamento dos protótipos de “machos alfa” que se
proliferam nas escolas públicas e privadas. Chegarão à vida adulta como
potenciais agressores quando poderiam ser contidos na escola pela bonificação
do bom desempenho. É a lógica que move a nova CNH. Assim como tornou-se
vantajoso respeitar as regras de trânsito, não deveria ser otário o aluno que
respeita professores e colegas.
Não se trata de competir com as escolas
militares do bolsonarismo, mas de captar um anseio das famílias para modular
políticas públicas que têm saído pela urina da popularidade do presidente e se
mostrado incapazes de disputar a cabeça dos jovens com as redes sociais e com o
crime.
Em nenhuma das quatro menções ao “crédito”
que o manifesto petista faz, há qualquer reflexão sobre a necessidade de uma
expansão mais responsável do consumo popular. Dias atrás, até o CEO de um
grande banco, que ganha dinheiro com essa falta de freio, confidenciava que o
comprometimento da renda no empréstimo consignado deveria baixar.
A temer a impopularidade de uma medida do
gênero é preferível lembrar que Jair Bolsonaro extrapolou a irresponsabilidade
no tema ao estender o consignado para o que, à época, foi renomeado de “Auxílio
Brasil”.
Ainda não se sabe o que Flávio Bolsonaro terá
a propor. Se o senador for apenas um “bolsonarinho”, como o pré-candidato ao
governo de São Paulo Fernando Haddad o apelidou, vai arrumar um disfarce para
repetir o pai no desmonte das políticas públicas que este governo recuperou e
incrementou. Desmascarar o herdeiro, porém, de pouco vai adiantar se há outros
concorrentes que entraram na pista para comer o senador pelas beiradas. Eles
terão mais chances de fazê-lo se o PT insistir que o problema é a disseminação
do “fascismo”, citado cinco vezes no discurso do presidente do partido, Edinho
Silva.

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