domingo, 26 de abril de 2026

Queridas ênclises, próclises e mesóclises, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Jânio Quadros me bombardeou por três horas com dar-lhe-ias, lembrar-me-eis e enviar-vos-emos

Por que matar certas formas de escrever por serem antigas? Pound propunha fazer do velho o novo

Em 1983, repórter da Folha, fui a Guarujá entrevistar Jânio Quadros. Durante quase três horas de conversa, ele tomou uma garrafa do uísque Cutty Sark, a caubói. Eu, modestamente, dei conta de uma garrafinha gelada da vodca Wiborowa. Depois, Jânio convidou-nos a mim, ao fotógrafo e ao motorista da Folha para almoçar ("Eloá faz questão!"). O rango foi com cerveja e, após a sobremesa, Jânio serviu licores. Como tinha de voltar para o jornal e escrever a matéria, moderei nesses bebericos. Mas Jânio mandou cada gole para dentro e, ao fim da jornada etílica, continuava não apenas sóbrio como, com sua cômica voz de frango, colocando as ênclises, próclises e mesóclises com perfeição.

Já íntimos depois de tantas doses, perguntei-lhe se de fato tinha dito a frase "Fi-lo porque qui-lo", referindo-se à sua renúncia à presidência em 1961. "Claro que não", respondeu. "Mesmo porque estaria errado. O certo é ‘fi-lo porque o quis’". E não nos poupou, a mim e ao gravador, de todos os "dar-lhe-ia", "lembrar-me-ei" e "enviar-vos-emos" do vernáculo. Claro que, ao escrever a reportagem, gozei-o por esses arcaísmos e ele, ofendido, se queixou ao diretor Boris Casoy.

Hoje eu não faria isso. Aprendi a respeitar, não o Jânio, mas as palavras. Por que deixar morrer os ias, eis e emos entre hífens se eles foram tão bem usados por Eça e Machado? Você dirá que Eça e Machado escreveram há mais de 100 anos e, desde então, a língua se modernizou. OK, um desses modernizadores escrevia coisas como "milhor", "rúim" e "eu vi ele", e isso também foi há 100 anos.

Por que matar formas de escrever? Estou com Ezra Pound, que se definia como um "guardião da língua" e dizia que "um povo que acha normal escrever com desleixo arrisca-se a perder o domínio de seu império e de si mesmo". Falando nisso, a famosa expressão de Pound, "make it new", não significava inventar o novo, mas fazer do velho o novo.

Se quiserem um contemporâneo mestre da língua e fã das ênclises, próclises e mesóclises, citá-lo-ei: Caetano Veloso.

 

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