Correio Braziliense
O susto passou, mas o desgaste é grande. O
relator apontou supostas relações financeiras entre integrantes da Corte e o
banqueiro Daniel Vorcaro
A CPI do Crime Organizado rejeitou o
relatório apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), por 6 votos
contrários e 4 favoráveis, encerrando os trabalhos do colegiado sem a aprovação
de um documento final. O relatório propunha o indiciamento, por crimes de
responsabilidade, dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de
Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República,
Paulo Gonet.
Com a entrada em campo do Palácio do Planalto e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), houve mudanças na composição da CPI, com a entrada de parlamentares alinhados ao governo nas vagas de titulares. Três dos 11 membros titulares foram trocados. Os senadores Sergio Moro (PL-PR) e Marcos do Val (Avante-ES) foram substituídos por Beto Faro (PT-PA) e Teresa Leitão (PT-PE). Além disso, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), que era suplente, foi designada membro titular.
Com as trocas, a CPI teve maioria para
derrotar o relatório proposto por Vieira. Além de Beto Faro e Teresa Leitão,
votaram contra o relatório os senadores Rogério Carvalho (PT-SE), Otto Alencar
(PSD-BA), Humberto Costa (PT-PE) e Soraya Thronicke. O pedido de indiciamento,
desde que fosse aprovado pela maioria da CPI, poderia levar a uma solicitação
de impeachment das quatro autoridades citadas. Esse pedido de impeachment teria
que ser apresentado à Mesa do Senado Federal.
O parecer de Vieira incluía propostas
legislativas para reforçar o combate ao crime organizado. Entre elas, a criação
de um Ministério da Segurança Pública, uma nova intervenção federal na
segurança do Rio de Janeiro e medidas para ampliar o controle sobre fluxos
financeiros e pessoas expostas politicamente. O documento também tratava do
caso envolvendo o Banco Master, atribuindo a ministros do STF condutas
consideradas incompatíveis com o exercício do cargo. O relator apontou supostas
relações financeiras e proximidade entre integrantes da Corte e o banqueiro
Daniel Vorcaro, além de questionar decisões judiciais tomadas durante as
investigações da CPI.
O relatório de Vieira elevou a tensão
institucional com o STF a um novo patamar. Ao direcionar acusações aos
ministros da Corte, pôs em xeque as fronteiras constitucionais de atuação de
uma comissão parlamentar de inquérito, ao avançar sobre a esfera de competência
do Supremo, cuja abrangência é cada vez mais elástica.
Segundo Vieira, não se tratava de ataque ao
Supremo, "mas de cumprir o dever de investigar fatos graves que chegaram
ao conhecimento da CPI". Disse também que "ninguém está acima da lei,
e eventuais desvios de conduta precisam ser apurados dentro das regras
constitucionais", na tentativa de enquadrar o indiciamento como exercício
legítimo de controle parlamentar.
Forte reação
A reação foi imediata. Alexandre de Moraes
classificou o relatório como "uma peça sem respaldo jurídico, construída
para constranger a atuação independente do Judiciário". Acrescentou que
"não cabe a uma CPI revisar decisões judiciais ou imputar
responsabilidades com base em ilações". Dias Toffoli disse que "o
Supremo Tribunal Federal tem mecanismos próprios de controle e não se submete a
iniciativas que extrapolem os limites constitucionais das comissões parlamentares".
E rechaçou qualquer tentativa de responsabilização "fora do devido
processo legal".
Gilmar Mendes afirmou que o indiciamento era
"uma tentativa de intimidação institucional incompatível com o Estado de
Direito" e advertiu que "não se pode transformar divergências
interpretativas em acusações políticas contra ministros da Corte". Para
ele, o episódio revela "um uso indevido de instrumentos parlamentares para
fins de pressão política". O procurador-geral Paulo Gonet negou qualquer
omissão. Ressaltou que "todas as apurações sob responsabilidade do
Ministério Público seguem critérios técnicos e legais, sem qualquer tipo de
interferência política", e que "não há espaço para atuações motivadas
por pressões externas ou narrativas conjunturais".
O susto passou, mas as sequelas são grandes.
O relatório escala o confronto entre setores da oposição e o STF. Ao imputar
aos ministros supostos crimes de responsabilidade, ou seja, de natureza
político-administrativa, Vieira ultrapassou os limites estritamente investigativos
para uma arena de contestação institucional ao Supremo, na qual decisões
judiciais passariam a ser reinterpretadas pela ótica política. Foi mais um
lance na escalada de críticas recorrentes ao protagonismo do Supremo em temas
sensíveis da vida pública nacional.
Ainda que o relatório fosse aprovado, quaisquer pedidos de impeachment dependem da iniciativa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Além disso, o STF não reconhece autoridade de CPIs para impor sanções diretas a seus membros, o que limita o alcance prático da iniciativa. Na opinião dos ministros do Supremo, houve abuso de poder com objetivos eleitorais.

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