O Estado de S. Paulo
São ideais de vida neste nosso mundo de
desencantamento lunar e de bilionários que vivem a vida como um negócio. A
variante brasileira, que amarra a burocracia do capital financeiro à esperteza
malandra dos favores pessoais e do populismo salvacionista, subtrai o que os
inventores do capitalismo chamam de “work” – ação, invenção e movimento – base
desse modo de enriquecer.
Isso explica por que, no Brasil, o luxo vence
a riqueza, pois, entre nós, trabalhar ainda é castigo. Significados rotineiros
numa sociedade de base histórico-cultural, escravagista.
Nela, aspira-se ao luxo e à riqueza com pouco ou sem trabalho. Dizem que ficamos ricos trabalhando, mas ficamos podres de rico com a ajuda de amigos do peito com quem trocamos favores. É isso que o noticiário estampa, e nós fingimos surpresa e indignação...
O luxo coroa a riqueza. Ele se estampa no
estilo de vida ostentatório, escorado pelo fausto das despesas excessivas e
ilimitadas, como as de um banqueiro cujo programa incluía enriquecer com
“amigos” com poderes supremos, numa sociedade na qual elos pessoais predominam
sobre leis universais.
Pode haver riqueza sem luxo, mas não há luxo
sem riqueza e, para comprovar esse elo, basta ler esses casos que chamamos de
“corrupção”, observando que roubar por meio do governo é um estilo de governar.
O que chamamos de “política” é o campo aberto
a esse ideal de enriquecer, pairando acima das pessoas comuns como você e eu,
leitor... Como ficar rico? “Entrando na política”, na qual se pode transformar
o ilegal no legal com canetadas e desengavetamentos.
No nosso caso, são raras as mitologias de
pioneirismo financeiro, exceto nos episódios de assalto aos bens públicos.
Os “espertos” que cultivam laços com agentes
estratégicos do Estado assaltam tranquilamente a sociedade. É fascinante
observar o luxo em que vivem políticos eleitos em nome do povo pobre, que
constitui o capital de suas vidas. Os privilégios e as leis privadas para
certas categorias funcionais transformam governantes em donos do poder, como
apontou Raymundo Faoro.
Tudo isso para ressaltar que o dono do Master
mostrou que, para enricar, se deve mapear a elite e seduzi-la, seguindo uma
lógica relacional de prestação de favores luxuosos. Pois eles obrigam a
contraprestações que, independentemente de ideologia, pavimentam a estrutura da
elite brasileira.
Vorcaro teve uma perfeita compreensão de que
elos sociais particularistas neutralizam obrigações universalistas, liquidando
as imparcialidades e isenções que formam a base do Estado Democrático de
Direito. Ou, como viu Oliveira Viana, que amizades regadas a luxo e contratos
milionários produzem coragem para tudo, menos para dizer não aos amigos; e eu
diria, com a devida modéstia, a nós mesmos.
*É antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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