domingo, 26 de abril de 2026

Será que é infeliz a nação que precisa de heróis? Por Isabel Lustosa*

Folha de S. Paulo

Conceito inclui uma contradição intrínseca: a parte humana não está dissociada do caráter extraordinário de seus atos

A vulgaridade pessoal de dom Pedro 1º e de seu ídolo, Napoleão, talvez contribua para tornar suas trajetórias mais impressionantes

artigo "’Honrar heróis’ do passado só disfarça horror antigo" (11/4), do colunista Reinaldo José Lopes, publicado nesta Folha, trouxe-me à memória a frase final da peça de Bertolt Brecht que vi na adolescência, em Fortaleza, encenada no Teatro Oficina e tendo Renato Borghi no papel título: "Galileu Galilei".

A renúncia do astrônomo às teses que vinha difundindo sobre o sistema solar, depois das ameaças da Inquisição, decepcionou seus admiradores. Entre os instrumentos de suplício que lhe mostraram e a defesa de suas descobertas científicas, ele escolheu salvar a pele.

O colunista demonstra com dados cientificamente comprovados que o fato de o DNA do brasileiro ter poucos vestígios dos povos indígenas é prova do continuado extermínio a que aqueles povos foram submetidos desde a descoberta da América. Mas os 5 milhões de africanos escravizados também deixaram bem menos traços no nosso DNA que os europeus que os sequestraram. Conclui Lopes que, apesar de sermos um povo miscigenado, a herança europeia se sobrepõe às demais e que esconder isso em favor do culto aos nossos supostos heróis é uma forma de desamor à pátria.

Foi bom ler esse artigo na mesma semana em que participei de audiência no Senado com vistas à criação do Dia Nacional dos Mártires da Confederação do Equador, proposta pela senadora Teresa Leitão (PT-PE). O martírio de Frei Caneca, Padre Mororó e Tristão Gonçalves, entre outros, foi ordenado por um personagem que foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria: dom Pedro 1º.

Dei ao perfil biográfico que publiquei sobre dom Pedro 1º o subtítulo de "Um herói sem nenhum caráter". Quis resumir assim —valendo-me da fórmula de Mário de Andrade para sintetizar o povo brasileiro na figura de Macunaíma— as ambiguidades do príncipe que foi o ator principal da história do país em seu tempo. Ele optou por ficar conosco e proclamar a Independência; convocou eleições para uma Constituinte brasileira; deu uma Carta Constitucional que regeu a ordem política durante todo o Império; garantiu o reconhecimento da Independência e escolheu a Coroa brasileira em vez da portuguesa em 1826, após a morte de dom João 6º.

No entanto, dom Pedro fez tudo isso de forma impulsiva, atabalhoada, com avanços e recuos. Sua imagem na vida pública foi contaminada pela relação íntima que estabeleceu com Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. O desrespeito à imperatriz, personalidade de peso político nas cortes europeias e oficialmente dotada de poder para substituí-lo como regente, teve consequências negativas para seus objetivos políticos internacionais.

Pessoalmente, era um sujeito simpático, atraente e bem-humorado. Esse charme um tanto acafajestado —a Marquesa de Abrantes disse que ele tinha os modos de moço de cavalariça— fez sucesso em Paris quando ele ali apareceu no segundo semestre de 1831. Dali, seguiu para Portugal e, com denodo e sacrifício, venceu a guerra contra o irmão, colocou a filha no trono e garantiu o constitucionalismo em Portugal. Sua morte, em 1834, foi lamentada pela imprensa liberal europeia.

Essas ações fazem contraste com as do trêfego dom Pedro 1º das nossas minisséries televisivas. Mas o conceito de herói já inclui uma contradição intrínseca: a parte humana não está dissociada do caráter extraordinário de seus atos. A vulgaridade pessoal de dom Pedro 1º e de seu ídolo, Napoleão Bonaparte, talvez contribua para tornar suas trajetórias mais impressionantes: como é que homens assim fizeram coisas tão notáveis?

No final da peça, Brecht põe na boca de Galileu a frase: "Infeliz o povo que precisa de heróis". Tendo a discordar. Acho que precisamos de heróis. Graças aos avanços da pesquisa histórica, personagens oriundos de povos sub-representados no nosso DNA têm sido incluídos no Livro dos Heróis. É preciso reconhecer, valorizar e lembrar das ações das pessoas que, apesar de seus defeitos, lutaram e se sacrificaram para tornar o Brasil melhor. Elas nos inspiram e alimentam nossas esperanças no futuro do país.

*Historiadora e escritora, é sócia titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e autora de ‘Dom Pedro 1º – Um Herói Sem Nenhum Caráter’ (Cia. das Letras)

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