Valor Econômico
Secretário destaca crescimento econômico a
ser proporcionado pela reforma e seu impacto sobre a arrecadação
Muito antes da chegada dos aplicativos de
inteligência artificial que servem para eliminar o ex das fotos, o regime
soviético fazia o mesmo, de forma analógica, com integrantes da cúpula política
que caíam em desgraça. Essa foi a sorte, dentro do governo, da proposta de
criação da Terrabras, estatal dedicada à exploração das terras raras e minerais
críticos. Surgiu nos bastidores e logo desapareceu.
Segundo contaram à repórter Sofia Aguiar, deste jornal, a ideia foi deixada de lado pelo Planalto para não trazer desgaste neste período eleitoral.
Mas segue viva, tanto que brotou na Câmara
dos Deputados, na forma de um projeto de lei com 74 signatários, todos
integrantes da Federação Brasil da Esperança, a mesma do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. Um segundo projeto foi protocolado pelo deputado Rodrigo
Rollemberg (PSB-DF).
Rollemberg contou à coluna que, como
secretário de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria, posição que
ocupou no início do atual governo, teve muitos contatos com integrantes do
governo dos EUA. “Todo interesse deles era em terras raras”, disse. “Todo mundo
está de olho, e o Brasil não pode tratar como se fosse uma coisa menor.” Daí
porque propôs autorizar o governo a criar uma estatal.
O outro projeto, mais ambicioso, estabelece o
regime de partilha, o mesmo usado no petróleo do pré-sal, na exploração de
terras raras e minerais críticos. No mínimo 50% da produção física do minério
teria de ser entregue ao governo. A justificativa do projeto resgata a ideia do
pré-sal, de exigência de conteúdo nacional na exploração como fator indutor de
desenvolvimento industrial. Defende também que, no atual contexto geopolítico,
constituir reservas é uma questão de soberania.
Pela proposta, a Terrabras não seria
exatamente uma nova estatal, mas uma versão revista e ampliada da Companhia de
Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), vinculada ao Ministério de Minas e
Energia.
A ideia da nova estatal parece descasada dos
problemas que as empresas do setor enxergam no plano imediato para o
desenvolvimento desse mercado. Para o Instituto Brasileiro de Mineração
(Ibram), cujas associadas respondem por 85% da produção mineral do país, o
dinheiro necessário à constituição de uma empresa seria muito mais útil se
direcionado a estruturas que já existem e estão subfinanciadas, fazendo menos
do que poderiam.
São os casos da Agência Nacional de Mineração
(ANM), responsável pela regulação e fiscalização do setor, do Serviço Geológico
do Brasil (SGB), que até o momento só conseguiu estudar a presença de minerais
em 27% do território brasileiro, e do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem).
O Brasil possui a segunda maior reserva
mundial de terras raras e há grande interesse dos Estados Unidos, da Europa e
de outros países desenvolvidos em buscar esse produto em fontes alternativas à
China. A pergunta é por que, então, não há uma avalanche de investimentos aqui.
Aqui vai um resumo do que a coluna ouviu de
pessoas do governo e do setor privado.
Uma explicação é o domínio da China sobre
esse mercado. Grande produtor e consumidor, o país é capaz de forjar preços.
Foi o que ocorreu em 2024, quando os preços do lítio caíram 80%.
É, assim, um mercado arriscado. Como
agravante, os investimentos no setor são elevados. Uma planta não sai por menos
de US$ 250 milhões. Isso torna o financiamento um ponto crítico. Especialmente
porque os projetos no setor demandam muitos recursos na fase inicial, quando
ainda não geram receitas.
Por fim, os chineses detêm as tecnologias de
extração de terras raras. Uma ou outra empresa fora daquele país tem essa
capacidade.
“A ideia de uma estatal de terras raras nem é
inédita”, disse o presidente-executivo do Ibram, Pablo Cesario. O Brasil já
teve uma empresa que detinha a tecnologia de extrair terras raras a partir de
areias monazíticas, chamada Orquima. “Foi estatizada, sucateada e extinta, e
perdemos essa capacidade”, disse.
O Ibram defende o Projeto de Lei 2.780/24,
que institui uma política nacional para minerais críticos e estratégicos.
O parecer do relator, deputado Arnaldo Jardim
(Cidadania-SP), está pronto, mas não foi apresentado porque o Planalto pediu
tempo para apresentar contribuições.
Isso foi discutido ontem em reunião
ministerial. O relator não sabe quando receberá o posicionamento do Executivo,
por isso a votação do texto, prevista para o dia 22, pode atrasar.
Jardim contou que há, no governo, pessoas que
defendem a Terrabras. Há também os que são contra. Qual posição prevalecerá,
ele não sabe ainda.
“Eu sou terminalmente contrário”, afirmou o
deputado. Seu projeto busca atrair capital, defender a inovação e estimular
parcerias. A estatal atrapalharia, avaliou.
No Brasil, a criação de uma nova empresa do
governo viria num momento em que o conjunto apresenta déficit. No ano passado,
foram R$ 5,1 bilhões.
Ainda que tenha sido por razões eleitorais, fizeram bem os conselheiros de Lula que deram um jeito de sumir com a Terrabras.

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