Veja
Os planos nacionais de educação são muito
frágeis
A frase “50 anos em 5”, do tempo de Juscelino Kubitschek, simboliza o salto do Brasil para a industrialização. O governo da época elaborou um plano de desenvolvimento nacional com objetivos, estratégia, estrutura e ações federais de modo a fomentar o crescimento e a urbanização. Não é o que se pode dizer do resultado dos dois Planos Nacionais de Educação (PNEs), a partir de 1996.
Nesse quarto de século o país não deu o salto
necessário na educação. Ainda temos mais de 10 milhões de adultos analfabetos.
Apenas 20% dos que nasceram em 2025, se tanto, concluirão a educação de base
com a qualidade necessária. O Brasil ainda ocupa um dos últimos lugares nas
comparações internacionais de qualidade e equidade. Em vez de objetivos
concretos, os PNEs apresentam meras intenções abstratas; não estabelecem metas
objetivas nem definem estratégias, ações e estrutura federal necessária. É como
se a Lei Áurea declarasse a intenção de emancipar escravizados sem propor a
abolição, nem dizer quantos seriam libertados, e deixando a responsabilidade
aos municípios.
“É como se a Lei Áurea declarasse a intenção
de emancipar escravizados sem a abolição”
Nenhum dos PNEs apresenta os propósitos e as
ações para dar aos brasileiros a formação exigida para compreender e atuar no
mundo contemporâneo: como e em quanto tempo toda criança será alfabetizada aos
5 anos; se todos concluirão o ensino médio dominando as bases de matemática,
ciências, filosofia, geografia e história, além de habilidade para um idioma
estrangeiro. Nenhum dos planos, insista-se, teve a ousadia de que o país
precisa — qualidade máxima e equidade plena — e tampouco apresentou os
instrumentos claros para sua execução. Já se alertava que os planos anteriores
eram compostos de ideias sobre cooperação entre os entes federativos, mas sem
definir propósitos concretos. Para que o PNE fosse um instrumento executivo,
bastaria que definisse uma estratégia de ações capaz de substituir os quase 6 000 frágeis
sistemas municipais por um robusto sistema nacional, com a qualidade que têm as
atuais escolas públicas federais. Em vez de mais um plano genérico, que fosse
um programa de ações para dotar progressivamente a educação municipal de cada
cidade com edificações e equipamentos pedagógicos de padrão federal. Um caminho
com professores e servidores selecionados nacionalmente, com salários federais
e avaliados por critérios nacionais, com metas de aprendizagem voltadas para a
formação plena necessária. Ao ritmo de 200 cidades por ano, nos 23 anos dos PNE
I e II o Brasil já teria hoje 80% de seus alunos em escolas com padrões de alta
qualidade e plena equidade, como ocorre nas escolas federais. Com o PNE III, em
2036, o Brasil concluiria sua estratégia de implantação de um sistema nacional
público federal situando o país entre a 10ª e a 15ª posição no ranking do Pisa.
No caso da economia, JK optou por uma
estratégia nacional com instrumentos e ferramentas federais e conseguiu
realizar “50 anos em 5”; na educação, os planos não parecem feitos para cumprir
metas ambiciosas, articular propósitos e instrumentos nacionais que os
executem. Com o novo PNE III, a educação brasileira não deve piorar, mas avança
ficando para trás em relação às necessidades do mundo contemporâneo, como se
caminhássemos “3 anos em 30”.
Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.