Valor Econômico
PT e PL convergem na necessidade de reformar
o Judiciário e pressionam STF a sair da letargia
Num café com um ministro do Supremo Tribunal
Federal, um general do Alto Comando enumerou os oficiais das Forças Armadas que
estavam a cumprir pena por determinação da Corte. Em seguida, emendou: aqueles
que os condenaram também estarão sujeitos às leis da República?
A conversa transcorreu em clima ameno. O general, legalista, continuará a sê-lo. A dúvida é se, no transcorrer do inquérito do Master, se poderá dizer o mesmo do togado. Se os traumas do golpismo, na percepção de um privilegiado interlocutor da farda, foram pedagógicos para as Forças Armadas por muitas gerações de Bolsonaros, ainda não se sabe se a toga pagará para ver as lições de um impeachment.
A profusão de propostas de reformas no STF é
sinal de que a possibilidade crescente deste desfecho começou, finalmente, a sacolejar
a Corte. Ao contrário da farda, a política não está represada pelo muro das
lamentações. A representação do ministro Gilmar Mendes contra o senador
Alessandro Vieira (MDB-ES) teve como serventia abrir caminho para o
ex-governador de Minas fazer o mesmo.
Depois do pedido do decano para que Romeu
Zema fosse incluído no inquérito das Fake News, o pré-candidato à Presidência
pelo Novo dobrou a aposta e publicou outros dez vídeos sobre os ministros da
Corte. Se Zema aparecer com dois dígitos numa simulação de primeiro turno na
próxima pesquisa de intenção de voto, já saberá a quem agradecer.
A pressão por mudança no STF não vem só da
direita. O ex-ministro e pré-candidato a deputado federal, José Dirceu, já
havia antecipado muitos dos pontos a serem discutidos pelo 8º Congresso do PT,
a partir desta sexta: prestação de contas pelo STF, transparência, limitação às
decisões monocráticas, mandato e autocontenção.
O que surpreende é a grande convergência
entre o PT e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha do
senador Flávio Bolsonaro. Dirceu também havia antecipado este desdobramento. “A
extrema-direita vai propor ao eleitorado medidas contra o Supremo e nós vamos
defender o STF sem propor mudança alguma? Vamos perder”, disse a Mônica Bergamo.
Tamanha convergência na política não deixa
alternativa ao STF senão buscar uma saída. O incumbido foi o único do colegiado
que já precisou pedir voto na rua. O ministro Flávio Dino, porém, não se
dirigiu aos eleitores, mas aos demais Poderes ao propor um pacto a exemplo dos
havidos em 2004 e 2009. A abordagem vai além do Judiciário e envolve redes de
financiamento e lavagem de capitais, abarca a advocacia pública e as agências
reguladoras.
No Congresso, porém, o pacto tem outra
amplitude. Como em nenhuma outra conjuntura o Judiciário esteve tão acuado, a
percepção é a de que terá que ceder mais, inclusive nos processos em
tramitação. Pelo menos dois interlocutores que pretendem disputar um mandato na
Câmara, José Dirceu (PT-SP) e Romero Jucá (MDB-RR), colocam as emendas sobre a
mesa. O primeiro não vê viabilidade para o arrastão de 93 parlamentares
arrolados em inquéritos e o segundo advoga uma saída em que a Câmara seja mais
proativa na cassação de mandatos.
Só não está claro para ninguém como o STF
abriria mão de dar continuidade a processos em curso. Tampouco parece
convicente que um pacto do gênero seja capaz de poupar ministros se o motor da
guilhotina é a bancada bolsonarista. A turma do deixa-disso no Congresso quer
driblar o impeachment da toga com a aposentadoria de Dias Toffoli, o envio do
ministro Alexandre de Moraes para um tribunal internacional e uma sanção ainda
vaga para o pai de Kevin Nunes Marques que, um ano depois de chancelado pela
OAB, amealhou 500 clientes.
É difícil avançar em qualquer direção neste
pacto antes que se divise o alcance do inquérito do banco Master. Inútil traçar
linhas de um acordo que podem vir a ser ultrapassadas por investigações ou
delações. Já se dá por certo, por exemplo, que Viviane Barci de Moraes não é a
única aparentada da Corte contratada por Daniel Vorcaro.
A única certeza é a de que, se a transição
para o Lula 3 foi marcada por um acerto de contas, denominado de “PEC da
Transição”, um Lula 4, se houver, será precedido por um ajuste muito mais
amplo. Já a volta do bolsonarismo fica na conta do imprevisível. Tanto que os
comandantes do Congresso já amansaram para o presidente da República na
expectativa de que, com ele, seja possível divisar 2027 ainda que não se saiba
quem sobreviverá até lá.
Acossado pelo mercado para cortar gastos em
2027, o Executivo vai querer recuperar o espaço fiscal perdido para as emendas,
o Congresso, as prerrogativas subtraídas pelo STF e este, a reputação que um
dia desfrutou no país. Falta combinar com Daniel Vorcaro, o cupim que corroeu
os Poderes, e, principalmente, com o eleitor.
Foi o longo funeral da Lava-Jato que abriu
espaço para os larápios do Master. O banco fincou suas bases na ausência de
regulação dos mercados sobre a lavagem de dinheiro numa economia que promoveu
um avanço predatório sobre a renda e o crédito dos brasileiros. Associou-se aos
superpoderes do STF e do Congresso e às muletas do Executivo. O desfecho deste
inquérito não será capaz de levar a novas conspirações da farda. O campo de
batalha é a urna e o alvo, a zanga do eleitor.

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