Folha de S. Paulo
Em ano eleitoral, é fundamental combater o
aliciamento e a compra de votos
É imperioso proteger a verdade, a integridade
do debate público e a legitimidade do processo eleitoral
Não é segredo que a igreja católica foi conivente e se beneficiou da escravização negra. Embora tenha havido vozes que se manifestaram contra o tratamento desumano dado aos africanos escravizados (a exemplo do Papa Pio II, que em 1462 instruiu os bispos a condenarem o tráfico como um "crime terrível"), foi só no século 19 que os católicos se posicionaram de maneira enfática em defesa dos direitos humanos.
Mas, para ser justa, antes de seguir com meu
raciocínio, preciso fazer uma observação: não é possível esquecer que, na
atualidade, há segmentos neopentecostais que prestam um desserviço à liberdade
religiosa ao demonizar as religiões de matriz africana (e seus fiéis),
fomentando atitudes e práticas racistas e preconceituosas.
Dito isso, é gratificante saber que a
"Mensagem ao Povo Brasileiro" —redigida ao final da 62ª Assembleia
Geral da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) (de 15 a 24/04) em
Aparecida, SP— faz referência à decisão da ONU classificando
o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave já
cometido contra a humanidade.
Os bispos reconheceram formalmente que
"o Brasil ainda não enfrentou corajosamente o racismo,
e a nossa história tem uma dívida que exige reparação". Concordo e
aproveito para indagar: Qual papel as igrejas estão dispostas a desempenhar
nessa luta por reparação?
Em ano eleitoral, é fundamental combater o
aliciamento e a compra de votos. Como diz o documento da CNBB, "o voto não
tem preço, tem consequência". Coisa que torna primordial a escolha de
candidatos com propostas concretas a serviço dos mais vulneráveis, da justiça
socioambiental e da vida.
Diante da disseminação organizada da
desinformação, da manipulação do medo, dos discursos de ódio impulsionados
pelas novas tecnologias, é imperioso proteger a verdade, a integridade do
debate público e a legitimidade do processo eleitoral. Religião não deve servir
para instrumentalização eleitoreira. Afinal, voto não tem preço, tem
consequência.

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