sexta-feira, 8 de maio de 2026

A “química” entre Lula e Trump na Casa Branca funcionou mais uma vez, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Nem a Casa Branca quis transformar o encontro numa cobrança pública, nem havia interesse brasileiro em abrir conflitos que comprometessem o simbolismo político da aproximação

Apesar do cenário glamouroso da Casa Branca, o cardápio do almoço entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Donald Trump foi quase um feijão com arroz. Após a conversa formal entre ambos, os dois almoçaram salada de alface-romana com jicama (uma espécie de nabo mexicano, antioxidante, rico em vitamina C, E, selênio e betacaroteno), gomos de laranja, abacate com molho cítrico. O prato principal foi bife grelhado com purê de feijão preto, minipimentões doces e relish de rabanete com abacaxi. De sobremesa, pêssegos caramelizados e torta de panna cotta com mel, acompanhados de sorvete de crème fraîche. Trump dispensou a laranja, como fizera com os temas mais polêmicos das relações entre os dois países.

O almoço serve de alegoria do encontro, que marcou uma inflexão importante nas tensas relações entre a Casa Branca e o governo brasileiro. Não é pouca coisa, depois de meses de fricções diplomáticas, agravadas pelo tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, pelas sanções contra autoridades nacionais e pela aproximação do trumpismo com o bolsonarismo. Com a reunião, por ora, a política externa voltou ao terreno do pragmatismo. A química pessoal entre os dois líderes funcionou melhor do que se imaginava: os temas mais explosivos foram cuidadosamente evitados ou empurrados com a barriga, e o resultado político foi amplamente favorável ao Palácio do Planalto.

Para Lula, o encontro representou um verdadeiro gol de placa diplomátivo, num momento em que o governo enfrenta dificuldades internas, desgaste econômico e forte polarização eleitoral. As imagens do presidente brasileiro sorrindo ao lado de Trump, circulando pela Casa Branca e sendo chamado pelo republicano de “dinâmico” têm enorme valor simbólico e, certamente, serão usadas durante a campanha eleitoral. O gesto sinaliza que as relações entre Brasília e Washington podem até melhorar, apesar das diferenças ideológicas evidentes entre os dois governos.

A reunião durou quase três horas, ou seja, foi muito além do previsto, por causa do almoço. Esse detalhe foi explorado politicamente por Lula. “A reunião demorou um pouco mais do que o previsto, certamente porque eu gostei e ele também gostou”, afirmou o presidente brasileiro. Houve descontração, brincadeiras sobre a Copa do Mundo, referências à “química” entre ambos e até a definição de Lula de que a relação foi “amor à primeira vista”. Trump, por sua vez, publicou mensagem elogiosa na Truth Social, destacando que a conversa foi “muito boa” e que novas reuniões ocorrerão nos próximos meses.

Essa atmosfera não foi casual. A experiente e pragmática diplomacia brasileira trabalhou para evitar armadilhas. O protocolo da Casa Branca, a pedido de Lula, foi alterado para que não houvesse a entrevista coletiva agendada antes do encontro, como é de praxe na Casa Branca. Lula preferiu não falar com a imprensa antes da conversa reservada, evitou o risco de constrangimentos públicos ou perguntas embaraçosas diante das câmeras no Salão Oval. A decisão impediu que a reunião fosse transformada num espetáculo de tensão, como ocorreu em episódios recentes envolvendo Trump e outros líderes estrangeiros, em função de eventuais declarações descontextualizadas.

Fuga para a frente

Do ponto de vista objetivo, porém, os temas mais delicados simplesmente não avançaram. A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, assunto muito sensível para o governo brasileiro, sequer entrou na pauta. O Pix, alvo de investigação comercial americana, também foi deixado de lado. Lula admitiu que esperava tratar do tema, mas como Trump “não tocou no assunto”, também deixou a questão de lado. As eleições no Brasil foram igualmente escanteadas. Lula fez questão de dizer que não discutiria apoio político ou eleições com qualquer presidente estrangeiro.

Trocando em miúdos, os assuntos potencialmente explosivos serão administrados por canais diplomáticos e técnicos, sem contaminação política direta entre os dois chefes de Estado. Foi uma espécie de acordo tácito, pragmático. Nem Trump quis transformar o encontro numa cobrança pública, nem Lula tinha interesse em abrir conflitos que pudessem comprometer o simbolismo político da aproximação.

O eixo central da conversa acabou sendo comércio, investimentos e segurança. Lula insistiu que os Estados Unidos perderam espaço econômico no Brasil para a China porque deixaram de investir na América Latina. Ou seja, se Washington quiser recuperar influência estratégica na região, precisará voltar a disputar projetos, infraestrutura e investimentos reais. Foi uma forma hábil de lembrar aos americanos que a presença chinesa no Brasil não decorre de alinhamento ideológico, mas de pragmatismo econômico.

Há interesses concretos dos EUA em jogo. O acesso aos minerais críticos brasileiros, sobretudo terras raras, é uma prioridade estratégica americana na disputa tecnológica e geopolítica com Pequim. Lula quer explorar isso politicamente, como o presidente Getúlio Vargas fez, durante a Segunda Guerra Mundial, ao negociar com americanos e alemães, até decidir enviar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) para a Itália, para lutar ao lado dos Aliados, e receber em troca a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda. O Brasil tratará as terras raras como questão de soberania nacional, porém os investidores americanos serão bem-vindos; Lula quer investimentos, tecnologia e agregação de valor, sem alinhamentos automáticos nem exclusividade geopolítica.

 

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