O Estado de S. Paulo
O ajuste fiscal não tem preferência por PT ou PL, por Lula ou Flávio (ou quem venha a substituí-lo). Ele já marcou seu encontro com o próximo presidente da República
Os candidatos (relevantes) à Presidência da
República não terão a coragem necessária para defender o rigor com as contas
públicas. Ademais, não se quer um maluco com motosserra, vale dizer (aliás,
escrevi neste espaço um artigo que envelheceu bem quando da eleição de Milei).
Na lógica opaca predominante no meio político, falar em responsabilidade fiscal
é coisa de economista, não de candidato. A ver.
Muito embora Mário Covas tenha ensinado, em 1998, que a probidade, a responsabilidade e o rigor com cada centavo de dinheiro público importam, as lideranças atuais, de parte a parte, preferem ver o diabo a assumir que terão de sacar a tesoura em 2027. Para lembrar: Covas foi reeleito e entregou o Estado de São Paulo saneado e com capacidade altíssima de investimento.
Não se está propondo fazer da bandeira do
ajuste fiscal a principal numa campanha acirrada como a de 2026. Por outro
lado, ignorar o problema e seguir prometendo terrenos na Lua é pouco
inteligente. Mesmo num contexto de notícias falsas espalhadas pelo esgoto
digital, de vídeos fabricados, de informações inventadas e quetais, é de
conhecimento geral que as contas do País precisam sair do negativo.
O então ministro da Fazenda, Fernando Haddad,
entre 2023 e 2025, conseguiu estancar a sangria do resultado fiscal, estável ao
redor de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Contabilizados os juros, a fatura
encerrará este ano em quase 9% do PIB. A dívida pública, por sua vez, terminará
em 83,3% do PIB, quase 12 pontos porcentuais do PIB superiores a 2022.
Foram muitas as boas medidas tomadas por
Haddad, e isso deve ser enaltecido. Exemplos: corte de benefícios tributários,
inclusive do estapafúrdio incentivo duplo pago no âmbito do Imposto sobre
Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e dos impostos federais às
empresas; tributação de fundos exclusivos e de investimentos no exterior; maior
progressividade na tributação da renda; imposto sobre as bets; restrição ao
crescimento real do salário mínimo à variação real permitida para o limite de
gastos (2,5%); limitações orçamentárias para o seguro-defeso e o
auxílio-doença; incorporação de gastos no piso constitucional da educação;
entre outros.
Errou o atual governo ao ressuscitar, sem
discussão, a regra de correção real do salário mínimo, ainda em 2023. Sua recriação
deveria ter sido acompanhada do debate sobre a indexação de grandes volumes de
gastos. O mesmo vale para as vinculações da saúde e da educação à receita
pública.
Por sua vez, o novo arcabouço fiscal (Lei
Complementar n.º 200/2023) foi positivo, porque instituiu uma regra com
flexibilidade, impositiva e consistente. Ela pode ser ajustada, aliás, por meio
de apertos nos seus parâmetros. Um deles, os mencionados 2,5% de variação
máxima do gasto, poderia ser reduzido a 1,0%, num primeiro momento, passando a
1,5% e, finalmente, a 2%. É uma possibilidade para que se inicie o próximo
mandato sem grandes revoluções em termos de legislação fiscal.
Não devemos perder mais um ano inteiro
(incluído o período da transição, pós-outubro) para aprovar outra regra mirabolante.
Precisa-se, na verdade, de compromisso público com o ajuste das contas. A
esquerda e a direita deveriam entender que o País não resistirá ao contínuo
vazio de ideias e de propostas que parem de pé. Em 2022, o então presidente da
República optou por políticas expansionistas, com aumento de transferências
sociais e tungadas nos governos estaduais, por meio da limitação do ICMS de
combustíveis. Agora, o governo Lula distribui recursos para compra de
automóvel, com impacto potencial de R$ 30 bilhões, noves fora os juros
subsidiados.
Em que pese a nítida diferença entre um e
outro, claramente pelo respeito às leis, ao pacto federativo e à democracia (no
caso de Lula), o fato é que a essência das ações é muito similar. Isso nos leva
a crer que há algo de errado com nossa política fiscal e orçamentária. Os
incentivos estão distorcidos. Não se compreende que o ajuste fiscal é a chave
para voltarmos a crescer com robustez.
Nestas eleições, as eventuais promessas
fantasiosas serão questionadas pela população e pela imprensa. A checagem das
informações prestadas pelos candidatos será feita em tempo real. As calças
curtas da mentira ficarão ainda menores na presença de celulares conectados a
mecanismos de inteligência artificial, por mais variados que possam ser. Isso
deveria motivar os candidatos ao apego à realidade, com transparência,
prometendo ajustar os gastos públicos, aumentar as receitas e promover uma
política superavitária, componente essencial para a queda dos juros e a
recuperação dos investimentos e do crescimento econômico.
De todo modo, a população estará mais bem
preparada e escaldada. A cobrança por promessas realistas será cada vez maior.
O ajuste fiscal não tem preferência por PT ou PL, por Lula ou Flávio (ou quem
venha a substituí-lo). Ele já marcou seu encontro com o próximo presidente da
República para 1.º de janeiro de 2027. Dar o cano poderá custar a nossa chance
de recolocar o Brasil na rota do desenvolvimento.
*Economista-Chefe da Warren Investimentos, professor do IDP, foi secretário da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo (2022)

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