Valor Econômico
Com impacto das exportações da commodity
sobre a balança comercial, país terá um déficit em conta corrente menor e o
dólar deverá ficar mais barato
O aumento das exportações de petróleo deverá garantir uma alta expressiva do saldo comercial em 2026, ajudando a valorizar o câmbio e a reduzir o déficit em conta corrente. Com a expansão dos volumes e dos preços das vendas externas da commodity, o Brasil poderá ter um superávit comercial na casa de US$ 90 bilhões neste ano, mais de 30% superior aos US$ 68,3 bilhões registrados no ano passado. Num momento em que as contas públicas registram um déficit nominal (que inclui gastos com juros) próximo de 10% do PIB no acumulado em 12 meses, a melhora das contas externas é uma boa notícia, por diminuir uma fragilidade do país. O dólar mais barato atenua parte das pressões inflacionárias causadas pelo aumento dos combustíveis, reflexo da disparada do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio.
O déficit em conta corrente, que mostra o
resultado das transações de bens, rendas e serviços com o exterior, deve ficar
em 2,3% do PIB neste ano e no próximo, nas contas do BTG Pactual.
Em 2024 e 2025, o rombo ficou em 3% do PIB. O dólar, por sua vez, tem oscilado
na casa de R$ 5 ou menos - fechou cotado a R$ 4,8942 na sexta-feira.
Os preços do petróleo mudaram de nível após o
começo da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. No fim de fevereiro, o
barril do Brent era negociado por volta de US$ 70; na sexta-feira, encerrou o
dia acima de US$ 101. No momento de maior incerteza em relação à oferta do
produto, chegou a superar US$ 120. Os preços mais altos do petróleo ajudam
significativamente a balança comercial, como aponta a economista Iana Ferrão,
do BTG Pactual.
“O saldo da balança de petróleo e derivados e da balança comercial como um todo
é altamente sensível ao nível de preços do Brent”, escreve ela, que projeta um
superávit comercial de US$ 90 bilhões neste ano e no ano que vem, um movimento
também influenciado pela alta de algumas commodities agrícolas.
“A sensibilidade da balança comercial e das
transações correntes a choques no Brent tornou-se estruturalmente positiva ao
longo do tempo”, diz a economista. Um aumento de 10% no Brent tinha um impacto negativo
de US$ 300 milhões no começo dos anos 2000; hoje, produz ganhos superiores a
US$ 3,5 bilhões, devido à mudança na estrutura da pauta - o Brasil passou a ser
um exportador líquido da commodity. “Com preços elevados do Brent, o saldo da
balança de petróleo e derivados deve atingir o recorde US$ 48 bilhões em 2026”,
aponta Iana Ferrão. “As exportações alcançarão US$ 78 bilhões, enquanto as
importações aumentarão para US$ 30 bilhões”, estima ela.
A aceleração do saldo comercial ocorre desde
o quarto trimestre de 2025. Segundo a economista do BTG Pactual,
isso “decorre da combinação de maior dinamismo das exportações, em função do
aumento da produção de commodities, com destaque para o petróleo e”, mais
recentemente, “da forte alta dos preços do Brent no mercado internacional”. A
produção de petróleo, observa ela, acelerou no segundo semestre do ano passado
e atingiu o recorde histórico de 4,2 milhões de barris por dia em março deste
ano.
De janeiro a abril, as exportações de óleos
brutos de petróleo somaram US$ 17,6 bilhões, 26,3% acima do registrado no mesmo
período de 2025. Com isso, responderam por 15% das vendas totais ao exterior,
acima dos 14,2% da soja em grão.
Nesse cenário, o saldo da balança comercial
tem aumentado. Depois de fechar em US$ 68,3 bilhões em 2025, o superávit
atingiu US$ 75,6 bilhões nos 12 meses até abril. Os economistas do Itaú
Unibanco observam que a média dos três meses até abril ficou em US$ 84,1
bilhões em termos anualizados e com ajuste sazonal. Segundo eles, houve uma
melhora em abril de 2,3% dos termos de troca (a relação entre preços de
exportação e de importação), na série livre de influências sazonais. O Itaú
Unibanco projeta um saldo comercial de US$ 80 bilhões para este ano, superior
ao do ano passado, mas abaixo dos US$ 90 bilhões estimados pelo BTG Pactual.
De qualquer modo, é um número elevado. Isso
fortalece as contas externas, reduzindo o déficit em conta corrente. O volume
de investimentos estrangeiros diretos no país (IDP) deve ficar em US$ 80
bilhões em 2026, nas contas do BTG Pactual,
bastante superior aos US$ 56,3 bilhões, equivalentes a 2,3% do PIB, do rombo
esperado pelo banco para a conta corrente.
Essa melhora da balança comercial,
relacionada especialmente às exportações do petróleo, é um dos principais
fatores que explicam a valorização do real neste ano. O dólar tem recuado em
relação à moeda brasileira, e os analistas têm revisado para baixo as suas
estimativas para a divisa americana. O BTG Pactual,
por exemplo, reduziu na semana passada a sua projeção para o fim do ano de R$
5,20 para R$ 4,90. O enfraquecimento do dólar no mercado global e a elevada
diferença entre os juros externos e internos também contribuem para a
apreciação do real. Nesse cenário, a proximidade das eleições e as incertezas
sobre as contas públicas não têm impedido o fortalecimento da moeda brasileira.
A melhora das contas externas pode garantir
um período de menor volatilidade para o país, que deveria ser aproveitado para
a implementação de um ajuste fiscal mais firme. Com as incertezas sobre as
contas públicas, os juros ficam pressionados e o Brasil não cresce a taxas mais
elevadas de modo sustentado. A tradição brasileira, porém, é de só tomar
medidas mais drásticas em momentos de crise, desperdiçando os períodos de menor
turbulência. Seria mais do que bem vindo mudar esse costume, e enfrentar o
quanto antes o problema do crescimento insustentável dos gastos obrigatórios.
Mas isso, se ocorrer, ficará apenas para 2027, após as eleições deste ano.

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