O Globo
Jair escolheu o filho e vai com ele, na
vitória e na derrota
A relação — pessoal e financeira — do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro cobrou seu preço na pesquisa Datafolha pós-revelação do áudio e das mensagens pelo Intercept Brasil. À primeira vista, quem se beneficiou com o episódio foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na briga por um quarto mandato. De uma semana para outra, a distância entre o incumbente e o filho içado a candidato pelo pai condenado pela trama golpista aumentou de 3 para 9 pontos percentuais na simulação de primeiro turno. O bolsonarista perdeu competitividade, não posição. A pouco mais de dois meses da formalização das chapas, não parece haver fato capaz de tirar o Zero Um da disputa.
O mundo político e o próprio PL bem que
flertaram com a inviabilidade da candidatura de Flávio. Em vão. O senador pediu
milhões a Vorcaro para, segundo alega, financiar a produção da cinebiografia de
Jair Bolsonaro. Cobrou parcelas, quando a fonte secou. E, diante de
correligionários desolados, dias atrás, admitiu ter visitado o dono do Banco
Master em casa, em São Paulo, após ele passar dez dias preso, em novembro de
2025. Tudo tornou-se público depois de ele negar conhecer o protagonista da
maior fraude bancária da História —um homem disposto a devolver R$ 60 bilhões
num acordo de delação premiada ainda não formalizado — e de vestir camiseta
atribuindo o escândalo diretamente a Lula.
Desmascarada a mentira, ainda assim, o único
filho presidenciável de Bolsonaro apareceu no Datafolha com 17% de intenção de
voto na consulta espontânea (quando não há cartela de nomes exibida ao
eleitor), ante 28% de Lula; 31% ante 40% na pesquisa estimulada; e 43% ante 47%
na simulação de segundo turno. Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (PSD-GO),
que se apresentaram como opções a Flávio à direita, ficaram na irrelevância em
que já estavam, não mais de 4% das intenções de voto.
Antes da pesquisa, Valdemar Costa Neto,
presidente do PL, já havia voltado atrás na ideia de substituir Flávio. O
partido tem o dinheiro, mas capital eleitoral quem tem é Bolsonaro. Jair
escolheu o filho e vai com ele, na vitória e na derrota. Uma eleição, sublinha
o cientista político Fábio Vasconcellos, doutor pelo Iesp e professor na
Faculdade de Comunicação da Uerj, não define apenas quem ganha, mas quem
liderará a oposição.
Com quase um terço das intenções de voto em
Flávio no primeiro turno, quantos deputados e senadores o PL será capaz de
eleger? E quanto isso representa em recursos dos fundos partidário e eleitoral?
O Brasil parece conviver com três movimentos políticos absolutamente sólidos: o
lulismo, o bolsonarismo e o antipetismo. Os dois últimos, não raro, se
sobrepõem, como sugerem simulações de segundo turno que emprestam
competitividade a candidatos quase inexpressivos na primeira rodada.
É por isso que Flávio, salvo hecatombe,
seguirá candidato. Em dezembro, anunciada a escolha do pai, poucos levaram a
sério as chances do filho. Até o episódio Vorcaro, ele crescia a ponto de
ameaçar a reeleição de Lula. É possível que o projeto de chegar ao Planalto
esteja sepultado. O bolsonarismo, não.
Carlos Bolsonaro, em postagem crítica aos
aliados de ocasião numa rede social, escreveu que “o Brasil conta mais uma vez
somente com as tias do zap e os tios do churrasco”. Referia-se, para bom
entendedor, à base eleitoral que o pai amealhou e segue a ele leal. É um
contingente que vota em Bolsonaro ou em quem ele indicar, com ou sem escândalo,
com ou sem golpismo, com ou sem ataques a minorias, à ciência ou à cultura.
Da suspeita de traição vem a escolha
monárquica de manter na descendência o protagonismo. Bolsonaro leva em conta
confiança, sobrenome e sangue, diz Vasconcellos. Só os filhos conjugam os três
atributos; Michelle, a esposa, tem o sobrenome, mas não tem o DNA e, talvez,
nem a confiança.
— Ficaria surpreso, se abrisse mão do Flávio.
Bolsonaro precisa continuar sendo visto como um agente político significativo,
relevante. Caso contrário, o campo da direita passaria a outro nome — completa.
O pouco apreço pela democracia é variável
nada desprezível. Bolsonaro duvidou do sistema eleitoral e da credibilidade das
urnas eletrônicas até quando venceu em 2018, no segundo turno. Fez o mesmo
quando perdeu, quatro anos atrás. Liderou a trama golpista, foi condenado e vê
seu grupo político tramar por alívio de penas e anistia. É certo, à moda
trumpista, farão o mesmo se o escolhido for mal em 2026. Não chegou ao segundo
turno? Fraude. Perdeu a eleição? Fraude. Importante, para o bolsonarismo, é
continuar a existir.

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