Correio Braziliense
Para salvar o Master, o Governo do Distrito
Federal comprometeu as finanças públicas a ponto de não conseguir financiar a
comemoração de aniversário de Brasília
Chamava-se botija à caixa cheia de dinheiro enterrada no terreno de uma casa. O dono do Banco Master descobriu uma botija guardada nos cofres do BRB e corrompeu seus zeladores para repassarem R$ 12 bilhões ao seu banco. Quando o roubo foi descoberto, fizeram uma lei para colocar dentro da botija o terreno onde ela estava. Os donos do dinheiro roubado pagam seu prejuízo vendendo sua propriedade fundiária. A crise na saúde, o desastre na segurança, a vergonha na educação e a corrupção astronômica não são vistos como ameaças à ordem social mas, em nome da ordem, o Supremo Tribunal Federal (STF) aceita vender terreno do povo para cobrir o roubo feito contra o povo.
Para salvar o Master, o Governo do Distrito
Federal comprometeu as finanças públicas a ponto de não conseguir financiar a
comemoração de aniversário de Brasília (e bastaria 1% da propina identificada
pela Polícia Federal em benefício do presidente do BRB).
O rombo do BRB e a falta de dinheiro para a
festa de 66 anos da nossa cidade são dois lados de um mesmo fato: um governo
corrupto, ineficiente e desprovido de valores morais, capaz de destruir as
finanças do DF em troca de propinas para seus dirigentes. A população merece
investimentos para enfrentar a tragédia na saúde, a crise na segurança, o
abandono da educação, o caos no trânsito e também celebrar o aniversário de
Brasília. No lugar da festa, recebemos o carimbo de que este governo escolhido
por nossos eleitores promove o desperdício e a corrupção usando dinheiro que o
Brasil envia ao DF por determinação constitucional para sua manutenção. A
imagem é a de que não sabemos eleger nossos governantes, acusados de corrupção,
desperdício e ineficiência; e de que não merecemos os valores que recebemos do
Fundo Constitucional. Triste que este governo continua: o agora ex-governador
está solto, sua imensa fortuna intacta e a atual governadora continua sendo
controlada por ele.
Esse é o presente que o atual governo nos dá
pelos 66 anos: cofre vazio, a ponto de não termos a festa de aniversário; a
destruição de um banco que nos orgulhava; a ameaça de alienação da propriedade
fundiária de nossas futuras gerações; e a vergonha diante do resto do Brasil,
como se cada um de nós fosse conivente ou, no mínimo, omisso.
Felizmente, muitos em todo o Brasil ainda
lembram que já elegemos governos diferentes do atual. Mesmo antes da criação do
Fundo Constitucional, o GDF foi capaz, com competência, imaginação e sem
corrupção, de eleger prioridades corretas, universalizar o saneamento,
construir escolas e ampliar o horário escolar; adotar o telematrícula, reduzir
a tarifa do transporte público, elevar o salário do professor ao maior nível do
Brasil; fazer a Rodoviária do Plano Piloto parecer um aeroporto; implantar o
Corujão, decidir e executar o projeto arquitetônico da Ponte JK com o desenho
que ela mantém até hoje; receber as obras do metrô paradas e colocá-lo para
funcionar da Ceilândia até a Galeria dos Estados; construir praças
comunitárias, graças ao orçamento participativo.
Além de ações como essas, tivemos governos
exemplares para o mundo, que criaram programas como o Bolsa-Escola (depois
espalhado pelo Brasil e pelo mundo, embora com menos ênfase na educação), o
Poupança-Escola (renascido 30 anos depois como Pé-de-Meia), a Campanha de
Respeito à Faixa de Pedestres (gesto educacional até hoje não repetido em
outras cidades), o Saúde em Casa (que ofereceu um sistema inteligente e
eficiente que, em vez de fila para ser atendido, o paciente recebia atendimento
na própria residência); promoveram as inesquecíveis Temporadas Populares.
Governos éticos, sem escândalo ou denúncia de corrupção.
A lembrança de que foi possível termos
governos eficientes, socialmente comprometidos e com comportamento decente e a
percepção de que o atual tanto roubou que não é capaz de comemorar o
aniversário da cidade, devem nos motivar a dar um presente ao Distrito Federal:
não ficarmos omissos nas eleições de outubro. Nosso presente a Brasília é
participarmos da eleição com brilho nos olhos, como ocorria no passado, na
qualidade de eleitor ou de candidato, elegendo dirigentes, governantes ou
parlamentares que orgulhem o DF diante do Brasil.
Este ano não permita a omissão do
acomodamento: Brasília exige dedicação de todos, candidatos ou eleitores, com
empolgação para mudar nossos governantes e nossos representantes no Senado, na
Câmara de Deputados e na Câmara Legislativa.
*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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