domingo, 10 de maio de 2026

Cabo de guerra, por Dorrit Harazim

O Globo

Os dois lados sabem que devem esperar o esgotamento gradual dos recursos políticos, econômicos ou militares do adversário

A palavra hormuz deriva do nome de uma divindade suprema da Pérsia antiga, portadora de sabedoria, luz e bondade. Em tradução reducionista, “Senhor da Sabedoria”. No contexto da guerra desencadeada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, é difícil encontrar qualquer vestígio dessas virtudes no estrangulamento duplo do Estreito de Ormuz. Tanto para o presidente americano Donald Trump como para o que restou da liderança decapitada do Irã, trata-se de uma guerra de usura — vence quem aguentar mais tempo o custoso fechamento do Estreito.

Oficialmente, continua em vigor um esquisitíssimo cessar-fogo assinado em 8 de abril passado. Suas duas semanas de validade, inicialmente previstas para reavaliação de parte a parte, já não têm prazo para acabar. É nesse ínterim poroso de violações pelos dois lados que se desenrola o atual cabo de guerra.

Em contraposição à vantagem geográfica do Irã sobre o estreito, os Estados Unidos precisaram alocar 15 mil soldados e um imponente arsenal bélico para garantir o bloqueio naval do adversário. Dias atrás, três navios-tanque vazios foram alvejados ao tentar buscar sua carga num porto iraniano. Segundo divulgação do U.S. Central Command, há atualmente 70 navios petroleiros impedidos de se aproximar ou de zarpar do Irã. Pouca coisa não é, pois a capacidade de transporte dessa carga interrompida é de mais de 166 milhões de barris, a um prejuízo estimado em US$13 bilhões. Entre ameaças de extinção do inimigo e estapafúrdias declarações de vitória antecipada, Trump só não obteve a ansiada autorização da Arábia Saudita e do Kuwait para usar suas bases e o espaço aéreo aliado caso queira voltar a atacar o Irã de forma tonitruante.

Ocorre que um bloqueio naval não elimina de imediato o petróleo já em trânsito, nem o armazenado offshore, ainda menos o transportado por intermediários. Calejado por meio século de sanções econômicas por parte do Ocidente, o regime dos aiatolás costurou um razoável sistema de escoadouro por via terrestre através da Ásia Central. Ainda assim, o fechamento de seus portos dói. Segundo dados da Secretaria de Energia dos Estados Unidos, o Irã já reduziu sua produção em cerca de 400 mil barris por dia devido à limitação de armazenamento e redução forçada no 1,7 milhão de barris por dia que exportava até o mês passado.

A questão-chave se chama tempo. Os dois lados sabem que não devem esperar uma vitória rápida e decisiva, mas sim o esgotamento gradual dos recursos políticos, econômicos ou militares do adversário. Esses recursos são assimétricos. Em tese, o Irã precisa apenas de um drone militar barato para fazer explodir um petroleiro “não amigo” no Estreito de Ormuz, estremecendo as seguradoras mundiais. A vigilância dos Estados Unidos a tantos mares e oceanos de distância, em contraste, é custosa mesmo para a superpotência mundial.

Recentemente, o topetudo secretário da Defesa, Pete Hegseth, afirmou perante o Congresso que o custo da Operação Fúria Épica está em US$ 25 bilhões. Ridículo. Esse valor contempla apenas os mais de 2 mil mísseis Tomahawk e Patriot já despejados sobre o Irã, as missões aéreas dos aviões de guerra já efetuadas e todo o restante do equipamento militar e humano já empregado. Em artigo publicado no New York Times, Justin Wolfers, professor de políticas públicas e economia da Universidade de Michigan, aconselha os americanos a olhar para além do hoje, para quando os custos mais realistas tomam corpo — ele acredita que alcancem várias centenas de bilhões de dólares, quando não a casa do trilhão:

— Guerra é um inferno. E o inferno tem custo alto — conclui.

Tem mais. Na semana passada, um relatório confidencial da CIA endereçado à Casa Branca e revelado pelo Washington Post estima que o Irã será capaz de aguentar o bloqueio naval americano por 90 a 120 dias, talvez até mais, antes de sofrer um colapso econômico generalizado. Além disso, em franca contradição com as cifras aleatórias de Trump, o relatório avalia que o Irã ainda mantém ativos perto de 75% de seu estoque de lança-mísseis e 70% de seus mísseis — ante 18% ou 19% pelas contas do presidente.

O tempo político de Trump tampouco é infinito neste ano de eleições legislativas decisivas. Em novembro, o custo social da guerra e o preço da gasolina vão às urnas. Uma famosa frase atribuída a Arnold. J. Toynbee — “Civilizações morrem de suicídio, não por assassinato” — volta à atualidade neste ano dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos. Veremos.

 

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