domingo, 24 de maio de 2026

China se beneficia das crises dos EUA, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A cúpula Xi Jinping-Vladimir Putin e os últimos movimentos de Donald Trump em relação ao Irã e a Cuba ampliaram os ganhos estratégicos da China em sua disputa por hegemonia com os EUA.

O presidente americano se vê obrigado a ceder discretamente nas negociações com o Irã, conforme se intensificam as pressões econômicas e políticas decorrentes do choque de energia causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A manutenção de um programa nuclear pacífico iraniano agora está sobre a mesa de negociações.

Para compensar a visível derrota, Trump volta a pressionar Cuba, cuja mudança de regime ele vê como um fruto ao alcance da mão – o que Binyamin Netanyahu o fez acreditar sobre o Irã.

O diretor da CIA, John Ratcliffe, reuniu-se em Havana no dia 14 com o coronel Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro e responsável pela segurança do veterano líder revolucionário, com o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas, e o diretor da inteligência cubana, Ramón Romero Curbelo.

A missão de Ratcliffe era convencê-los a abandonar o socialismo e a condição de plataforma de espionagem de China e Rússia. Três dias depois, o site Axios revelou, com base em inteligência americana, que Cuba desde 2023 adquiriu mais de 300 drones iranianos e russos para empregar contra alvos americanos.

Trump passou então a apostar na intervenção de forças especiais, sob o pretexto de capturar os denunciados pela Justiça da Flórida na derrubada de duas avionetas civis tripuladas por americanos em 1996: Raúl Castro, de 94 anos, e cinco ex-pilotos e militares cubanos.

A expectativa dos americanos é que sirva de incentivo para um racha no regime, levando ao poder militares pragmáticos dispostos a aceitar as condições dos EUA, como fizeram os venezuelanos.

As energias da projeção de poder americano estão sendo dispersas por caprichos político-ideológicos de Trump. Para castigar Friedrich Merz, para quem o Irã está “humilhando” os EUA, Trump ordenou a retirada de 5 mil dos 36 mil soldados americanos da Alemanha.

Quando o secretário da Defesa Pete Hegseth suspendeu o envio de 5 mil soldados para a Polônia, Trump o mandou rever a decisão, para premiar o presidente polonês, Karol Nawrocki, que segue a corrente conservadora, anti-europeia e antiimigração liderada pelo presidente americano. Não é um bom critério de alocação de forças militares.

Enquanto isso, Xi dispensava a Putin o mesmo tratamento que havia dado a Trump uma semana antes: ouviu os pleitos, mas não atendeu a maioria deles. O líder chinês demonstrou que não depende nem da energia russa nem dos chips americanos. •

 

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