Folha de S. Paulo
Casos se acumulam nas cortes altas e
evidenciam a necessidade de que haja um regramento de condutas
Códigos de ética não resolvem, mas são um
começo na imposição de freios ao exercício desenfreado do poder
O tema do conflito de interesses chegou para ficar, e pelo visto se ampliar, nos tribunais superiores. Já tínhamos o problema da venda de sentenças no Superior Tribunal de Justiça (STJ), a questão de ligações perigosas no Supremo (STF), a criação de novos penduricalhos na Justiça Militar (STM) e agora temos a venda de cursos para advogados na corte do trabalho (TST). Esses tópicos não contam a história toda das incorreções em curso nesse universo, mas ao menos fortalecem a evidência da necessidade de um regramento de condutas.
Códigos de ética, sozinhos, não dão conta do
riscado, mas são um começo na imposição de freios a autoridades que exercem o
poder de modo desenfreado e que ficariam no mínimo submetidas ao
constrangimento de serem vistas como infratoras.
O presidente do TST, Luiz Philippe Vieira de
Mello Filho, junta-se
nessa cruzada (ainda inglória) ao ministro Edson Fachin,
expondo a situação de maneira ainda mais clara do que tem feito o presidente do
STF.
"Ministros dando palestras em cursos
pagos por advogados, ensinando como atuar no tribunal, é completamente
antiético", disse, pontuando o conflito de interesses com todos os efes e
erres.
Surpreende que tenha sido, como alega, pego
de surpresa, visto que a maioria dos juízes —14 dos 25 do colegiado—
complementam seus proventos com a atividade de fornecer a advogados o caminho
das pedras para se dar bem na defesa de suas causas trabalhistas no tribunal
onde serão julgadas. Isso não é exercício legítimo do magistério, é lição de
lobby indevido.
Peca o magistrado Vieira de Mello, porém, ao
reforçar e normalizar a divisão da
corte entre os juízes que têm interesses e os que defendem causas,
colocando-se na ala dos moralmente superiores. Fica, com isso, evidente a
existência no TST do mesmo tipo de dinâmica partidária que contamina o STF.
Nessa toada, nada se corrige; tudo é jogado
na vala das disputas internas por um protagonismo político incompatível com
quem deve à sociedade o ofício da boa justiça.

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