sexta-feira, 15 de maio de 2026

Conversa com Vorcaro atropela Flávio Bolsonaro e abala direita, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Divulgação de áudio retira Lula do aperto causado pela rejeição de Jorge Messias

Flávio, em tese, poderá ser trocado por alguém mais capacitado, mas Zema e Caiado dificilmente serão protagonistas

Veio como um terremoto a revelação de um áudio no qual o senador Flávio Bolsonaro pede milhões de reais ao banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar a cinebiografia de seu pai. O furo do site Intercept atingiu não apenas a candidatura do senador, mas a própria perspectiva da direita na eleição presidencial.

O abalo sofrido por Flávio retira Lula do aperto causado pela rejeição de Jorge Messias, seu candidato ao STF. O petista respira aliviado. Se a recente rodada da pesquisa Quaest já havia sinalizado uma leve recuperação frente ao adversário que vinha crescendo, agora o céu desanuviou.

O outro lado da moeda é que o campo da esquerda considera Flávio o concorrente ideal, por tratar-se de notório incompetente, sem nenhuma experiência de gestão pública, com farto histórico de atividades suspeitas e de relacionamento com bandidos. Agora, poderá, em tese, ser trocado por alguém mais capacitado. Mas quem? O governador Tarcísio de Freitas, candidato dos sonhos do establishment e o mais temido pelo PT, já perdeu o prazo oficial para se afastar e concorrer, assim como Ratinho Jr. e outros.

Romeu Zema e Ronaldo Caiado, com suas diferenças, dificilmente serão protagonistas. O mineiro foi mais agressivo na sua tentativa de aumentar o desgaste de Flávio.

A tarefa de substituir o senador, se é que isso poderá realmente ocorrer, terá também pela frente a realidade de que o escândalo do Banco Master envolve sobretudo personagens da direita, sejam eles do centrão ou do bolsonarismo. A operação, na semana passada, contra Ciro Nogueira, que foi chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, serviu como um lembrete.

Qualquer mudança mais drástica terá, ainda, que partir ou contar com a bênção do capitão recluso. Por ora, o mais provável é deixar como está para ver como fica.

Não é descartável, também, que nomes ligados ao PT e ao presidente venham a aparecer nas investigações da Polícia Federal ou numa possível e temida delação de Vorcaro. Mas é impossível, de todo o modo, imaginar um áudio de Lula pedindo favores ao banqueiro e o tratando por "irmão".

Sabe-se que Vorcaro desembolsou cerca de R$ 61 milhões para a produção de "Dark Horse", ardilosamente concebido para levar Bolsonaro, o pai, a participar indiretamente da campanha eleitoral. As notícias, contudo, são de que a negociação entre a família e o banqueiro corrupto ia muito além dessa quantia. Envolveria Eduardo Bolsonaro e fundo suspeito nos EUA —não sendo nada certo de que se tratava de bancar o filme.

Num país como o Brasil, poucos meses antes de a campanha começar de verdade podem ser um longo tempo. O território está minado, e novas explosões devem acontecer.

Por fim, vale lembrar que os indicadores da cotação do dólar e da Bolsa no chamado "Flávio day" mostraram —como se já não fosse evidente— em que lado está o mercado financeiro, sempre inclinado a pegar caronas irresponsáveis para derrotar Lula. O tremor deixou claro que a grande armação para tentar transformar Flávio Bolsonaro num candidato bacana, moderado e amigo do ajuste fiscal, se já era improvável, agora tornou-se impossível. Resta saber como o caso vai evoluir e para onde a Faria Lima seguirá. A canoa furou e o desembarque parece inevitável.

 

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