quinta-feira, 14 de maio de 2026

Desmanche de Flávio abre avenida (esburacada) para Michelle, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Candidato bolsonarista tropeça na suspeita de corrupção, quesito mais valorizado pela direita

Que a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) era de papel já se sabia. O que não se imaginava era que incinerasse tão cedo. A quase cinco meses do primeiro turno, ainda há tempo de seu partido emplacar outro nome. Michelle? É o estepe natural, até porque sempre pareceu menos vulnerável como candidata - e menos previsível como presidente - que o enteado.

Para pôr em pé uma candidatura, a ex-primeira-dama enfrentaria a dificuldade de encabeçar o mesmo combo de interesses reunidos em torno do senador - do marido ao Centrão, passando por investidores cuja frustração com a reportagem do “The Intercept”, na tarde desta quarta, fizeram balançar bolsa e câmbio.

Oferece, por outro lado, maior competitividade eleitoral que o enteado, a entrada num eleitorado superior, em 8,4 milhões, ao masculino e a lealdade de um segmento (evangélico) que, na largada, tem 27% do colégio eleitoral do país. A decisão estará, em grande parte, nas mãos do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, do líder do partido no Senado, Rogério Marinho (RN), que hoje é coordenador da campanha presidencial do PL e, principalmente, do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Michelle, porém, assumiria a candidatura de um bloco trincado pelas relações dos enteados com o Master. As percepções de um importante dirigente partidário, colhidas no calor da repercussão dos diálogos entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, são de que pesam contra Flávio Bolsonaro a afronta ao decoro e a suspeita de lavagem de dinheiro.

A primeira deriva da mentira do senador de que não conhecia o ex-banqueiro quando os diálogos reproduzidos na reportagem revelam que não apenas se frequentavam como se tratam por “irmãos”.

A segunda vem das pistas que indicam depósitos de Vorcaro num fundo ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro no Texas. Além disso, avalia este dirigente, os valores mencionados - um pedido de R$ 134 milhões que teria resultado em pagamentos de R$ 61 milhões - para a finalização de um filme sobre o ex-presidente é muito superior ao praticado no mercado de cinema.

O que se está a sugerir é que os irmãos Bolsonaro, mais do que um filme quase cinco vezes mais caro que “O Agente Secreto”, pretenderam se valer da proximidade com o ex-banqueiro para fazer caixa. A suspeita faz do senador Ciro Nogueira (PP-PI) um eterno aprendiz.

O presidente do Progressistas pretendeu dissimular o ato de ofício configurado na proposta de elevação da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, a “emenda Master”, com sua reapresentação. O pré-candidato do PL não pediu a renovação do patrocínio do Master ao filme do pai. Limitou-se a insistir na CPI do Master para repisar a tese de que é o PT que resiste à investigação.

A rodada desta quarta da Genial/Quaest trouxe uma prévia do estrago potencial desta revelação sobre as relações de Flávio Bolsonaro com Vorcaro. A principal preocupação do eleitor é a violência (31%), seguida, com folga, pela corrupção (18%). Na direita, porém, os dois problemas estão empatados. O “governo Bolsonaro”, que aparece como o quarto “culpado” pelo escândalo do Master, corre o risco de subir de patamar.

Nas notas e vídeos divulgados na tarde de quarta, Flávio Bolsonaro sugeriu que vai cair atirando no PT da Bahia, cujo senador, Jaques Wagner, deu a cara à tapa na tribuna dizendo que seu pecado foi privatizar uma rede de supermercados populares posteriormente revendida ao Master. Se o senador petista tem um depósito na conta de sua enteada a esclarecer, contra o pré-candidato bolsonarista à Presidência resta o pedido de dinheiro às vésperas da liquidação do banco e da primeira prisão de Vorcaro.

Não bastasse o desgaste a ser angariado na tentativa de ampliar ao centro, Flávio Bolsonaro tende a se deteriorar no próprio nicho da direita, abrindo espaço para MichellePerde a credibilidade de criticar Alexandre de Moraes pelo contrato do escritório da esposa do ministro com Vorcaro porque, na verdade, concorreu pelo dinheiro do ex-banqueiro.

A ex-primeira-dama, se consolidada como candidata, não teria, porém, uma avenida desimpedida. A pesquisa da semana mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recuperou terreno junto às mulheres, segmento mais receptivo às políticas públicas do que o dos homens.

Uma delas, aliás, a desoneração do Imposto de Renda até cinco salários mínimos, que parecia ter se desmanchado no ar, deu, finalmente, o ar de sua graça. Na pesquisa divulgada nessa quarta, eleitores de todas as faixas de renda, mas, especialmente aqueles ganham até dois salários mínimos, finalmente registraram um impacto positivo da isenção no patamar de oito pontos percentuais.

O potencial de recuperação do eleitorado feminino que, nos últimos meses, se distanciou de Lula ainda deve crescer com o Desenrola 2, programa de renegociação de dívidas majoritariamente aprovado, e com o fim da “taxa das blusinhas” que, definida em medida provisória na noite de terça, ainda não teve seu impacto medido em pesquisas.

Desnecessário para uns, ante o provável desmanche de Flávio Bolsonaro, o fim da “taxa das blusinhas” pode acabar por criar, para outros, uma capa de gordura necessária a Lula face à chegada de Michelle no pedaço.

 

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