O Globo
Há anos estamos no dilema de escolher o
candidato menos ruim, em vez de projetos. Talvez essa luta autofágica permita
aos que não estão nela encontrar um caminho alternativo.
O sucesso — no sentido de superação, não de vitória — da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República não depende mais dele, nem mesmo do seu pai, mas dos outros segredos que porventura tenha e que quase certamente surgirão no decorrer das investigações da Polícia Federal (PF) e do que mais terá a contar o ex-banqueiro Daniel Vorcaro em sua delação premiada. Difícil acreditar que nada de novo surja, sobretudo porque Flávio perdeu a credibilidade junto aos seus por ter escondido a relação com Vorcaro. O que mais terá escondido?
Os diversos recados que Vorcaro já recebeu
mostram-lhe que não tem chance de enganar os investigadores do Ministério
Público e da PF. A reação dos bolsonaristas, revelada pelos trackings e que
deverá ser confirmada nas próximas pesquisas de opinião, mostra que sua
candidatura, já pesada pelas diversas acusações, tornou-se mais pesada ainda e
pode perder apoio para outros candidatos do campo da direita. Se houver essa
tendência, estará ferida. Não mortalmente, mas a direita chegará enfraquecida
ao segundo turno, pois dificilmente a família Bolsonaro o deixará à margem para
apoiar outro candidato.
De qualquer maneira, o candidato de direita
que chegar ao segundo turno terá competitividade contra Lula, pois o antipetismo
continua forte. Se não houver novidades negativas no caminho de Flávio, ele
poderá recuperar o apoio dos antipetistas num segundo turno. Sempre é bom
lembrar que, mesmo com todos os problemas do mensalão, Lula reelegeu-se em
2006. O eleitorado pregou-lhe um susto no primeiro turno, dando ao governador
paulista Geraldo Alckmim 40% dos votos, meta que nenhum outro candidato do PSDB
até então tinha atingido. Mas Alckmim, hoje vice de Lula, não teve fôlego para
ampliar o eleitorado tucano e terminou o segundo turno com aproximadamente o
mesmo índice do primeiro.
Hoje, com a política polarizada como nunca se
viu, difícil achar que eleitores dispostos até agora a votar em Flávio mudariam
sua escolha para Lula. Os centristas, que podem mudar de voto, terão mais uma
vez à disposição a promessa de Lula de um governo de união nacional. Mas terão
também candidaturas de direita, como a dos ex-governadores Romeu Zema e Ronaldo
Caiado, não atingidos pelo desgaste da família Bolsonaro.
Assim como Flávio prometia ser um Bolsonaro
civilizado, também não há garantia de que o quarto governo de Lula será mais ao
centro. Mas não há dúvida de que o quadro mudou a partir dos diálogos de Flávio
com Vorcaro revelados. O financiamento do tal filme não teria nada demais, não
fosse o montante do dinheiro, valor fora da curva para produções nacionais, e a
declaração de apoio incondicional que o senador deu ao então banqueiro, mesmo
na véspera de ele ser preso tentando fugir do país.
As investigações, ou a delação de Vorcaro,
poderão informar para onde foi tanto dinheiro, e qual a motivação dele para
além do filme. Não há indicações de que o país se livrará tão cedo da disputa
entre direita e esquerda, mas, a depender da argúcia dos candidatos de direita
independentes, poderemos ter um campo aberto para a distensão política que os
diferencie dos extremismos que vêm dominando o debate. Talvez o eleitorado
esteja esperando um discurso mais focado no futuro que no passado. Talvez a
oferta de propostas supere o mal-estar que a política atual provoca devido à
polarização, não de ideias, mas de pessoas.
São dois líderes populares que, a seu jeito,
se aproveitam da rejeição de cada um para vencer uma batalha personalista que
não leva em conta o desenvolvimento do país, mas o benefício de seu grupo
político. Há anos estamos no dilema de escolher o candidato menos ruim, em vez
de projetos. Talvez essa luta autofágica permita aos que não estão nela
encontrar um caminho alternativo.

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