quinta-feira, 14 de maio de 2026

Donald Trump contra os Estados Unidos, por Maria Hermínia Tavares*

Folha de S. Paulo

Estudo mostra a rápida erosão do soft power da grande potência

Entre 68 países, EUA estão em 64°, à frente apenas de Irã, Afeganistão, Coreia do Norte e Israel

Em pouco mais de um ano, Donald Trump abalroou o conjunto de instituições que deram feição própria à ordem internacional liberal, criada no segundo pós-Guerra e da qual os EUA foram avalista e principal beneficiário.

Megalomaníaco, desorganizou o sistema de comércio com o tarifaço e debilitou o FMI e o Banco Mundial; paralisou o Conselho de Segurança, cerne das Nações Unidas; abandonou o Acordo de Paris, dificultando ainda mais os já penosos esforços de mitigação da crise climática. Enfraqueceu a Otan, pilar do sistema de segurança europeu; destruiu o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), substituindo a proveitosa cooperação comercial com o Canadá e o México pela ameaça à soberania dos vizinhos. Invadiu a Venezuela e sequestrou seu ditador, retomando uma prática de intervenção armada na vizinhança que se imaginava confinada ao passado. Estrangula Cuba, ao extremar um cruel bloqueio econômico a fim de derrubar o regime castrista. Em parceria com Israel, a quem apoiou no massacre de Gaza, faz agora guerra ao Irã, com consequências imprevisíveis —mas certamente nefastas— para o Oriente Médio e a economia mundial.

Se o saldo é negativo para o mundo, que se tornou um lugar ainda mais inseguro, a aposta do titular da Casa Branca no uso despudorado de seu poder econômico e militar devasta a reputação internacional do país.

Pesquisa recente dá conta do desastre. Conduzida pela empresa japonesa Nira Data, a pedido da Alliance of Democracies, leva o título de "Democracy Perception Index 2026" e foi feita em 68 países. Nela, comparam-se as percepções e sentimentos do público não só sobre o sistema democrático mas também sobre segurança e conflitos globais, além de avaliação, uma a uma, das nações incluídas na amostra.

Quando se coteja a diferença entre percepções positivas e negativas sobre cada país, os EUA ocupam a 64ª posição, à frente apenas de Irã, AfeganistãoCoreia do Norte e Israel.

Mas não é tudo. Há três anos, as opiniões positivas sobre a potência do norte superavam com folga as negativas. O quadro se inverteu, com a queda vertiginosa da aprovação a partir de 2025 —não por acaso, primeiro ano de Trump 2.0.

O estudo capta um fenômeno de consequências duradouras: a rápida erosão do soft power (poder brando), termo caro aos estudiosos das relações internacionais. Designa a capacidade de um país de influenciar a conduta de outros pela persuasão e mobilização de valores compartilhados em lugar da coerção e da força bruta, conhecidos como instrumentos do hard power (poder duro).

Países se tornam potências internacionais quando lançam mão de uma combinação desses dois atributos. Têm recursos econômicos e militares para coagir, mas não se impõem por muito tempo se não souberem atrair e convencer outras nações dos valores que defendem.

O uso cínico e desabrido que Trump faz do imenso arsenal de recursos de coerção está destruindo o muito de poder suave que os EUA construíram. Essa é a tese defendida por Stephen Walt, professor da Universidade Harvard, em artigo contundente publicado na revista Foreign Policy: "The End of America’s Soft Power". Não poderia estar mais certo.

*Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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