Crise de Imagem
Flávio sofre desgaste do agro aos evangélicos
e tem primeira baixa com saída de marqueteiro
Por Luísa Marzullo e Letícia Pille - O Globo
A crise instalada na pré-campanha de Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), desencadeada a partir da revelação de sua proximidade com
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, estremeceu as pontes com segmentos de
sustentação do bolsonarismo nas últimas campanhas e derrubou o marqueteiro
contratado pelo senador para cuidar de sua imagem. Em meio ao desgaste, o PL já
identificou a contrariedade com interlocutores do mercado financeiro, do
agronegócio e lideranças evangélicas.
Além disso, a insatisfação de aliados fez a
primeira vítima no entorno de Flávio, com a saída do publicitário Marcello
Lopes, o Marcellão. Ele estava nos Estados Unidos durante a semana mais crítica
para a comunicação do candidato, o que gerou contrariedade entre pessoas
próximas ao senador.
Agora, assume a função Eduardo Fischer, que fez a campanha de Alvaro Dias (Podemos) na corrida presidencial em 2018 e conhecido por trabalhos publicitárias fora da política.
Repercussão negativa
Embora ainda predomine um discurso de
cautela, aliados admitem que o escândalo interrompeu a aproximação de Flávio
com empresários, investidores, produtores rurais e pastores influentes,
justamente no momento em que a campanha acreditava estar conseguindo reduzir
resistências.
Entre evangélicos, o impacto foi imediato. O
áudio em que Flávio cobra dinheiro de Vorcaro provocou irritação em parte das
lideranças religiosas, sobretudo pelo fato de que o senador vinha minimizando
publicamente a relação com o banqueiro.
No grupo de WhatsApp “Aliança”, que reúne
algumas das principais lideranças evangélicas alinhadas ao bolsonarismo — entre
elas Silas Malafaia, Robson Rodovalho, Renê Terra Nova e Estevam Hernandes — o
caso passou a dominar as conversas nos últimos dias.
Segundo relatos, pastores reconheceram a
gravidade política da situação e entraram em modo de espera para medir se
haverá novos desdobramentos antes de declarar um rompimento.
O bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa
Terra, afirmou que o episódio foi um “balde de água fria” na pré-campanha
presidencial do senador.
— Foi muito negativo tanto o fato em si, da
aproximação com Vorcaro, como a explicação em prestações. Claro que abalou o
segmento, mas estamos todos em modo de espera para ver o que é crime e o que é
apenas narrativa. Os próximos dias e semanas vão ser importantes.
Como mostrou o GLOBO ontem, o pastor Silas
Malafaia, próximo à família, foi um dos primeiros a se manifestar. Ele vem
demonstrando descontentamento.
— A relação de Flávio com evangélicos esfria,
sim, se tiver comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme.
Por enquanto, estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil
apoiar; mas, se não tiver, vamos com Flávio — afirmou o pastor da Assembleia de
Deus Vitória em Cristo.
Rodovalho disse ainda que a ex-primeira-dama
Michelle Bolsonaro voltou a aparecer com mais força nas conversas internas do
segmento como eventual alternativa caso a situação de Flávio se agrave:
— Michelle não perderia nada do que já foi
conquistado da transferência de votos do Bolsonaro pai. Ela está no partido e é
viável, mas vamos esperar o presidente Bolsonaro decidir.
Anteontem, a ex-primeira-dama foi questionada
publicamente, pela primeira vez, sobre o envolvimento do senador com Vorcaro.
Ela evitou opinar e afirmou que o pré-candidato à Presidência é quem deve se
posicionar.
Agenda na Faria Lima
No mercado financeiro, a repercussão do caso
dominou conversas na Brazil Week, em Nova York, que ocorreu na semana passada,
e ampliou dúvidas entre empresários e investidores que vinham enxergando Flávio
como o nome mais competitivo da direita para enfrentar o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT).
Anteontem, porém, o desgaste aumentou após a
revelação de que o senador também procurou Daniel Vorcaro após a primeira
prisão do banqueiro, quando ele cumpria medidas restritivas em São Paulo.
Nas últimas semanas, o entorno do
presidenciável do PL vinha intensificando reuniões reservadas com gestores,
banqueiros e empresários em uma tentativa de apresentar Flávio como um
bolsonarista menos radical e comprometido com responsabilidade fiscal e
previsibilidade econômica.
A crise fez auxiliares defenderem uma
aceleração dos anúncios de propostas econômicas e da agenda pública do senador
para evitar que o desgaste se cristalize no setor.
Foi nesse contexto que Flávio desembarcou
novamente em São Paulo ontem para uma agenda desenhada justamente para conter a
deterioração do ambiente.
O senador participou de um almoço reservado
com executivos ligados à Faria Lima e, à noite, se reuniu com empresários do
turismo, hotelaria, aviação e serviços. Hoje, ainda tem compromissos antes de
retornar a Brasília.
A campanha acompanhou de perto as oscilações
no mercado, inclusive com alta do dólar, a partir da primeira relevação do site
Intercept Brasil. A partir daí, empresários e operadores financeiros passaram a
mencionar com mais frequência alternativas dentro da direita, especialmente o
governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que já possuía trânsito
consolidado no mercado pelo perfil empresarial e discurso liberal. Publicamente,
contudo, ainda não há disposição para verbalizar movimentos mais bruscos.
Responsável por organizar um encontro de
Flávio com empresários há dois meses, o presidente da Federação das Indústrias
de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, evitou antecipar qualquer mudança de posição:
— Está cedo.
Busca por plano B
Entre empresários e parlamentares ligados ao
agronegócio, interlocutores afirmam que o apoio ao bolsonarismo permanece
majoritário, mas admitem que cresceu o desejo de parte dos produtores e
lideranças rurais por uma alternativa de direita menos sujeita a turbulências
políticas.
A resistência ao nome de Flávio já existia
antes da crise envolvendo Vorcaro. Desde a desistência do governador de São
Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), da disputa presidencial, parte do
setor vinha demonstrando preferência por nomes como Ronaldo Caiado (PSD) e
Zema, ambos vistos como políticos com perfil mais executivo e maior capacidade
de diálogo com o setor produtivo.
O caso Master aprofundou esse movimento. Zema
passou a ser observado com mais atenção por segmentos ligados ao discurso
liberal e empresarial, enquanto Caiado mantém força junto ao setor rural e
segue com forte interlocução com a Frente Parlamentar Agropecuária.
Apesar disso, integrantes da bancada
ruralista minimizam a possibilidade de afastamento em relação a Flávio.
— O Vorcaro é tóxico, mas nosso entendimento
é que isso é uma marola que passa — afirmou o deputado Lafayette de Andrada
(PL-MG), integrante da Frente Parlamentar Agropecuária
Dirigentes do PL admitem que os próximos dias serão decisivos. Como revelou o GLOBO, o partido deu um prazo de 15 dias para medir o impacto do caso e avaliar se Flávio Bolsonaro terá viabilidade diante da evolução da crise. Ontem, após ser enquadrado por aliados, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, admitiu que havia dado este prazo, mas modulou o discurso e afirmou que Flávio tem sua força política “mais sólida do que nunca”. (Colaborou Sérgio Quintella)

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