Folha de S. Paulo
Desenvolvimento econômico e dignidade humana
não são objetivos concorrentes, mas complementares
Redução da jornada não é a vilã da produtividade;
empresas já relatam ganhos, melhora do ambiente e redução da rotatividade
Mais de 15 milhões de brasileiros vivem hoje
sob a escala 6x1.
Homens e mulheres que, durante seis dias da
semana, acordam antes do amanhecer e atravessam cidades inteiras
para trabalhar. E, ao retornarem para casa, encontram outras tarefas à espera.
Essa realidade pesa ainda mais sobre as mulheres, que acumulam jornadas
múltiplas e chefiam mais da metade dos lares brasileiros.
São milhões de pessoas que não conseguem usufruir do convívio com os filhos, de lazer, estudos, cuidados com a saúde e do próprio descanso. Trabalhadores que comprimem em apenas um dia de folga uma vida inteira de obrigações pessoais e familiares.
Foi olhando para esse cenário que a Câmara dos
Deputados retomou um debate que há quase 40 anos não era
revisitado, desde a Constituição de 1988. Um debate que vai muito além da
quantidade de horas trabalhadas e discute o direito ao tempo de vida —porque
existe uma diferença entre viver e apenas sobreviver.
Ao longo do
processo, mais de 3.200 pessoas foram ouvidas, entre trabalhadores,
especialistas, representantes da sociedade civil e do setor produtivo. Foram
realizadas audiências públicas, reuniões e debates nas cinco regiões do país,
permitindo conhecer demandas, preocupações e expectativas de cada atividade
econômica Brasil afora.
O desafio da Câmara foi encontrar equilíbrio.
Garantir proteção ao trabalhador sem ignorar a realidade de quem produz,
empreende e gera empregos no país, principalmente as micro e pequenas empresas,
responsáveis pela maior parte das vagas formais do Brasil.
Desse diálogo nasceu uma proposta baseada em
três pilares: redução da jornada para 40 horas semanais, dois dias de descanso
e manutenção integral dos salários.
A implementação
da proposta deve ocorrer de forma gradual e responsável,
assegurando maior previsibilidade para empresas, trabalhadores e consumidores.
Durante o debate, muito se falou sobre os
impactos econômicos da redução da jornada, apontando para uma eventual queda de
produtividade. Mas esse argumento já não se sustenta diante da realidade. O
Brasil está entre os países com maior carga horária de trabalho do mundo e,
ainda assim, convive há anos com a estagnação da produtividade.
Isso revela uma verdade que já não pode ser
ignorada: o desenvolvimento não depende apenas da quantidade de horas
trabalhadas, e a redução de jornada não é a vilã da produtividade.
Pelo contrário. Trabalhadores mais
descansados adoecem menos, faltam menos,
permanecem mais tempo nos empregos e produzem melhor. Empresas
brasileiras já vêm experimentando jornadas reduzidas e
relatando ganhos de produtividade, melhoria no ambiente de trabalho e redução
da rotatividade.
Ou seja, desenvolvimento econômico e
dignidade humana não são objetivos concorrentes, mas complementares. Uma economia forte
também depende de trabalhadores saudáveis, motivados e com qualidade de vida.
Outro aspecto que o Parlamento não poderia
ignorar é o avanço do adoecimento físico e mental da população trabalhadora. Os
impactos já alcançam famílias, empresas, Previdência Social, sistema público de
saúde e toda a economia nacional. Por isso, reduzir a jornada também é uma
medida de saúde pública.
A história nos ensina que avanços
civilizatórios raramente acontecem sem resistência. Foi assim com a criação da
carteira de trabalho. Foi assim com o 13º salário, que, durante sua
implementação, chegou a ser apontado como desastroso para a economia do país.
Até o fim da escravidão encontrou reações, quando muitos acharam que o Brasil
ficaria sem trabalhadores e não suportaria a mudança. Foi assim com tantas
conquistas que hoje consideramos naturais, mas que um dia foram tratadas com
relutância.
Já nos foi ensinado que a grandeza de uma
nação não se mede apenas pelas riquezas que produz, mas pela forma como cuida
daqueles que a produzem. Foi com essa convicção que a Câmara dos Deputados deu
esse passo histórico. O que entregamos ao país é mais do que uma mudança nas
relações de trabalho. É uma reforma para
a vida das pessoas.
*Deputado federal (Republicanos-PB), é presidente da Câmara dos Deputados

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